Excerto da Quinzena

Estaquei o passo ao me deparar com a porta do nosso apar­tamento entreaberta. Um nó apertou meu estômago. Quando estava bêbada, Andrea vivia fazendo esse tipo de coisa, esque­cer as portas abertas, deixar o controle remoto da televisão dentro da geladeira, perder as chaves. Naquele momento o ar ao meu redor parecia denso de emanações estranhas. Sem saber o que fazer, permaneci por alguns instantes em pé no corredor, tentando descobrir o que provocava aquele pres­sentimento ruim. Do lado de dentro, a sensação de estranheza persistia: as luzes de quase todos os cômodos estavam acesas e uma voz masculina ecoava do quarto de Andrea. Havia alguém ali com minha mãe?


Abandonada no chão da sala, encontrei com uma pequena toalha branca manchada de sangue. O vermelho intenso, quase negro, parecia obsceno e revelador. O que havia acon­tecido?, eu me perguntei mais uma vez, o coração batendo acelerado dentro do peito. Minha mãe estava ferida? Por que todas as luzes do apartamento estavam ligadas? Quem era o sujeito que se encontrava em seu quarto? O cheiro ferroso que preenchia a sala me repelia e atraía em igual medida.


Incapaz de desviar os olhos da toalha ensanguentada, pres­senti que aquela temporada feliz ao lado de Benjamim havia chegado ao fim.


 


Victor Vidal, Não Há Pássaros Aqui, Prémio LeYa 2023

Comentários

  1. António Luiz Pacheco21 de junho de 2024 às 02:54

    Encontrado o fio das ideias entregou-se a uma das suas divagações atentamente seguidas e sempre esperadas, usando as mãos para comunicar com gestos amplos e bem medidos, ora abrindo os braços ou juntando as mãos, ora apontando como se falasse com cada um, acompanhando-se de expressões dos olhos e rosto, a voz clara e bem modulada ora subindo ora sussurrando, escolhendo as palavras e frisando bem algum termo ou expressão que queria destacar…
    “O tempo não é de espingardas nem cacetada!”. Instruía, ”temos todos de aprender a jogar um novo jogo pois que o do pau é favorável aos liberais. Estão cheios de força e de dinheiro que é o que conta. São vencedores porque souberam manobrar e instalar-se! Os absolutistas perderam mais do que uma guerra, perderam o tempo e mais perderemos todos se não souberem os governantes, sejam eles quais forem, dar um rumo a esta pobre nação, dilacerada e dividida, onde uns poucos têm muito, e outros, muitos, pouco têm… e sobretudo nenhumas esperanças!
    É imperioso recuperar a nossa auto-estima em primeiro lugar! O orgulho nacional e não o que nos querem impingir os estrangeirados e os maçons que nos hão-de perder em nome dos interesses e da sua obediência às ideologias internacionais que pretendem dominar o pensamento e governar a Europa senão o Mundo! (o Conselheiro tinha muito pouca simpatia pelas ideias que dizia importadas, de Herculano que depois se instalou em Santarém, e Almeida Garrett a quem acusava de maçonaria). Se já fomos capazes de construir impérios saberemos manter-nos, fora da influência interesseira dos nossos vizinhos europeus e dos ditos aliados (acentuava a palavra num esgar de troça), à espera de nos aliviarem do que ainda temos e onde poderemos de facto construir o futuro: - As colónias! Reside aí a nossa esperança e se não soubermos usá-las as perderemos…“.
    Era esta, além da erradicação da escravatura, outra e a grande razão da comunhão e apoio ao ministro Sá Nogueira que o ouvia atento e acenava em concordância. “Então, pobres de nós! Reduzidos a um pequeno e pobre país, chorando por Sebastiões e grandezas passadas, incapazes de olhar o presente com realismo e de traçar um rumo para o futuro, eternamente assombrados por fantasmas nos tornaremos envergonhados de nós próprios. Fracos, seremos prontamente colonizados pelos outros para quem seremos apenas mão-de-obra e perderemos a nossa identidade, colonizados por nossa vez…
    Temos de estar atentos às novas ideias e ao que se passa no Mundo! Não é virando-lhes
    costas que nos protegemos ou obteremos resultados mas sim conhecendo-as e usando em nosso favor aquilo que tenha interesse, filtrando o que não nos serve. Oxalá os nossos políticos o saibam fazer, não aceitando tudo o que vem de fora, como a salvação! Evoluir não significa necessariamente que seja para melhor, há que saber fazer a escolha da mudança e sobretudo que se não cuidem apenas de acumularem honrarias, privilégios e encher as bolsas… que o poder corrompe. Quem governa tem de se pôr ao serviço duma nação e não de interesses particulares, partidários ou de certos sectores! Tem de governar, legislando para o povo e não contra ele! Não o pode desprezar nem tratar com superioridade paternal e sim de o servir e de o apoiar que é do que o povo precisa! Assim fazem nas grandes nações os políticos esclarecidos!
    Temos de participar na construção de um Mundo novo, do futuro, todos nós! De apoiar ou condenar os que governam, de ter clareza para o distinguir e a coragem para o fazer!
    Isso é o que o futuro espera de nós e o caminho por onde teremos de ir: - Construir ideais, e divulgá-los, levar atrás de nós a gente que nos ajude e queira participar. A riqueza está na pluralidade de ideias pois estas são a base das realizações, e, são o que fazem grandes as nações! Há que sacudir fatalismos e tibiezas! Há que avançar e fazer as coisas que são precisas! Senão, daqui por 150 anos teremos que responder à história e perante os nossos descendentes pelo que não formos capazes de fazer agora, o que terá neles reflexo, hipoteca

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  2. [...] um velho e uma velha [...] conversam, e as suas vozes têm o som rangente, azedo e descontente das vidas enferrujadas [...], sempre acres e gritantes - gargantas roucas e orelhas moucas -, queixosas da sorte e da espessura do ambiente sem eco, quando não lamuriosamente humildes, mendicantes. Falam [...] como toda a gente, ao mesmo tempo e sem se ouvirem, ou ouvindo-se a si próprios apenas, antecipadamente certos de que ninguém os escuta. Monologam em coro, por hábito e necessidade de maldizer, de traduzir em palavras inúteis as suas queixas inúteis.
    José Rodrigues Miguéis - É Proibido Apontar

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