Histórias que fazem bem
Descubro no meio do lixo todo que leio todos os dias (somos invadidos por ele e às vezes nem o podemos deter, porque aparece em cima do que estamos a consultar e obriga-nos a esperar x minutos para nos livrarmos dele) uma notícia muito bonita – ainda que, curiosamente, tenha também que ver com... lixo. É verdade: em Ancara, na Turquia, abriu em Setembro uma biblioteca pública formada quase exclusivamente por livros abandonados e deitados fora, que foram sendo recolhidos por homens do lixo. A ideia inicial era serem trocados entre eles e as respectivas famílias, o que aconteceu durante os primeiros meses, mas o número de livros foi crescendo e, a certa altura, já eram os habitantes da cidade que lhes vinham entregar livros e revistas que já não queriam. O projecto atingiu, assim, tais proporções que teve de dar origem a uma biblioteca física, e a autarquia apoiou a sua instalação numa fábrica de tijolos igualmente abandonada. A nova biblioteca já tem cerca de 6000 títulos! Haja esperança. Bom fim-de-semana. A ler, claro.

Bela história sim senhor. Ainda há gente sedenta de leitura e que ama os livros. Também eu já resgatei do lixo algumas dezenas de livros da antiga colecção Mil Folhas do jornal PÚBLICO tendo guardado alguns para mim como a LOLITA do Nabokov ou IMPÉRIO do Gore Vidal. O resto doei a uma biblioteca da zona onde moro.
ResponderEliminarBela história, sem dúvida. E a sua não lhe fica atrás. Incrível o que as pessoas fazem com os livros...
EliminarBom fim-de-semana a todos, com boas leituras e, já agora, não deixem de espreitar os contentores e ecopontos ;)
Engraçado. Também encontrei esse livro de Gore Vidal entre os meus livros esquecidos. Vou voltar a lê-lo. Não tenho dele qualquer memória.
EliminarA ler, claro. Haja esperança.
ResponderEliminarA propósito de "a ler, claro", confesso o prazer que tive esta semana ao ler os retratos curtos de escritores (e de dois artistas plásticos) que Mário Cláudio conheceu (todos portugueses, todos já falecidos). Em três ou quatro páginas, às vezes até em menos, Mário Cláudio faz de cada autor um personagem fascinante, lembra-nos os seus sucessos e os seus injustos esquecimentos, os mal entendidos e as invejas pátrias, ironiza sobre algumas fraquezas dos seus congéneres e fraquezas suas também, fala de si ao escrever sobre os outros. Logo o primeiro retrato, de Ferreira de Castro, é uma verdadeira pérola. O livro chama-se "A Alma Vagueante" (que bela definição de um criador) e reúne crónicas já publicadas no DN, mas que eu desconhecia. Está escrito com benevolência e humanidade e, claro, com a qualidade literária do autor; sente-se que Mário Cláudio se divertiu, deve ter-se mesmo rido, ao escrever estas suas memórias e nós também nos rimos ao lê-las, ao reconhecer traços pessoais dos nossos ídolos literários. É um livro que nos faz ter vontade de ler ou reler estes grandes escritores que foram nossos contemporâneos. Acresce que o prefácio de José Carlos Vasconcelos é também uma bela peça literária. Ele certeiramente anota que o estilo de Mário Cláudio nestas crónicas biográficas é mais ágil do que o que se frui nos seus romances, mais dados a uma linguagem sofisticada e barroca, requisitando o leitor para uma leitura mais exigente e lenta.
EliminarObrigado caro extraordinário Artur Águas por esta sua excelente nota - leio sempre com muito agrado os seus ponderados e sábios comentários (e o quanto aprendo com eles); fiquei com imensas expectativas relativamente a este novo livro de Mário Cláudio.
EliminarBom fim de semana a todos. Boas leituras.
Caro Amigo Severino, muito obrigado pelo seu generoso comentário. Devo confessar-lhe que leio com toda a atenção, aqui nesta nossa tertúlia virtual, os seus "posts". Eles têm-me têm oferecido belas sugestões culturais. Bom fim de semana !
EliminarE este é um comentário, caro Artur, que me faz ter vontade de ir a correr comprar este livro do Mário Cláudio.
EliminarMuito obrigada pela sugestão. :)
Peço desculpa pelo "têm" a mais no meu último comentário.
EliminarSe me permite uma sugestão: leia uma ou outra crónica do "A Alma Vagueante" numa livraria antes de gastar o seu dinheiro. É o que eu faço sempre antes de me decidir. Os livros estão a um preço tal que faz sentido assegurar que livro que se vai comprar irá ao encontro do nosso gosto pessoal.
EliminarSim, claro, mas aposto que vou comprar, pois gosto muito do Mário Cláudio e já li vários livros dele, embora nenhum de crónicas.
EliminarE agora fiquei com imensa curiosidade em ler (saber) o que ele diz do Pina, do Eugénio e de tantos outros.
Obrigada, mais uma vez. :)
Vejamos o complemento e o cerne da notícia.
ResponderEliminarOs homens do lixo, geralmente considerados de extracto humilde da sociedade, recolhem livros que outros, provavelmente de extractos superiores da mesma sociedade, deitam fora (sem, ao menos, reciclar). Este é o cerne da notícia.
Quanto ao complemento, este leva-me a acreditar que a cultura literária não repousa apenas naqueles que, pela educação e demora nos vários estádios escolares, chamam a si esse direito.
Não diz a notícia em que vasos do lixo esses homens recolheram os livros - se em ecopontos do papel e cartão, se em contentores do lixo de rua - porque, se nos primeiros ainda se recuperam as obras pouco danificadas (na estação de tratamento, o mais provável), nos segundos retiram-se com a amálgama mal cheirosa de subprodutos da cozinha e derivados do lar.
Há pessoas que aproveitam a proximidade das entradas dos dois vocábulos no dicionário - livro e lixo - e optam por essa operação, sem cuidarem que há lugares mais apropriados a quem entregar essas obras. Sermões e chamadas de atenção, não parecem resultar, pois têm como lema - quem foi infiel uma vez, será duas ou três.
Fernando Joca Martinho
Esqueci-me de lançar esta "pedrada".
EliminarNão sei se alguém nesta sala, perante o foro que julga os que lançam os livros no lixo, pode atirar a primeira pedra.
Fernando Joca Martinho
Haja esperança, sim! Pois é pela literatura, pela poesia, pela arte enfim que a humanidade se manterá humana!
ResponderEliminar(gosto muito dos textos que escreve, aprendo sempre com a leitura das suas "Horas Extraordinárias". Obrigada)
Eu é que agradeço!
EliminarSera com certeza. NOS LIVROS estao grandes tesouros
ResponderEliminarSe fizerem o mesmo em Portugal, adquirem idêntico volume de livros. Podem até guardá-los em biblioteca própria como fizeram os turcos. Mas duvido que seja muito frequentada. O médio prazo da leitura afugenta. Pensar por si mesmo é desuso.
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