Uma odisseia

Em inglês, Ulisses é Odysseus – e o Ulisses de James Joyce, ainda que hoje seja considerado em todo o mundo um dos grandes clássicos da literatura do século XX, passou por uma autêntica odisseia até ser publicado e reconhecido como tal. Há até quem diga que a história da sua publicação terá sido tão complexa como o processo de escrita a que o autor irlandês dedicou muitos anos da sua vida. Segundo leio num blogue espanhol, quem o conta é Kevin Birmingham numa obra que se lê como um verdadeiro livro de aventuras e que relata como Ulisses, depois de ser considerado imoral no Reino Unido e ter tido, por isso, enormes problemas de distribuição, foi proibido nos EUA por causa de certas leis anti-pornografia e objecto de contrabando, entrando no território pela fronteira com o Canadá ou camuflado por outros produtos em barcos que chegavam da Europa. A primeira edição americana foi, aliás, uma edição pirata (um editor atrevido que sabia que tinha muitos leitores interessados no título censurado) e só nos anos 1930 foi possível publicar o livro livremente na América, conseguindo a grande editora Random House, certamente com a ajuda de bons advogados, ganhar um processo judicial que mudou a perspectiva do livro que tinham alguns juízes. Para quem quiser espreitar esta odisseia do outro Ulisses, o livro de Kevin Birmingham, na tradução espanhola, chama-se El libro más peligroso: James Joyce y la batalla por Ulises.

Comentários

  1. Emílio Gouveia Miranda13 de março de 2017 às 02:45

    Livro de que possuo duas edições / traduções, e que nunca li, apesar de já ter tentado várias vezes fazê-lo. Quem sabe, mais uma prova de que certos livros não são por nós escolhidos, mas eles quem nos escolhem...

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    1. António Luiz Pacheco13 de março de 2017 às 02:58

      Ora ainda bem que não estou sozinho, nessa mesma dificuldade!
      Note que não é a única, outros celebradas obras de eméritos autores sofrem da mesma impenetrabilidade...

      Mas tenho pena... porque aquilo que se diz é deveras tentador, quem sabe um dia...

      Por curiosidade fica aqui esta resenha, que me parece muito boa, que encontrei, possa ela ser interessante para nós aqui reunidos:
      Resenha: Ulisses, de James Joyce
      18/08/2014 POR FELIPE PIMENTA 7 COMENTÁRIOS
      James_Joyce_by_Alex_Ehrenzweig,_1915_restored
      Ulisses é um romance extremamente complexo escrito por James Joyce e publicado em 1922. O livro supostamente é uma recriação moderna da Odisseia de Homero. Leopold Bloom é o Odisseu do século XX em busca de sua Penélope. Ele é o heroi judeu em uma Irlanda católica. Em um dia de 1904, ele sai de casa junto com seu amigo Stephen Dedalus. O objetivo de Bloom é retornar ao fim do dia para a sua casa e sua esposa. O enredo parece simples, mas a linguagem que Joyce emprega torna a leitura uma árdua tarefa que requer uma certa experiência e um amplo vocabulário. Durante o desenvolvimento do romance, Joyce faz inúmeras criações de novas palavras e utiliza um vocabulário enorme, que ultrapassa mais de 265.000 palavras. A cada página o romance tem uma reviravolta, pois o autor inventa diversas situações que não estão ligadas necessariamente às anteriores. Ulisses é uma experiência fantástica de linguagem e imaginação. A todo o momento Joyce surpreende o leitor com o uso revolucionário das situações e com a criação de um mito moderno.
      Quando lemos o Ulisses fazemos uma viagem pela Irlanda e pela Europa. Diversas línguas são utilizadas. O recurso que Joyce usa com frequência é o da livre imaginação. Os personagens de Bloom e Dedalus vão se encontrando com outros irlandeses em situações que quase sempre se revelam improváveis. Joyce faz alusões ao judaísmo de Bloom através de outros personagens e também ao catolicismo de maneira fragmentada. Pessoas obscuras e o mito povoam o romance e contracenam com Bloom. Provavelmente o autor quis criar diálogos entre Bloom e os outros para fazer uma apresentação da situação da Europa naquele início de século. Bloom e Dedalus conversam entre si de maneira alucinada que parece um verdadeiro monólogo. Pelo uso estranho que Joyce faz da linguagem, o limite que separa-o da genialidade à esquizofrenia é mínimo. O texto do livro é fragmentado da mesma forma que o pensamento de um esquizofrênico e muito por causa disso o livro torna-se complicado de se ler. Joyce usa comparações explícitas com funções corporais, o que devia ser chocante para a conservadora sociedade de seu tempo. Explicar a quem for ler o Ulisses as milhares de outras citações que o autor faz é tarefa impossível. Muito do significado da obra foi perdido durante a tradução. Aqui no Brasil quem fez uma experiência com o texto da mesma forma que Joyce foi Guimarães Rosa com o Grande Sertão:Veredas. Outra comparação que pode ser feita é com o Fausto II de Goethe. Tal como naquele livro, o Ulisses é recheado de alusões a figuras mitológicas ou imaginárias em situações fantásticas. Em determinado momento, o Ulisses fica parecendo uma peça de teatro que lembra muito a clássica noite de Valpúrgis do Fausto II. A última parte do livro mostra Bloom reencontrando-se com sua mulher Molly. É preciso ter fôlego para ler essa parte uma vez que Joyce ignora o uso da pontuação. O objetivo de Bloom foi alcançado; sua mulher, então, passa a recordar muito de sua própria vida. Ela termina com as famosas palavras de recordação de seu marido pedindo-a em casamento. As palavras são: “ e eu pensei tão bem a ele como a outro e então eu pedi a ele com os meus olhos para pedir de novo sim e então ele me pediu quereria eu si dizer sim minha flor da montanha e primeiro eu pus os meus braços em torno dele sim e eu puxei ele pra baixo pra mim para ele sentir meus peitos todos perfume sim o coração dele batia como louco e sim e disse sim eu quero Sims.” James Joyce criou um texto propositadamente obscuro para g

