Amor no papel químico

Quando comecei a trabalhar na edição, ainda ninguém tinha computadores pessoais – e só dois ou três anos mais tarde tive direito a uma máquina de escrever eléctrica. No início, a máquina era dessas pesadonas que faziam trrriiim quando chegávamos ao fim da linha; e eu tinha de pôr no rolo duas folhas separadas por outra de papel químico para ficar com uma cópia de tudo o que enviava. Parece mentira, não é?… Bem, mas uma folha de papel químico de um tempo passado, se encontrada na modernidade, pode conter verdadeiros tesouros. Os investigadores da obra da poetisa Sylvia Plath que o digam, pois descobriram, escondida dentro de um dos caderninhos da senhora, uma folha de papel químico dobrada que tinha a marca de dois poemas até então desconhecidos, escritos, pelos vistos, no início do relacionamento da escritora com o também poeta Ted Hughes, provavelmente no regresso da lua-de-mel. Durante cinquenta anos, ninguém tinha posto os olhos em tais textos nem sabido da sua existência, mas o carbono guardou memória das palavras e agora foi possível aos académicos ter novos elementos sobre a forma como Plath e Hughes interagiam e trabalhavam (o mesmo papel químico tinha um índice de um livro de Hughes dactilografado por Plath, julga-se). Com a tecnologia, acabaram-se estas preciosidades inesperadas. De que se farão as surpresas no futuro?

Comentários

  1. António Luiz Pacheco22 de junho de 2017 às 02:54

    São ironias, não é?
    A modernidade e sofisticação tem destas coisas... tive o caso da base de dados de uma federação desportiva de que fui vice-presidente por 12 anos e dois presidentes, um dos quais era um maníaco da informática... digitalizou tudo! Em disquetes, mas depois com as verbas do Instituto do Desporto para a informatização, mudou os sistemas e foi mudando (sem pensar... pois aquela cabeça era um computador que processava mas não reflectia) e mudando... ao fim e ao cabo quando deu por isso, a maioria dos dados estavam num formato incompatível com a modernização que ele mesmo fez! Asneira, e da grossa, que custou dinheiro a recuperar e só foi salva porque felizmente uma das administrativas, mais velha e do tempo das fichas em cartão, havia guardado os antigos arquivos, e lá foi outra vez tudo digitalizado, mas com custos!
    Ironias! Mas sobretudo de pessoas que se desabituaram de pensar, digo eu!

    É a inteligência artificial e uma classe de gente que deita tudo fora, portanto arriscam-se a não deixar nada para a posteridade e nem a sua lembrança!

    Quando instalei o fax-telefone no escritório lá em casa, fazia uma imensa confusão à minha falecida mãe, que dizia: "Ó menino, aquela geringonça está farta de apitar e deitar papel!" , os fax com texto ainda vá, mas não conseguia entender aqueles com imagens ou fotos. Coitadas das pessoas mais velhas perdidas neste Mundo de tecnologias, eu incluído que já me sinto ultrapassado, se bem que seja vantajoso estando aqui e os projectistas em Lisboa, fazermos uma reunião por skype em tempo real!

    Saudações tecnológicas cá da Cidade Morena!

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    1. Julga que, por usarem as novas tecnologias, as pessoas se "desabituaram de pensar"? E que por não guardarem as cópias usando o papel químico a intervalar as duas folhas não há deles memória?! (sim, quando tirei o curso de dactilografia trabalhávamos sempre com o químico e a máquina apitava - graças a Deus - quando chegava ao fim da linha ou lá perto). E não é verdade que tudo fica para sempre na nuvem digital?! Então... O que pode é não haver achados desta natureza. Haverá outros.

      Não discordo de deitar coisas fora.
      Lixo acumulado em casa é estorvo; de nada serve.
      Para a grande maioria dos homens a melhor lembrança - e a única - é a que deixam em quem com eles conviveu. Nem toda a gente escreve ou executa projectos de vulto. Quero dizer, a maioria não deixa obra feita além da família em que participa. Passa. Mas os outros, os que se vão da lei da morte libertando, passam também. É um bocadinho como a queixa de Lobo Antunes, ficam-me os livros, disso tenho certeza; mas os livros não são eu; eu morro, eu desapareço sem volta (não que ele o diga exactamente assim, mas é isto; a finitude encarada de frente é cá uma coisa).

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    2. António Luiz Pacheco22 de junho de 2017 às 09:16

      - O uso de tecnologias ditas "inteligência artificial" impedem as pessoas de pensar... olhe caríssima Beatriz, peça a um jovem de 30 anos que lhe faça uma conta simples de cabeça... e vai ver!

      - Deitar coisas fora... diz o ditado (de sabedoria neurónica e não digital):
      "Guarda o que não presta e acharás o que é preciso".
      Guardei muitas coisas e tenho-as guardadas, porque alguém as guardou antes de mim. Tenho documentos de 1618 relativos à propriedade e casa que herdei. Possuo o testamento do meu antepassado Padre António Gomes d'Abreu que deixou a quinta onde hoje moro aos seu dois sobrinhos (um de cada sexo, evidentemente) com a condição de se casarem, foram os trisavós do meu avô e data de 1800 e poucos.
      Para si estas coisas não terão valor, para mim têm... e tiveram para outros antes de mim, se não tiverem valor para os que estão depois de mim, eles que os deitem fora.

