Afinidades
Não falei do que andava a ler no início do mês, mas falo agora: trata-se de um romance de capítulos bastante curtos escrito por uma catalã, Tina Vallès, e intitulado A Memória da Árvore (Dom Quixote). A capa e o título despertaram a minha atenção, mas foi sobretudo a sinopse da contracapa que me convocou, porque falava de um neto e de um avô, cuja relação é aprofundada (mas também alterada, e de que maneira) pelo facto de o último sofrer de Alzheimer e ter de deixar a própria casa para ir morar com a filha e o genro na cidade. Quando comecei a lê-lo, tocaram logo campainhas: em primeiro lugar, A Despedida de José Alemparte, de Paulo Bandeira Faria (autor que infelizmente morreu cedo e não pôde brindar-nos com outras maravilhas), que tocava o mesmo assunto (embora tivesse outra história importante de permeio), o de um avô com Alzheimer que quer fixar as coisas enquanto ainda é possível recordá-las, e de um neto cómico que lhe faz companhia e usa o seu computador. Mas também Rugas, um romance gráfico notável que conta a história de um homem a quem é diagnosticada a referida doença e é internado num lar onde a vida não é uma coisa bonita de se ver (este teve filme, que apanhei por acaso há uns anos num canal por cabo, e nem era mau). São três livros afins, apesar de o de Tina Vallès ser muito mais enternecedor e comovente do que os outros. Todos valem a pena.
Fiquei curioso em relação à "Memória da Árvore" e às "Rugas"...
ResponderEliminarO Rugas é uma maravilha!
ResponderEliminarO Paco Roca é um artista extraordinário, exímio com as imagens e as palavras, e com a maneira como faz passar as emoções nas suas novelas gráficas.
Muito bons também "A Casa" e "Os Trilhos do Acaso".
Nesta altura da vida, em que os meus olhos já não são o que eram, tem sido bom descobrir este estilo de livros, alguns belíssimos.
O grande mestre (na minha opinião) é o Jiro Taniguchi, que tem livros comoventes e de uma beleza incrível.
Vou tentar espreitar os livros que a Rosário aqui sugere quando for à cidade.
⚘
Maria
Acabei de ler em Dezembro "Avieiros" de Alves Redol. Muito comovente e duramente realista. E também pedagógico: aprendi imensas palavrinhas novas. Estou agora a meio de "A sétima Onda" de José Rentes de Carvalho. (um pouco decepcionada, confesso....) que vou alternando com o "Processo" de kafka.
ResponderEliminarBeijos e um ano muito feliz.
Sandra: e "O processo"? Que livro, que monstro de livro, toneladas de livro, absolutamente assombroso.
EliminarMas estes foram os meus olhos e sentidos já que para muitos amigos um pesadelo intragável e ilegível.
Li A Metarmofose, O Castelo e O Processo quando era jovem. Agora não consegui reler O Processo, achei isso mesmo, fastidioso, intragável, pu-lo de parte logo às primeiras páginas.
EliminarAcredito e talvez por isso não volte a determinados livros de que gostei muito.
EliminarAseve: estou só a começar. Daqui a umas semanas digo!
EliminarUma temática muitíssimo relevante.
ResponderEliminarAinda que não tenha lido nenhuma das obras que referiu, e não sabendo assim em que dimensões da doença se focam, acredito que qualquer forma de sensibilização seja importante, podendo mesmo ajudar a quem vive de perto com uma condição tão dura e complexa como a doença de alzheimer (e que tem vindo a atingir no mundo ocidental proporções quase epidemicas).
Ao ler o título julguei que pudesse vir a referir a obra com que de momento me deparo - "as afinidades eletivas", de Goethe, de que estou a gostar bastante.
Saudações
Um tema que me parece oportuno, porque do abandono dos velhos e até algum desprezo por eles, nunca é demais falar.
ResponderEliminarPelo que percebo é um romance "bonito" ou se quiserem moralizador, se é que me entendem.
O título, esse é bastante sugestivo se o avô for a árvore, cujas memórias cativam o neto?
Saudações provectas cá do Bairro Ribatejano!
