Venha o Diabo e escolha

É bom quando uns livros nos levam a outros – e foi isso que me aconteceu recentemente: o livro de Isabel Lucas sobre a América através dos livros – Viagem ao Sonho Americano (de que falarei também aqui um dia destes) – acabou por nos levar (ao Manel primeiro e a mim depois) até um autor que não conhecíamos: Donald Ray Pollock, um homem que foi quase toda a vida operário numa fábrica do Ohio e que de repente tirou um curso de Belas Artes e começou a escrever. A uma colectânea de contos muito aplaudida pela crítica, seguiu-se Sempre o Diabo, o romance que aqui me traz hoje e que é realmente um caso sério de boa literatura. Se gosta dos filmes mais violentos de Tarantino (ou, vá lá, com menos humor), de Natural Born Killers, de Oliver Stone, ou mesmo algum David Lynch mais sórdido (e, porque não?, de algum Cormac McCarthy), então adorará este livro cheio de «feios, porcos e maus», entre os quais um casal de serial killers que dá boleia às suas vítimas nas férias de Verão (as férias são só para isso, de resto), um veterano da Segunda Guerra Mundial que sacrifica animais para salvar a mulher de um cancro, ou a estranha dupla de pregadores Roy-Theodore (um deles deficiente e gay) que testam a sua fé de maneiras bastante estranhas (com aranhas, por exemplo). É difícil encontrar neste livro alguém que seja bom e inteligente, excepto Arvin, por cuja vida tememos até à última página; mas, apesar do permanente pontapé no estômago, este é um romance sobre a vida precária de uma certa América que, no meio da tragédia, consegue passar laivos de uma estranhíssima humanidade. Autor a acompanhar, evidentemente.

Comentários

  1. . 1º Para o leitor curioso e ávido, é frequente que uns livros levem a outros, e que uns autores levem a outros... creio mesmo que é uma das consequências fatais de se ser leitor!

    .2º Sou grande fã do citado Tarantino, que nos dá uma imagem bastante real do que são as pessoas, no caso os americanos, suponho eu, dado que os seus filmes estão cheios de "cromos" magistralmente desenhados e muitíssimo bem interpretados por actores igualmente bem escolhidos.
    Acho os filmes dele geniais!

    .3º Na sua diversidade e imensidão, geográfica e social, humana, antropológica, cultural, etc. , os EUA são um manancial inesgotável para escritores atentos e com essa sensibilidade, que os há muitos e bons. Os bons livros, romances americanos, que conheço e para mim os melhores, estão cheios de personagens que são gente comum por estranho que pareça, nem cultos, nem inteligentes, nem bons... são apenas pessoas como qualquer um de nós, aliás, o que nos ajuda a criar com eles aquela tal "amizade" virtual, a identificar-nos.
    Muitos dos Grandes Romances Americanos (incluo a América do Sul) são assim, com pessoas assim.

    Saudações amigáveis, cá da Cidade Morena

    ResponderEliminar
  2. Cá da pérola do Atlântico, bom dia Maria do Rosário e restantes convivas!

    Sou capaz de compreender que o mundo em que vivemos continua recheado de barbárie e horror, mas não deixa de me fazer confusão que os escritores de hoje gostem de esmiuçar, aprofundar, escalpelizar, escrever sobre todo tipo de crimes.
    O livro que a Maria do Rosário refere é um bom exemplo, por isso não seria capaz de o ler/adquirir, porque sinto que não me ia acrescentar nada, nem fazer mais feliz.

