Direitos e deveres

Quando eu era pequena, chamavam-lhes «deveres», embora a designação que se usava lá em casa fosse «trabalhos de casa», a que se seguiu a abreviatura «TPC», comum entre os jovens. Mas «deveres» servia para mostrar que, se gozávamos do direito a sermos educados e instruídos, deveríamos cumprir alguns deveres, como aprender e depois rever a matéria em casa por meio de trabalhos vários: cópias, ditados, contas, desenhos, composições... Na semana passada assisti quase por acaso (era o Manel que estava a ver uma série e a televisão ficou ligada, e ainda bem) a um filme que se chama justamente Trabalhos de Casa, do iraniano Abbas Kiarostami. Trata-se de um filme de 1989 e consiste basicamente numa entrevista mínima feita pelo cineasta a um grande número de rapazes de uma escola primária pública (são meninos de seis ou sete anos, que estão a aprender a ler), a quem ele pergunta quem os ajuda nos trabalhos de casa e o que lhes acontece quando não os fazem. E, embora tenham passado mais de trinta anos desde a realização do filme (relativizemos, enfim), é incrível como quase todos os entrevistados têm pais analfabetos (curiosamente, a ajuda nos trabalhos de casa costuma vir de uma irmã mais velha, mas não há uma única rapariga no filme). A maioria tem também medo dos professores e dos pais (há mesmo o caso de um temor incurável em que o aluno nem quis falar, aterrado com as consequências do que pudesse dizer, e pediu para ficar na presença de um colega); quase todos os miúdos, quando não fazem os trabalhos, sofrem castigos corporais de cinto (e algumas mães também batem, embora sejam sobretudo os pais). É quase cândido ver como a miudagem diz que gosta mais de fazer os trabalhos do que de ver desenhos animados, o que é obviamente falso (basta ver a carinha deles), mas é de certeza a resposta que as crianças acham que os salvará de uma boa surra. Fiquei mesmo marcada por este filme, a lembrar-me de que cá em Portugal também já se bateu com cinto, palmatória e régua, pais e professores, e que, enfim, a infância merecia amor e calma e quantas infâncias não foram duras, pobres e violentas? Fiquei também muito impressionada com a quantidade de TPC que crianças tão pequenas tinham de fazer, mesmo há quarenta anos, acho que isso por cá já mudou, não sei há quanto tempo, mas ainda bem (é preciso tempo para brincar). De todo o modo, o que quero mesmo é recomendar este filme que, por mais repetitivo que possa parecer, é uma lição sobre família, ensino, violência, medo, infância e falta de amor. É preciso ir atrás: foi na RTP2, na quinta ou sexta passada, mas vale imenso a pena.

Comentários

  1. Bom dia
    Passe a publicidade, o filme citado está também disponível em filmin.pt, o serviço de streaming que subscrevi em vez do "titytainment" da Netflix.
    Nesse dia fui deserdado pela prole.
    Boas leituras!

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  2. António Luiz Pacheco18 de junho de 2024 às 01:52

    Bom... não sei como era no Irão, nem como é actualmente... sei que aquilo que é hoje o Irão, se chamava no tempo em que fui criança: Pérsia. Era um país ocidentalizado e tido como moderno e desenvolvido. Hoje é uma república islâmica extrema, portanto imagino...

    Pela minha parte, nasci em 1956, numa família tradicional e tive uma educação tradicional, andei na escola também tradicional e no liceu... da forma mais tradicional e em uso naquela época. Brinquei muito porque tinha tempo para isso, apesar de ir para a escola pelo meu próprio pé, chovesse ou fizesse Sol. Não passava o dia todo metido na escola, tinha aulas de manhã ou de tarde, pelo que me ficava tempo para os trabalhos de casa, os tais deveres, e para brincar, como deveria ser... hoje é que já não é assim. Apanhei reguadas, carolos, cachações, piparotes nas orelhas, chineladas ou de colher de pau naquele sítio que a minha mãe dizia existir nas crianças para essa mesma finalidade. Tive uma infância tradicional e que recordo como tendo sido feliz a despeito de tanta tirania e violência, segundo os padrões de hoje, infância essa em que me formei e aprendi tanta coisa. Usava uma navalhita no bolso e nunca chamaram a polícia por causa disso... baldei-me algumas vezes aos deveres, o que me valia reguadas aplicadas na hora, ou uma mensagem para a minha mãe, escrita no caderno que tinha de ser assinada por ela, depois do competente corretivo de chinelo se fosse o caso e consoante a gravidade da ocorrência. Muitas vezes era posto de castigo, por exemplo não ver um programa de TV ou não ler o último o Tintin ou Patinhas! Um terror...
    Sinceramente não sei como sobrevivi, nem como não me tornei um assassino em série ou um terrorista, como é que não me tornei um adulto frustrado e a precisar do permanente apoio de psicólogos e psiquiatras. Curioso que nem sequer rôo as unhas...

    Estas memórias desses tempos de terror e da ditadura familiar e escolar, não sei se me façam rir se chorar.
    Enfim... parvoíces, diria eu numa linguagem sempre tradicional!

    Saudações cá da Cidade Morena, onde vejo passar em frente do escritório na Baía Farta, a criançada rindo e falando alegremente, a caminho da escola de batas brancas e as cadeirinhas plásticas na cabeça, contentes por nada, talvez porque nada tendo se satisfazem com pouco e são felizes?

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  3. Resumiu o filme/documentário com rigor. É um filme do realizador A. Kiarostami. Vale a pena ver por muitos motivos, nomeadamente como se formam cidadãos obedientes ao regime. Como é possível tanta ignorância, tanta maldade? O assunto anda à volta dos T.P.C. discussão ainda actual.
    Do mesmo realizador e ainda relacionado com o tema criança/escola, cito o maravilhoso ONDE FICA A CASA DO MEU AMIGO. Talvez se encontre na Filmim.

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  4. Kiarostami, um grande realizador de cinema a quem foram atribuídos os maiores prémios cinematográficos a nível mundial. Vi dois filmes, que achei excecionais, mas não esse. Obrigado pela sugestão.
    A viagem que fiz percorrendo o Irão de Shiraz a Teerão, mantém-se como a melhor das muitas que fiz. O regime teocrático que ali impera é um grande problema, principalmente para pessoas como eu que deixaram de acreditar em deus.

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  5. António Luiz Pacheco18 de junho de 2024 às 03:12

    Caríssimo e Extraordinário Amalivros... aquilo que a mim mais confunde, surpreende e até admira, porque incompreensível, é justamente como é que quem deixou de acreditar em Deus, neste caso a esquerda europeia (seja ela moderada, de centro ou extrema), pode efectivamente mais do que aceitar, apoiar, um regime teocrático em que quem deixe de acreditar naquele deus, seja pura e simplesmente decapitado? O mesmo regime que interdita e oprime, até executa, outras bandeiras dessa mesma esquerda filosófico-incongruente, como a homossexualidade e os direitos das mulheres?
    Decididamente há coisas que não consigo entender... aliás nem estou lá muito ralado com elas, pois tenho bastante mais com que me preocupar cá por estas bandas!

    Abraço!

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  6. Devo confessar que me sentia analfabeta quando ajudava os meus filhos a fazer os trabalhos. No primeiro ciclo, a actual primária, a aritmética mudou por completo, as operações são feitas de um modo completamente diferente. Mais tarde, em Português, aconteceu-me o mesmo com a gramática.
    Enfim, foi um alívio enorme quando passaram para o secundário. Aí e no superior ainda vou percebendo o que estudam e, agora sim, consigo ajudá-los.

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