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    2. Emílio Gouveia Miranda13 de março de 2017 às 03:43

      Obrigado, Caro Amigo.
      Pois... não é o vocabulário novo o que me assusta...
      É, de facto, essa impenetrabilidade de que fala.
      Se um livro não dialogar comigo, mas simplesmente pretender impor-se - às vezes através, precisamente, de uma erudição ostensiva -, a ligação não acontece. Se bem que a literatura seja sobretudo um desafio para o espírito, o facto é que tudo quanto não resulta simples para quem lê, está ainda na sua forma bruta. Como bem disse Leonardo da Vinci, A simplicidade é o último grau de sofisticação... E não me refiro à simplicidade vazia, mas àquela que, de facto, deixa transparecer não apenas conhecimento, mas sobretudo saber...
      A literatura está cheia de exemplos de obras elogiadas pela incapacidade de serem criticadas a sério...
      É que fazer certo tipo de criticas é temer ser considerado pouco erudito... E eu, mais do que a erudição, procuro entendimento e clareza... A luminosidade da palavra e não o seu brilho excessivo: esse, ofusca-me, não me ilumina.
      Abraços e boa semana.

      PS: No entanto, vou insistir... Quem sabe, Ulisses me escolha, finalmente.

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  2. António Luiz Pacheco13 de março de 2017 às 02:51

    Regimes hipócritas como os dos EUA e UK, sobretudo na época de que estamos a falar (ainda que no caso dos EUA a hipocrisia persista) , regimes totalitários ou teocratas que pretendam controlar as ideias e o pensamento, a expressão, tiveram, têm e terão a literatura como seu principal inimigo e alvo a abater.
    Quem controle a escrita, os escritores (e a imprensa, por conseguinte) pensa controlar a opinião das pessoas.
    A net é mais difícil, mas também serve para esse fim. Muitos grupos, grupelhos, políticos, lóbis, usam a net para divulgar e tentar convencer, assim como para dar uma falsa noção da sua força e número... mas a maior força de todas, da liberdade e do livre pensamento é a nossa, a dos Extraordinários Leitores, não duvidem.
    O leitor-mesmo, o Extraordinário, é livre, é descomprometido e porque lê, é esclarecido isso torna-o tolerante.
    Tolerância deve ser a palavra de ordem, sem que isso signifique que não tenhamos e defendamos convicções ou que aceitemos tudo... a tolerância é esclarecida!
    Graças a Deus (expressão idiomática de origem religiosa) que me considero tolerante e leio com prazer e interesse livros de autores com idéias, interesses, filosofias e paixões diferentes das minhas e até contrárias.
    Em nome da nossa própria liberdade assim deve ser, digo eu, traça literária.

