Atlas literário
A ideia é boa, embora me pareça que o trabalho seja interminável enquanto os escritores forem escrevendo livros passados em Portugal. Trata-se de um atlas da paisagem portuguesa que consta da literatura (O Atlas das Paisagens Literárias de Portugal Continental, em execução), um projecto coordenado pela investigadora Ana Isabel Queiroz que compreende mais de 350 obras de mais de 170 escritores, do século XIX aos nossos dias, e pretende ser um “repositório de excertos literários” de livros escritos por autores do mundo inteiro (portugueses também – ou sobretudo) que incluam referências à paisagem portuguesa, assim permitindo aos leitores uma viagem pela literatura e pelo território ao mesmo tempo. A notícia dá como exemplo uma descrição da Praça do Comércio, em Lisboa, feita nada mais nada menos do que por Hans Christian Andersen, por causa de uma visita que fez à capital portuguesa em 1866; mas o atlas incluirá naturalmente muitos excertos de Viagens na Minha Terra, de Garrett, Portugal Pequenino, de Raul Brandão, Praias de Portugal, de Ramalho Ortigão, A Cidade e as Serras, de Eça de Queirós, Contos da Montanha, de Miguel Torga, ou Novelas do Minho, de Camilo Castelo Branco – e só estou a mencionar o mais óbvio. O mapa deve ser trabalho para muitas mãos e desconheço quando fica pronto, mas lá que vou gostar de lhe meter o nariz, não nego.
Bom dia. Parece-me muito interessante. Um projecto, sem dúvida, a seguir.
ResponderEliminarParece ser uma idéia Extraordinária! Aguardo com impaciência a saída da obra.
ResponderEliminarQuem sabe, até eu mesmo me veja citado nela, uma vez que também sou dado a fazer descrições geográficas... e por exemplo, era assim o Bairro Ribatejano, antes da febre do milho que actualmente cobre os campos, felizmente os olivais não passaram de moda, mas a manta de retalhos que era a paisagem do Bairro, desapareceu:
" Ia já Setembro avançado mas o Sol subindo na manhã prometia dia quente fazendo resplandecer na ampla paisagem do bairro ribatejano os seus cabeços coroados de pinheiros, sobreiros e de mato, doirando pastos e restolhos. Nas encostas, os pomares ainda verdejando e as vinhas já avermelhando, salpicadas de macieiras e figueiras, as folhas e cachos orvalhados, amadurecidos pelo calor daquele cuja luz os proveu de açúcar, a força e sabor do vinho! Reflectia-se nas folhas de olivais seculares, o oiro do bairro que fazendo reserva de Sol iluminava depois lamparinas e reluzia nas hortaliças ou saladas das muitas hortas amanhadas nas baixas frescas, onde nascentes assinaladas por canas e inúmeros poços traziam à superfície uma água saborida, outro grande segredo desta região generosa, com o seu povoamento disperso, ponteado de casitas, em casais e fazendas, riscada por caminhos orlados de piteiras e figueiras-da-índia, dividida por sebes de marmeleiros, ladeados por frondosas olaias, nogueiras, tílias, cerejeiras e diospiros.
Ao fundo, correndo para o Tejo em longo vale alagadiço por entre salgueiros, a Vala d’Asseca ou Rio Maior. Luzem-lhe em volta pauis e lezírias onde grasnam galinhas-d’água, bordejados por orgulhosos freixos, altos e frondosos, em que arrulham as rolas.
Depois, subindo para lá, a charneca! Agora fornalha ressequida, desolada, inçada de orégãos, ineixas, atádegas, estevas e todas as plantas olorosas que dão cheiro ao Verão; de cardos, alcachofras, carrapiteiros, tojos e carrascos que arranham as pernas afoitas; rasteiras silvas, roseiras-de-cão e madressilvas que se enrolam nos pés e abafam as árvores. Quando o vento se levantasse, correria pelo vale e redemoinharia pelas encostas, transportando o aroma da frescura e o enjoativo das figueiras-do-inferno mais o chilrar dos abelharucos, a aliviar a tarde, trazendo depois do fresco e pela noitinha fora, nuvens de melgas e o coaxar de muitas mil rãs!" (In Largueza)
- Perdoem-me o atrevimento e a vaidade. Aliás ambos aumentados pelo facto de ter o excerto seguinte, sido citado num trabalho recente sobre o traje tradicional do Bairro.
Saudações inchadas, cá da Cidade Morena!
Cá da Pérola do Atlântico, bom dia Maria do Rosário e demais convivas!
ResponderEliminarAlberto Manguel em conjunto com Gianni Guadalupi, também escreveu um livro: Dicionário de lugares imaginários, sobre a mesma temática, mas, num universo mundial, serão 1200 lugares criados/inventados. Ainda não li.
Esta obra que nos trás, Maria do Rosário, deverá ser igualmente interessante.
Pois, pode ser um trabalho "insano".
ResponderEliminarQuase todos os livros, são um "atlas literário"...
(Luís Eme)
EliminarEstas "caixas" modernas transformam-nos em "anónimos". :)
Samyaza bebendo café.
ResponderEliminarA descentralização começa na literatura; parabéns!
boa ideia. para além dos nossos autores, será curioso observar o olhar de espanhóis e franceses (estou a lembrar-me de alguns que por cá passaram), sobretudo pela proximidade, mas também a visão de outros europeus, americanos e orientais.
ResponderEliminarMagnífica idéia! Há descrições de todos os tipos e gostos se lhe deixa geograficamente ou topograficamente e até geologicamente ou, ecologicamente natural o vosso. Ai, de ti "Dantas" cala-te boca.
ResponderEliminarCláudia da Silva Tomazi
Esperemos que não se esqueçam de Carlos de Oliveira. Demasiadas vezes fica para trás.
ResponderEliminarEu não me esqueço, mas não estou a ver quem é... pode dar-me alguma informação?
EliminarFiquei curioso.
Caro António Luiz Pacheco,
EliminarCertamente já ouviu falar de romances como «Finisterra» ou «Uma Abelha na Chuva». São ambos de Carlos de Oliveira, grande romancista e grande poeta. Recentemente, foi-lhe dedicada uma exposição no Museu do Neo-Realismo (talvez ainda possa ser visitada). Essa exposição foi pretexto para muitos debates e conversas à volta do escritor. Em buscas de Internet certamente encontrará muita informação.
Finisterra!!!!! Claro... já sei quem é!!!!
EliminarObrigado ...
Não tenho particular interesse em ler tal obra. Prefiro-lhe um bom romance ou qualquer outro livro que me desperte.
ResponderEliminarPois, ao contrário do caro anónimo, eu acho este tema bem interessante - e não me parece que vá adormecer quando estiver a ler este livro...
Eliminar;-) Antonieta
I wish I could
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