O sol nas prateleiras

Talvez já aqui tenha falado disto, não me recordo; mas, numa busca rápida, não encontrei nada relacionado com o BiblioSol e, como tal, corro o risco de ser repetitiva, mas paciência. Penso muitas vezes, sobretudo por não ter filhos, o que será da biblioteca que eu e o Manel fomos construindo ao longo do tempo e que se vai perigosamente ampliando todos os dias. Até porque, como muitas outras pessoas, sei de  gente que se pelaria por ler e consultar alguns dos livros que ali estão, sobretudo os que já são muito difíceis de encontrar em livrarias e até  em bibliotecas mais pequenas. Pois bem, Renato Soeiro e César Silva propuseram que as bibliotecas privadas passassem a ser «abertas» ao público (com o acordo dos proprietários, bem entendido), no sentido em que muitos estudantes têm se calhar de percorrer grandes distâncias para ir a uma biblioteca ler um determinado ensaio quando, provavelmente, um dos seus vizinhos o tem na estante de casa e não se importaria de lho emprestar. O BiblioSol (é este o nome do projecto) funcionaria então como uma rede de bibliotecas aberta à comunidade: cada dono de  biblioteca inscrever-se-ia num site, disponibilizando-se para ser abordado por leitores à procura de obras específicas. Os leitores fariam o mesmo. E o livro procurado apareceria, provavelmente, com umas trocas de mensagens por e-mail. O BiblioSol estava inscrito no Orçamento Participativo de 2018 e, francamente, não sei se vingou porque nunca mais ouvi falar do assunto (e esta notícia que encontrei lá em casa a arrumar a secretária é de Agosto, pelo que me cheira que não tenha passado nas votações). Mas lá que era bonito, era. Até porque nos permitia falar de vez em quando com gente interessante e interessada e até poder aconselhar outros livros e autores ou receber sugestões. Enquanto, porém, nada acontece, que bata o sol nas nossas prateleiras.

Comentários

  1. Boa iniciativa. Permitia que, sem sair de casa, cada um pudesse saber onde encontrar uma obra esgotada ou de difícil acesso. E depois bastava ir ao seu encontro. É claro que ampliava contactos pessoais. Mas também exigia algum tempo livre dos proprietários dos livros.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Olá Bea,

      Também acho que é uma boa iniciativa.
      Pena é que estas ideias cheias de sol por vezes permaneçam na sombra...
      Também não tenho a quem deixar os meus livros (que são muitos), conto doá-los à Biblioteca, mas já pensei ir levar alguns à Prisão. O que quer que se tenha feito, deve ser um conforto ler um livro (para quem gosta de ler, claro) quando se está privado da liberdade.
      Um dia destes telefono ou vou lá...
      Também tenho muitos filmes que já não vou conseguir rever.
      Às vezes um pequeno gesto pode fazer algumas pessoas menos infelizes, quem sabe...
      Dia Feliz para todos.

      Maria

      Eliminar
    2. Boa Noite:)
      Os meus livros não são assim tantos. E espero que me acompanhem até ao fim ou pelo menos enquanto eu ainda os reconheça. Alguns, a família próxima pode querer. Os restantes, creio que a biblioteca da minha terra não quererá. Se ela já me deu a mim e a outros colegas livros novos e a estrear só porque nunca ninguém os requisitou...bastava escolher daquele montão os que desejássemos. Trouxe uma data deles.
      A ideia de doá-los a uma prisão parece-me bem. É possível que faltem leitores. Mas havendo vontade...estão lá.

      Eliminar
  2. António Luiz Pacheco24 de janeiro de 2019 às 01:39

    Louvável e sã iniciativa… mas, vejo muitos entraves e antevejo dificuldades que a vão impossibilitar.
    Mas, se calhar também haverá pouca gente interessada em consultar livros, mesmo que na vizinhança…
    Pela minha parte, não empresto livros, por sistema… das poucas vezes que o fiz dei-me mal! A forma mais segura de não ter uma biblioteca ou de acumular livros, é justamente emprestando-os… ir lá para casa, gente desconhecida consultá-los… pior ainda, sei lá a quem estou a receber…
    Mas isto sou eu, sou assim e assumo.

    Saudações e sudações Kaluandas, às 6.30 estavam 26ºC .

    ResponderEliminar
  3. Bom dia. Autêntico projeto de sustentabilidade! Modelo (inclusive) à de servir em movimento, outros países; por necessitarem o acesso a leitura.