    Saudações livres cá da Cidade Morena!

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  3. Também eu tenho a mesma opinião/problema com o Ulisses de Joyce.
    Só não criou raízes na estante, porque de vez em quando tenho de o desalojar à procura de outros volumes e acabo por o manusear, abrir, encantar-me.
    Propor-me a ler. Desistir ao fim de umas páginas(para aí 60), enfim!
    E sempre que pego nele tenho que voltar ao princípio.
    No entanto percebo o título “El libro más peligroso...”, senão vejamos;
    - Consta sempre das listas dos 10 livros a ler na vida( pelo menos nos últimos 20 anos).
    - É frequentemente usado como arma de arremesso intelectual sob a forma de uma inocente pergunta “- Já leste o Ulisses do Joyce?”
    Ficando qualquer conversa literária truncada a partir daqui, porque;
    Se não se leu e admite, o olhar claro do interlocutor adquire aquele ar de superioridade intelectual do género de quem olha para um troglodita acabado de sair das cavernas.
    - Se se diz que se vai lendo, mas não consegue acabar, a reação é de uma condescendência forte e hipócrita, mais uma vez do género “ Vá lá tu consegues, mas só se fizeres um grande esforço”. O que nos deixa desconfortável com a imagem que projectamos no interlocutor e sob a perspectiva de uma baixa análise de QI .
    Numa fase mais avançada da estratégia de como lidar com esta pergunta sem ficar com a auto-estima arruinada( e a erudição, que pode ser pequena mas deu trabalho), pode-se argumentar;- “ Ah sim, e que parte é que gostaste mais?”
    E lá vem um discurso generalista, filho de uma qualquer sinopse.
    Se ainda se quiser levar a conversa por diante e apresentar a versão da encriptação propositada, o interlocutor que não usa óculos nem tem história de intervenção cirúrgica ocular vai concerteza alegar alguma tarefa urgente, imediata e de força maior.
    Mas aí há uma pequena vitória, o pseudo-intelectual bateu a retirada com o Ulisses entre as pernas, o que também não deixa de ser desconfortável ( mas desta vez para ele).
    Por outro lado, também se pode ter sempre o volume à mão, tipo na entrada da casa ou na sala, para se fôr preciso usá-lo como efectiva arma de arremesso no sentido estrito. Pois é um volume de peso e certamente alcançará êxito ao atingir o alvo, assim haja pontaria.
    Isto tudo para dizer que tenho uma relação mal resolvida com esse livro que espero tentar resolver nos tempos mais próximos( 2000 anos;).
    Ocorre-me ainda que pode-se fundar uma associação sem qualquer fim lucrativo( pode vender-se umas t’shirts, vá lá) com o nome EU NÃO LI O ULISSES E TU?
    Mas isto dá um acrónimo desgraçado( ENLUT).
    Que este livro é perigoso, é!

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  4. Parece-me que primeiro terei de perseverar no Ulisses de James Joyce.

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  5. Tenho em casa a tradução de Palma-Ferreira, a delirante de Houaiss - nas adjetivações múltiplas - e a mais recente de Vaz de Carvalho, fora uma versão inglesa da Wordsworth Classics, que me custou 3,09 €. No entanto, nunca passei do capítulo 5. Periodicamente, imagino-me a retomar a empreitada. Amanhã talvez... pensando nisso, cheguei a fazer um resumo de cada um dos 4 capítulos lidos e relidos em cada tentativa, para me facilitar a próxima. Vamos ver se este poste me motiva a avançar mais 4 capitulos: pus a de Vaz Carvalho à mão.

