Epitáfios

Perguntam por vezes aos famosos o que gostariam de ver escrito nos seus túmulos – e há respostas bem divertidas, tendo em conta que estar morto deve ser mesmo muito chato. E hoje, que estava com falta de imaginação, vou aproveitar-me descaradamente de algumas lápides que alguém partilhou um dia destes no Facebook e reproduzir o que tinham escrito: «Aqui jaz a minha esposa (nome)... fria como sempre.» (Sinceridade acima de tudo.) «Eu bem vos disse que o médico não valia nada.» (Não sei se a família se arrependeu, mas a acusação sobrevive ao morto.) «Um amigo e eu apostámos quem conseguia estar mais tempo debaixo de água. E eu ganhei.» (Não lhe serviu de grande coisa, diria eu). «Agora você está com o Senhor. Senhor, cuidado com a carteira.» Por último, um túmulo apenas com as datas de nascimento e morte que diz: «Finalmente.» (Podia ser um marido insuportável e violento, nunca saberemos.)  Enfim, há gente para tudo, mortos incluídos. Pode ser um exercício engraçado pensarmos no que gostaríamos de ver escrito na nossa lápide. Eu, mesmo assim, prefiro ser cremada.


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Comentários

  1. Ideia engraçada pensarmos no nosso epitáfio. Dá bem conta da nossa mortalidade.

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  2. Emílio Gouveia Miranda12 de junho de 2017 às 02:39

    No vento, sem palavras (um belo epitáfio para quem viveu delas): diria eu.
    Ou: Palavras leva-as o vento - literalmente.

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  3. Ahahahah! Um tema humorado e afinal igualmente literário...
    Há casos célebres... Mark Twain, terá sido dado como morto por um jornal, e depois teria comentado que as notícias sobre a sua morte foram exageradas!
    Também o célebre John "Portuguese" Philips (um português que foi uma personagem lendária no Far West) em certa ocasião foi igualmente dado como morto numa refrega com os índios. Ele escreveu ao jornal de Cheyenne a desmentir, e o director publicou o desmentido, referindo que ele escrevera ao jornal afirmando-se vivo e que, sendo homem de palavra, era de aceitar que assim fosse!

    Uma história ouvida creio que ao "Menestrel Maldito" (Juca Chaves):
    Um fulano chamado Máximo, detestava o nome e portanto determinou que não teria o nome escrito na lápide e assim ninguém saberia que era ele que ali estava e nem o nome! A mulher e filhos, contristados, mandaram fazer um longo epitáfio onde louvaram as suas qualidades, ao género de: Aqui jaz um marido e pai adorado, que não bebia, não jogava, que amava a família etc.
    Resultado, as pessoas passavam pela campa e atraídas pelo longo texto e os encómios, exclamavam: "Puxa! Esse cara era o Máximo!"

    Bom, e para terminar, quando a "socialite" (colunável? notória? isto porque o Severino vai dar-me já nas orelhas!) Lili Caneças falecer, poderão epitafiá-la (existe?) assim:
    - Estar morta é o contrário de estar viva!
    Lapidar!

    Saudações vivamente humoradas cá da Cidade Morena!

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    1. António Luiz Pacheco12 de junho de 2017 às 02:48

      Q'ais anónimo, q'ais quê, sou eu o A.L.Pacheco!

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  4. Lá quando em mim perder a humanidade
    Mais um d′aquelles, que não fazem falta,
    Verbi-gratia — o theologo, o peralta,
    Algum duque, ou marquez, ou conde, ou frade:

    Não quero funeral communidade,
    Que engrole sub-venites em voz alta;
    Pingados gatarrões, gente de malta,
    Eu tambem vos dispenso a caridade:

    Mas quando ferrugenta enchada idosa
    Sepulchro me cavar em ermo outeiro,
    Lavre-me este epitaphio mão piedosa:

    «Aqui dorme Bocage, o putanheiro:
    Passou vida folgada, e milagrosa;
    Comeu, bebeu, fodeu sem ter dinheiro.»

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  5. António Luiz Pacheco12 de junho de 2017 às 03:16

    Bom... já que vamos por aí, temos esta frase lapidar de Os Lusíadas, que se aplica ao nosso povo mas eventualmente a algum personagem:
    "E se mais Mundo houvera lá chegara."

    O que teria certamente inspirado um célebre boémio lisboeta, impenitente, que dizia em noite inspirada o que seria o seu epitáfio:
    "Aqui jaz D. .... de Bragança.
    Se mais vinho houvera, o bebera!"




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  6. Isto do morrer é muito relativo"
    Albert Einstein

    " Nunca percam a cabeça"
    Maria Antonieta

    " Eu fui o Mao da China "
    Mao Tsé-Tung


    in "Epitáfios Apócrifos"
    Hilário Dantas

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  7. Aqui há tempos escrevi um poema intitulado "Epitáfios", mas agora não me apetece exumá-lo.

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    Respostas
    1. António Luiz Pacheco12 de junho de 2017 às 04:07

      Quer que lhe mande uma intimação judicial? Em verso...
      Eheheheh!
      Vá lá, chegue-se à frente que hoje estamos muito bem-dispostos!

      Abraço.

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  8. Em Maramures, norte da Roménia, junto à fronteira com a Ucrânia, há uma aldeia chamada Sapanta (faltam vários sinais no nome que não usamos em Português, nomeadamente um til no T), que é conhecida pelo seu "cemitério alegre". Todas as lápides são pintadas de cores alegres, e têm inscrições divertidas e sarcásticas, que remetem para a vida que quem lá repousa teve. Acreditem que é uma grande atracção turística.

    Deixo um link para quem quiser espreitar (só encontrei em inglês):
    http://www.atlasobscura.com/places/merry-cemetery

    Rui Miguel Almeida

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    Respostas
    1. Já fui espreitar e não admira que seja uma atracção turística: é realmente um cemitério diferente de todos os outros.
      Parece que eles acreditam mesmo que a morte é apenas a passagem para um mundo melhor... então há que estar alegre e celebrar.
      Obrigada pela dica.
      :-) Antonieta

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  9. António Luiz Pacheco12 de junho de 2017 às 04:05

    A nossa Extraordinária Cristina Carvalho ainda há-de vir falar nisso... há na zona Saloia, duas aldeias contíguas com os nomes das ruas em verso, o que é bem original e muito curioso...

    Gouveia e Fontanelas se chamam, e ficam ali entre as Azenhas do Mar e o Magoito. Foi um poeta local e popular, José Valentim Lourenço.

    Vão ao Gúguel e vejam, que vem lá tudo! Vale a pena, é o Portugal menos-conhecido e que afinal nos surpreende com tantas destas coisas se quisermos como Alberto Caeiro descobri-las todos os dias para nosso espanto e satisfação.

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  10. "Aqui jaz um homem rico
    Nesta rica sepultura
    Salvava-se da morte
    Seo não matasse a cura"
    (Bocage, citado de memória)
    JCC

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  11. Respostas
    1. António Luiz Pacheco12 de junho de 2017 às 06:59

      E que tal: "Tirem-me daqui!" , ahahahah!

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    2. Isso depende do que ele (o autor do epitáfio) «já sabe» e que eu, felizmente, ainda não sei.

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  12. O dia de Santo António - para além do folclore habitual dos casórios, marchas e sardinhadas - recorda-me sempre a Poesia: no dia 13 de Junho nasceram Yeats e Pessoa; também neste dia, há 12 anos, morreu Eugénio de Andrade.
    Três dos meus poetas favoritos e, reparo agora, nem sei o que está escrito nos seus túmulos...
    :-) Antonieta

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