    Cláudia da Silva Tomazi

    ResponderEliminar
  4. A Maria do Rosário agora pôs-me pensativa. Também não tenho filhos, pelo que o meu marido e eu até já fizemos testamento, evitando que a lei faça cair bens nossos em mãos que não desejamos (a lei que entra em vigor, não havendo testamento, claro). Mas ainda não tinha pensado na questão dos livros portugueses que tenho aqui na casa alemã!
    Obrigada pelo alerta.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Olá, Cristina

      Não sei como é a lei sucessória na Alemanha mas, em Portugal, caso muito tarde seja, ocorra a vossa herança, ela defere-se, na ausência de descendentes filhos, pela linha dos ascendentes (se os pais estiverem vivos) e pela linha colateral (irmãos, sobrinhos, etc.). É claro que, no falecimento de um dos cônjuges, neste vosso caso, o que sobrevive é herdeiro preferencial, juntamente com os pais do falecido, se vivos forem; caso os pais tenham já morrido, o cônjuge sobrevivo é herdeiro universal.
      Como há testamento, evitam o que vocês temem, e têm todo o direito moral e civil de o fazerem.
      Não se esqueça de salvaguardar, nesse documento, os direitos autorais da sua obra publicada, pois é também um bem transmissível, que só cai no domínio público ao fim de 70 anos.
      Aproveito para dizer que o seu "D. Dinis" é uma obra bem estruturada, maravilhosamente escrita e que vale reler, tanto mais que esse rei contraiu as bodas (o casamento foi por procuração, em Barcelona) na terra onde habito.
      Muito gosto em voltar a ler os seus comentários, depois da minha ausência deste espaço, onde então assinava com um "heterónimo".

      Eliminar
    2. Caro Fernando, sim a lei é igual. Não temos um património grande, mas, não havendo filhos, sentimos realmente necessidade de ponderar quem deve ficar com o quê. Como temos família alemã (do meu marido) há coisas que ficam mesmo aqui, mas vou ter de salvaguardar os livros portugueses, porque os herdeiros alemães não falam português e seriam bem capazes de os deitar fora. Seria pena, pois, além de ficção, tenho bastantes livros sobre a História portuguesa medieval. Confesso que nunca tinha pensado nisso. É claro que eu posso um dia mudar-me para Portugal e levaria os livros, mas isso também não é certo, até porque ninguém sabe quando morre... E na Alemanha também há bibliotecas portuguesas.

      Muito obrigada pelas suas palavras sobre o meu D. Dinis. É gratificante saber que gostou. Os meus direitos autorais foram salvaguardados (de qualquer maneira, obrigada também por essa atenção da sua parte). É verdade que são irrisórios, no momento, mas quem sabe se algum dia darão alguma coisa que se veja... Posso adiantar que ficam em Portugal.

      Eliminar
  5. Bom dia com alegria

    A propriedade individual é uma faca de dois gumes.

    Ter tudo e um par de botas é muito bom. Mas, multiplicado por milhões de pessoas, há desperdício de recursos, levantando questões de eficiência económica e ecológicas.

    E quem fala de livros fala de carros, motas, barcos, casas, bicicletas etc. etc etc.

    A partilha é uma questão cultural, um pouco fora de moda hoje, na idade das Selfies. Digo eu.

    No caso particular dos livros, refira-se que além do uso óbvio, são objectos importantes na acústica de uma sala, ao absorverem ondas sonoras. Para quem gosta de ouvir música, claro.

    Boas leituras
    CPedro
    (a terminar "Amor Líquido" - Zygmunt Bauman)

    ResponderEliminar
  6. As bibliotecas em Portugal são de extrema utilidade e são claramente escassas para a necessidade dos cidadãos que as utilizam (estão sempre cheias; difícil é arranjar lugar sentado). Servem sobretudo para jovens terem mesas em lugar silencioso onde podem abrir os seus computadores e estudar. E também para gente idosa, como eu, lerem jornais e revistas. São essas as duas utilizações fundamentais dos bibliotecas. Poucos as usam para consultar ou requisitar livros. Numa das grandes bibliotecas do Porto, nunca tive ninguém à minha frente para entregar ou requisitar livros (e só há um funcionar a quem devolver os livros requisitados). E a biblioteca está sempre cheia. Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades.

    ResponderEliminar
  7. Ideia no mínimo curiosa. :)

    Até por não vivermos num tempo vocacionado para partilhas...

    ResponderEliminar
  8. Além de melhorar a acústica, os livros e a madeira tornam mais fácil o aquecimento da sala durante o inverno. Esteticamente não são para desprezar. Mas vamos ao que é significativo: lê-los é o que mais importa.
    Esta iniciativa, se for exequível, parece-me deliciosa. Parece-me a mim, que tenho uns poucos milhares de livros e vou regularmente à biblioteca pública requisitar mais alguns. Hoje por exemplo trouxe "Mil Grous", de Y. Kawabata e "Pnin", de V. Nabokov.
    Boas leituras, Ex.mos Extraordinários.

    ResponderEliminar

Enviar um comentário

Mensagens populares deste blogue

Em Berlim

O que ando a ler

O principal e o acessório