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  6. Não fora a forma blogue prestar-se mal a este tipo de debates e creio que teríamos aqui um longo diálogo.
    Por enquanto apenas se manifestam os que se sentem desconfortáveis. É o meu caso, claro.
    Se há uma ação meritória no trabalho de um escritor é sem dúvida a inovação. A experimentação também mas aí começam as dificuldades de quem lê. É que a maioria é amante de ler mas não atende às questões literatas. A maior parte desama-as porque lhe reduz o prazer da leitura. Dir-se-à que deviam sair da sua zona de conforto e enfrentar as dificuldades mas isso seria atitude de literato, não de leitor. No âmbito português situo nesta problemática Maria Velho da Costa de quem abandonei a leitura de um dos seus últimos livros.
    Em Ulisses a inovação e a experimentação foram levadas muito longe. Grande mérito, portanto, mas creio que Joyce pretendia mais do que isso, aspirava a criar uma linguagem nova. Tomo a língua como um instrumento dos seus utilizadores e transformadores, entre eles os escritores, talvez acima de todos. Mas pretender um deles criar um instrumento novo, de raiz, que os outros passariam a utilizar no futuro, isso já me parece estultícia. A encriptação parece um meio para aquele fim.
    A desconfiança não foi cultivada apenas por leitores, também pessoas muito inteligentes consumiram algum do seu tempo inutilmente em torno do problema. Ao mesmo tempo que se aplicavam duramente em descodificar o Enigma, liam e reliam fascículos do Ulisses que Joyce enviava da Suíça porque suspeitavam transmitir mensagens encriptadas oriundas da Alemanha e destinadas ao Reino Unido. Acabaram por considerar não haver tal risco e serem apenas especificidades criativas literárias.
    Não sei se essas pessoas ficaram apreciadoras do Ulisses e o leram mais tarde na totalidade ou se procederam como eu, colocando-o na estante onde há muitos anos ganha mofo.

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  7. Mas qual é o problema em dizer que este livro do James Joyce é uma chatice, uma chaga, e não vale dez réis de mel coado???? para quê perder tempo com algo que ninguém parece entender???? ora se ninguém entende??, se é enfadonho, se é aborrecido, se "ninguém" o lê, será prematuro dizer que não vale nada??

    É que nunca, em toda a minha vida de leitor, ouvi alguém dizer que já o leu e é um grande livro e só poderá ser pretensiosismo fazer parte das listas dos não sei quantos livros "da minha vida", se efectivamente muito pouquíssima gente o lê. E quem ainda não o leu nem se atreve a pegar-lhe...
    Ainda não percebi, é o tal complexo do politicamente correcto...

    Ou então há aqui algum mistério porque isto já não é de hoje nem de ontem, já dura há mais de oitenta anos...

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    1. António Luiz Pacheco13 de março de 2017 às 11:31

      Ahahahahah!
      Grande Severino!

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    2. Mas nem tudo é complicado no “ Ulisses”, pode até encarar-se com um certo pragmatismo a referida obra, senão vejamos;

      1- A psicologia pode dar o nome”Síndroma de Ulisses Joyce”(para diferenciar do Ulisses de Homero) aqueles casos mais difíceis de procrastinação.
      2- As professoras e professores de Português (e não tem de ser só no secundário)
      podem sempre usar deste recurso. “ Teste ou resumo de seis capítulos do Ulisses”.
      3- Oferecer-se numa data festiva, ao chefe ou ao maior chato do mundo e acrescentar “ Devorei esse livro”:)

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    3. Alto lá. Eu conheço algumas pessoas que o leram. E gostaram. Dizem elas que é apenas o modo como se lê que conta para a compreensão do escrito. Se o leitor apanha o jogo do escritor, lê na boa.

      Por outro lado, uma prosa inovadora é distinta de uma sem valor. Não são a mesma coisa. Inquietantemente, há grandes escritores nada fáceis de ler.

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  8. li primeiro o "ulisses" na tradução de houaiss nos anos 80 (ed. difel) e mais tarde, após a grande biografia de joyce escrita por ellmann, reli-o (provavelmente mal) no texto original. há quem não consiga e/ou não goste? claro que sim. (desconfio que talvez sejam os mesmos que não gostaram ou não conseguiram ler a "odisseia"). quanto ao livro de birmingham, exactamente pela questão redutora das traduções, aconselho a quem leia inglês o livro original (ed. head of zeus), há uma edição paperback a menos de 10€ na amazon.

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