      - "Para a grande maioria dos homens a melhor lembrança - e a única - é a que deixam em quem com eles conviveu." . Pois será, mas lembro-lhe que normalmente aqueles com quem se conviveu morrem também e em curto espaço de tempo. Portanto não concordo lá muito com esta frase, ou seja, não fica nada, lembrança nenhuma... mas, em 2017 eu sei quem foi o Padre António Gomes d'Abreu que morreu em 1800 e poucos, sei como a minha casa me veio a pertencer e de onde.

      Graças aos papéis!

      Saudações e recordações desde a Cidade Morena!

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    3. Assim não vale, não me referia a esse tipo de coisas que fazem a história de uma família (ainda que eu mesma tenha delapidado uma). Mas também lhe digo, nunca por nunca ser, eu vi escrito o que quer que fosse de um antepassado meu. A coisa mais valiosa era o oratório de madeira que vinha de não sei quantas gerações atrás (nada escrito, passava de pais a filhos) e que alguém queimou propositadamente. O meu avô, herdeiro que ali rezava, chorou-lhe a falta, não lhe esqueço o desgosto de lágrimas. E a sua voz baixa e mansa a profetizar desgraça ao praticante da malfeitoria. Que aconteceu. E mais ele sofreu. Mas, quem sabe, foram só casualidades sem relação causa-efeito.
      Portanto, convenhamos, há o que guardar e o que deitar fora.
      E faça por ter um dia bom.

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    4. António Luiz Pacheco22 de junho de 2017 às 14:21

      Que pena o oratório! E como entendo o seu avô, não que eu seja muito religioso, mas aquele oratório há-de ter sido um depositório, um veículo de dores, de esperanças, até algumas alegrias mas onde se recolheram sentimentos de gerações!
      Que bonito Beatriz! Que bela história que aqui nos trouxe.
      Saudações sinceramente emocionadas cá da Cidade Morena!

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  2. Emílio Gouveia Miranda22 de junho de 2017 às 03:53

    No futuro, as surpresas far-se-ão de preciosidades ainda mais inesperadas, e por isso mais preciosas, perdoe-se-me a redundância...

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  3. s surpresas do presente e do futuro poderão estar, por exemplo, guardadas em velhas disquettes ou perdidas em discos USB ou servidores na nuvem...
    JCC

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    1. Lembrei-me do mesmo. Já viram o que era encontrar, daqui a 50 anos, uma "pen-drive" perdida de Llosa, de Munro, ou de qualquer outro escritor nobelizado, com vários originais nunca publicados? É que numa "pen" cabem romances sem fim...

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    2. António Luiz Pacheco22 de junho de 2017 às 09:19

      Numa "pen" cabe muita coisa, sim... mas é preciso saber que também não duram sempre e que acabarão por ficar inutilizáveis! Podem vir a encontrar essa pen e ela estar ilegível!
      Por outro lado, à velocidade a que os sistemas mudam e evoluem, é mais que certo que essa pen um dia encontrada, não possa já ser lida porque o sistema futuro é diferente e não comporta esse tipo de ficheiro...

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    3. Também é verdade. Mas, se o conteúdo for considerado valioso (por ter pertencido a determinada pessoa), serão feitos esforços para o descodificar. Pode resultar, ou não. Depende da altura em que tal objeto fosse encontrado.

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  4. Dificilmente encontraremos um casal de poetas tão infelizes e com um final tão dramático - difícil esquecer aquela cena do suicídio da Sylvia Plath tendo, no entanto, o cuidado de proteger o quarto das crianças para o gás não entrar.
    Tenho curiosidade em conhecer esses dois poemas, supostamente escritos num tempo mais feliz.
    Existe algum link para eles?
    :-) Antonieta

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  5. Cláudia da Silva Tomazi22 de junho de 2017 às 05:58

    Outrora o curso em dactilografia (emendara) pré-requisito básico: a-s-d-f-g; lembram-se, ter uma "Olivetti" era luxo. Inclusive ensinavam utilizar "carbono" tanto o roxo quanto o preto. Uns para texto, outros para números e os dedinhos da gente, sujos.

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    1. Claro que os dedos sujos, Cláudia. No meu caso, estendia-se à roupa e ao rosto. Uma bodega completa, acabadíssima. E a folha cheia de impressões digitais:). E é claro, diminuía a classificação. A bem dizer nunca tive sequer um bom que nos mapas onde nunca acertava os cantos. Uma lástima. Mas gostei, havia muita conversa e alguns rapazes. Suponho que tenha sido a primeira vez que me sentei ao lado de um. Não lhe achei nada de especial.

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  6. Para pensar e reflectir:
    -O mundo está sempre, mas sempre em mudança.

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    1. António Luiz Pacheco22 de junho de 2017 às 09:21

      E ainda bem!
      Deus nos livre de que se acabe a mudança, sinal de que acabou a humanidade...

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  7. saudades da velha olivetti lettera 32 que havia em casa dos meus pais (e da velha royal dos avós também).

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  8. António Luiz Pacheco22 de junho de 2017 às 14:24

    Está tudo a lembrar das máquinas de escrever... eu ainda tenho para lá uma, portátil, ligeira e pequena... mas falando de livros e a propósito, lembram-se de "O Mundo em AZERT" ?
    Eheheh! Um livro!!!! De Cáceres Monteiro, memórias de um repórter!

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