Em desuso

Já há muito tempo que não dedicava um post a palavras ou expressões que caíram ou estão a cair em desuso; e foi porque o Manel chamou a alguém à minha frente «rapioqueiro» – aplicável a quem gosta de folia – que, de repente, me lembrei do assunto e resolvi recolher alguns termos de que gosto e já raramente ouço por aí.  Os sinónimos apresentados para «rapioqueiro» no Dicionário Priberam são, de resto, quase todos pouco correntes nos dias de hoje, como «pândego», «patusco» (que gosta de «patuscadas»), «gaiteiro» ou «farrista». O «pândego», vocábulo que a minha avó usava frequentemente para designar alguém que fazia rir e se sabia divertir, levou-me a outros com que ela me definia em criança e que acho estarem também a desaparecer, pelo menos da boca dos mais jovens: «rabina», «arisca», «diabrete», «mafarrica» e «levada da breca». Esta última expressão era utilizada por ela não só com o sentido de «travesso» ou «irrequieto», mas também com a acepção de «desembaraçado» ou «despachado». Aos saloios, a minha avó chamava «pategos» – já não ouço ninguém dizer isto há que tempos, mas o termo constava daquele excerto do Júlio Dantas que mostrei aqui no blogue há dias; e também se servia de uma palavra que aprecio muito – «ratatinhado» –, que nenhum dos dicionários que consultei regista (com muita pena minha), referindo-se a coisa mal feita, apressada, atamancada ou a uma roupa que devia ser o número acima. Acrescento ainda a palavra «cotomiço» (alguém pequeno) e a expressão «já a formiga tem catarro» (esta ainda se usa, creio, mas é um achado). E, por hoje, é isto.

Comentários

  1. Engraçado, chamo "cotomiços" aos meus sobrinhos e, desta lista toda, só não conhecia "rapioqueiro" e ratatinhado". Nada mal para quem não nasceu a falar Português... :)

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  2. Há muito que não ouvia a palavra «patego»? Tem de ir mais ao Porto!

    «Ó patêago, olh'ó balom!» - frase muito utilizada na invicta, em noite de «Sã Joôum».

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  3. Rapioqueira, sim, claro!
    Agora chamar patego aos saloios, é que eu não sabia! Dito de outra maneira: sabia que patego é patego, mas aplicado a qualquer pessoa assim mais enredada, "engonhada". Os saloios estão numa região muito restrita de Portugal que, tanto quanto sei, vai de Peniche a Palmela passando por aquelas vias clássicas do Oeste, Torres Vedras, Mafra, Malveira, etc. Esses aí sim, são saloios. Mas serão de tal forma saloios que a palavra passou a definir toda e qualquer pessoa e em qualquer parte do país com determinadas características das tais "engonhadas" , atrapalhadas e fora de moda. O saloio também tem fama de muito esperto. Uma esperteza ratona, ágil e um bocadinho trafulha. És mesmo saloio!... situação esta que não é a mesma que - patego.

    E também caiu em desuso a palavra - escaganifobética - que se dizia muito em Lisboa para apontar quem era muito magra (o meu caso, na altura).
    Esferográfica, também já quase não se diz.
    Trauliteira.

    Estava a tentar lembrar-me de uma palavra muito gira que se dizia muito na minha família, mas de momento, não sai. Se me lembrar, digo.

    Cristina Carvalho

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    1. Também ouvi muito a palavra «escaganifobética» na minha juventude. E no Norte. Mas penso que mais com o significado de «esquisita», ou «destrambelhada». Também se podia usar para objetos (pelo menos, nós usávamos). Uma esferográfica escaganifobética, por exemplo, no sentido de esquisita, invulgar, ou difícil de utilizar. Não sabia que também podia significar «muito magra».

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  4. Curiosas expressões!
    Assim de repente e sem o enorme saber dos dicionários , “rapioqueiro”poderia sugerir um viciado em tapioca, daqueles que rapam tudo.
    Nunca tinha ouvido tal.
    Nem “ ratatinhado”tão pouco.
    Quanto ao “ cotomiço” é palavra que utilizo, pelos vistos com corruptela, pois achava que era “catamisso”, palavra derivada do grego( Khata-me-isso) e já aportuguesada por gerações de uso.
    Sempre a aprender.
    Já agora dou a minha contribuição com “farromba”, que tem tanta sinonímia que ia demorar o dia inteiro a escrever.