Há vários anos, andava eu a passear com a Lucy (quando ainda dava passeios grandes, agora, são bem mais curtos), fui abordada por uma senhora com certa idade, que eu não conhecia de lado nenhum, e me perguntou, assim de chofre, por quais ruas eu tinha passado. Fiquei um pouco irritada, mas algo nela perturbava, parecia aflita, e lá lhe fui dizendo. Depois perguntou-me se não tinha visto um homem assim e assado (seguiu-se descrição física e da roupa; estranhei que ela dissesse que ele teria calças de pijama). Disse-lhe que não, mas chamei a atenção para o facto de que era bem possível que ele tivesse passado por mim, sem eu notar, pois, quando dou os meus passeios, vou, por vezes, muito mergulhada em pensamentos (pode até acontecer ir a tecer algum enredo, ou a tentar resolver problemas de enredo de algo que esteja a escrever; um passeio ajuda muito). Enfim, a senhora disse que seria quase impossível não reparar num homem que, apesar de possivelmente estar agasalhado com um sobretudo (esperava ela, pelo menos, pois estava frio), teria calças de pijama, talvez até chinelas, e podia não estar muito bem penteado. Nisto, as lágrimas começaram-lhe a correr e ela explicou-me que o marido sofria de Alzheimer, que ela se tinha ausentado de casa por momentos e, no seu regresso, ele lá não estava. Andava aflita à procura dele, pois ele não se sabia orientar. Quase chorei também, pedi-lhe para ela me explicar onde morava e, caso visse o senhor, tentaria levá-lo lá. Despedimo-nos, mas eu, apesar de ir atenta, não vi um homem que correspondesse à descrição. E não faço ideia de como a história acabou.
ResponderEliminarQuanto a leituras, voltei aos romances históricos . "Constança", de Isabel Machado, chamou-me à atenção por contar o romance de Pedro e Inês sob a perspetiva da esposa dele.
Creio que se pode incluir nesse tema o "Leite Derramado", de Chico Buarque, de que gostei muito.
ResponderEliminarJá terminei a "Rua Katalin", de Magda Szabó, presente de Natal, de que também gostei. Era difícil atingir as alturas de "A Porta", outra obra desta autora húngara, um dos livros da minha vida.
A ver o que escolho para inaugurar o ano de 2019.
Li, muito rapidamente, A ridícula ideia de não voltar a ver-te, que ofereci a uma amiga que, depois de lê-lo, mo remeteu para o mesmo efeito. O facto é que ouvi uma entrevista na rádio com Rosa Montero e gostei do que ouvi; e depois, pareceu-me um livro que servia à minha amiga. Entrementes, entretenho-me a saborear a Poesia de Eugénio de Andrade como quem come quadradinhos de chocolate de inefável tablete.
ResponderEliminarFiquei curiosa acerca desses três romances.
Bea, mas a sua amiga não gostou do livro e devolveu-lho, foi isso?
EliminarEu gosto imenso da Rosa Montero.
Quando soube que esse livro tinha saído em Espanha, encomendei-o no El Corte Inglés, mal sabendo que ele viria a ser traduzido cá.
E gostei muito, muito mesmo, daquele cruzar de histórias das vidas da Marie Curie e da própria Rosa Montero.
É um livro e uma autora que eu recomendo e/ou sugiro frequentemente.
⚘
Maria
Não, Maria. Confidenciei à minha amiga que não o tinha lido e estava curiosa por saber a sua opinião. E ela, que é uma querida e sabe como gosto de ler, "mal o leia mando-to". E diz o marido a imitá-la, "vós sois umas malucas". E talvez:)
EliminarTambém gostei do romance. `Porque aprendi mais sobre Marie Curie que se chamava outro nome. Porque li a perspectiva da romancista sobre a cientista e com a qual discordo em muita parte, mas respeito, pertence-lhe por direito de escrita e de pessoa, é o seu imaginário sobre os factos que conheceu e estudou. E porque o livro nasceu de uma circunstância que conheço e admiro que a escritora preserve a intimidade do sofrimento. Do que não pode dizer-se nada se diz.
Malucas, doidas, loucas, mas é uma loucura boa, não é Bea?
Eliminar"Mas o mundo nos chama loucas
Porque temos os livros no coração" 🎼🎼🎼
E atenção àquela história do burro... olhe que quero continuar a lê-la por muito tempo, ok?
⚘
Maria
Maria, que burro? alguma coisa que por certo escrevi em qualquer lugar...mas só mandamos - um bocadinho de nada - no tempo em que vivemos; nesse, desde que os instrumentos não enferrugem de todo, é provável que ande por aqui a deixar miolinhos de pão às aves. E logo nos encontramos:).
EliminarObrigada.
Foi aqui no Horas, no dia 8 Janeiro :)
EliminarO burro do espanhol que morreu, etc e tal.
Se cuide, tá?
Beijinho
Maria
Obrigado!
ResponderEliminarTe gustará saber que tuve la suerte de traducir al catalán un libro de Paco Roca, 'La casa', que te recomiendo mucho q
...que te recomiendo mucho que leas porque creo que se relaciona bien con 'Rugas' y 'A memória da árvore'. Soy Tina Vallès. Saludos y perdona por no escribirte en portugués.
EliminarGracias, Tina! Me gusta mucho recibir tu comentario! Y enhorabuena por tu novela. Un abrazo.
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