    ResponderEliminar
  3. Este Pollock, que eu de todo desconhecia, fez-me lembrar o empregado dos correios Bukowski de cuja literatura sou fã. Bukowski vem da América citadina, marginal e alcoólica. O Pollock virá da América profunda. Irei lê-lo. A propósito da América profundo, transcrevo o que acabo de ler no NYT: "It was “a week like any other” in Cincinnati and its suburbs: at least 180 opioid overdoses, 18 fatal ODs, 15 babies born with medical problems due to their mothers’ heroin abuse. A team of 60 reporters, photographers and videographers covered it hour by hour, capturing scenes in courtrooms, treatment centers, hospitals, jails, halfway houses and a funeral parlor. Recordings of 911 calls included one from a tearful 11-year-old girl who couldn’t get her father to wake up. The package is so vivid, so brimming with powerful details that lay bare the consequences of the opioid epidemic, that I read it twice." Horrível ! Bate certo com a temática do Pollock.
    Agora a despropósito, um desabafo: nem sempre um grande livro dá um grande filme, como foi o caso do "Índice Médio de Felicidade" Machado/Leitão.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Caríssimo Artur Águas, não gostou do filme?
      Sabe, eu vi o trailer e fiquei na dúvida porque não me "pareceu parecido" com a idéia que tinha ficado da leitura do livro, do qual aliás gostei imenso!
      Mas a minha curiosidade em ir ver o filme, é grande, por isso mesmo - por ter gostado do livro.

      Saudações cinéfilas cá da Cidade Morena, onde se poderiam fazer vários filmes dos mais variados géneros e até daqueles ainda por descobrir!

      Eliminar
    2. Caro António Luíz, Eu sabia à partida que a prosa esplendorosa do David Machado não podia ser transferida para o filme: um livro fascinante sobretudo pelo estilo literário dificilmente nos fascinará quando dele apenas recebemos o enredo romanesco. E é o que se passa, a meu ver, com este filme que nos oferece uma narrativa fiel à do livro mas que não trabalhou a complexidade dos personagens. É um filme de seres unidimensionais: são todos tão bonzinhos que o filme se torna plano, chato. O realizador não trabalhou os personagens. Foi pena.

      Eliminar
    3. Compreendo perfeitamente... é o que muitas vezes falha no nosso cinema, o trabalhar do personagem mesmo que em detrimento do enredo, justamente aquilo em que são magistrais o Tarantino ou o Stone, aqui citados.
      E no entanto acho que vamos tendo muito bons actores, o que parece contradição.

      Abraço!

      Eliminar
    4. De acordo ! Nada a dizer da qualidade dos atores neste filme do Joaquim Leitão, o problema é que falta espessura às personagens...

      Eliminar
  4. Samyaza bebendo cerveja13 de setembro de 2017 às 04:03

    Sempre aqueles Estados desunidos. Nas Honduras, na Guatemala e no Lesoto habitam assassinos bem mais impiedosos e crudelíssimos. Sempre os mesmos chorrilhos. MAGA que os pariu..

    PS - MAGA: acrónimo de Make America Great Again.

    ResponderEliminar
  5. Nota: Esse Pollock estudou belas-artes ... será familiar do Jackson Pollock o notório pintor, por acaso dos pouco abstracionistas que aprecio?
    (JP nasceu a 28 de Janeiro de 1912 em Cody, no estado de Wyoming, EUA. Começou seus estudos em Los Angeles e depois mudou-se para New York.)

    Ficou-me a curiosidade!

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Penso que, se fossem parentes, o publicitariam nas badanas...

      Eliminar
    2. Tem razão... mas é um nome invulgar, julgo eu, na minha ignorância dos nomes americanos. A menos que ele tenha razões para não querer ser identificado, parece ser do Ohio que é colindante com o estado de NY , o outro viveu e morreu. O detalhe das belas-artes é que me chamou a atenção! Coincidências...

      Eliminar
  6. "Sempre o Diabo" - o melhor livro que li em 2015, a par da "Filha do Coveiro" da Joyce Carol Oates e de "Luz em Agosto" de W.Faulkner.
    Grande livro, grande literatura!
    Já o tinha recomendado aqui no horasextraordinárias.

    ResponderEliminar
  7. Não conheço e algo me diz que talvez não vá conhecer... É um estilo literário-cinematográfico um bocadinho difícil de digerir por este cérebro.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. "difícil de digerir por este cérebro"

      Ahahahahah! Se me permite e sem ofensa!
      Fabulástica!
      Uma imagem Extraordinária, mesmo que eu goste do género e dos realizadores!

      Saudações hílares cá da Cidade Morena!

      Eliminar

Enviar um comentário

Mensagens populares deste blogue

Em Berlim

O que ando a ler

O principal e o acessório