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  5. Vivo em Amarante desde mil novecentos e troca o passo, e, passados todos estes anos, ainda aqui e ali ouço as seguintes expressões:

    “Comi batatas” = comi batatas acompanhadas por outra coisa, p. ex. bacalhau; mas valorizo as batatas, porque fui eu que as produzi, trabalhei para as colher.

    “Fazerá-se” = Há-de fazer-se, a seu tempo, que não é prioritário.

    “Eu esteve, eu foi” = Tenho tanta consideração por mim próprio que até me trato por você.
    (A isto chama-se cagança – termo que também vai caindo em desuso)

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  6. Na minha terra, patusco não tem a ver com patuscadas mas com alguém que veste ou é, de alguma forma, engraçada, no sentido de ser uma imagem que dispõe bem e é um tanto sui generis. Diz-se "ficou tão patusco com aqueles sapatos"; ou, "tem um penteado patusco".

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  7. Sempre conheci "escanifobético" como coisa ou pessoa estranha, mal jeitosa, sem definição apropriada. "Escaganifobético" não conhecia e leio pela primeira vez. Recorda-me "caga-tacos" ou "caga-ataques" (pessoa muito pequena) que usei em título de livro e que, para meu espanto, já muita gente desconhece.

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    1. "Caga-tacos"???
      Tem alguma coisa a ver com o Trump?

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    2. Não. O Trump é mais do género "caga-ataques".

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    3. Não sou nada anónimo .
      Um anónimo é um primo desconhecido do acrónimo, que por sua vez se dá com o pseudónimo que é da família do ortónimo que mudou o nome para esóteronimo.!
      Portanto sou o Puck .

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  8. António Luiz Pacheco2 de março de 2017 às 07:31

    Eheheheh!
    Acho muito engraçados e interessantes estas postações sobre o tema ...
    Creio que existem em Portugal, na sua pequenez, tantas expressões idiomáticas ou ditos e termos quantas são as nossas regiões! O que é uma riqueza enorme, se lhe juntarmos ainda o acervo trazido do resto do nosso Mundo que é a nossa língua.
    Aqui por Benguela, ainda encontro expressões curiosas:
    Para "mim" fazer, comer, vestir... em vez de "eu". Os barrões menos instruídos, usam o mesmíssimo termo e é comum ouvir empregar o "mim" em vez do "eu" lá pelo Bairro Ribatejano.
    Acho muita graça, e adoptei eu e o meu pessoal lá em casa, a expressão: "Ai-é?", que se usa para mostrar que estamos a ouvir algo com muita atenção.
    Também acho engraçado quando nos tratam por "Seu moço" em vez de senhor.
    Quando se dão os bons-dias a alguém, a resposta é: "obrigado!". E é também uso dizer, não, "bom-dia", mas "bom-dia, bom-dia!".
    Também não se deseja "boa-noite", mas sim "feliz noite!".

    Os africanos pretos não dizem "mulato", usam o termo "misto". E quando se referem a eles mesmo dizem "escurinho", por exemplo a minha empregada Mariana, diz que é bem-escura ou que veio aí uma moça escurinha, ou que a minha colega Quina é "mista".

    Enfim, feliz-tarde aos Extraordinários, desde aqui do reino de Benguela-a-Nova, a cidade dos pardos, ou mais modernamente a Cidade Morena!

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  9. Há palavras que as gerações introduzem no uso e os seus utilizadores fazem questão de as fazer viver, até porque os ajuda a reconhecerem-se como comunidade específica. Quando os meus filhos eram jovens lembro-me que utilizavam "tipo" como antes usáramos "pá", ou "cena" significando situação (mas que cena!). Mas se "bué" e "cota" ficaram, "coche" creio que se perdeu.
    A evolução desta palavra é bem interessante. No princípio era "poucochinho", como era um longa foi simplificada para "cochinho", mas como soava a diminutivo ou era ainda longa para o pretendido, passou a "coche". "Açúcar no café?". "Um coche apenas".

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    1. António Luiz Pacheco3 de março de 2017 às 08:21

      Um "coche" era do meu tempo... e creio que fazia parte dos termos introduzidos pelos "retornados", como o bué, cota, malaico, iá, e outros...
      Depois passou a usar-se "beca" em vez de coche... "dá aí uma beca!".

      Por cá usa-se um termo engraçadíssimo: "bocadidinho" em vez de bocadinho.

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