Milhões por um livro

Num país do tamanho de uma ervilha, como é o nosso, um escritor não vai financeiramente longe (se sonhar com uma casa com piscina, claro), a menos que seja uma estrela televisiva ou consiga ser traduzido no mundo inteiro e vender muitos exemplares da sua obra. Fico, por isso, sempre bastante confusa, e a fazer contas de cabeça, quando, em certos livros norte-americanos (A Vida Amorosa de Nathaniel P., por exemplo) com escritores como personagens (muitas vezes principiantes, apenas com contos e poemas publicados em revistas), aparecem editores a oferecer-lhes adiantamentos que seriam impensáveis no nosso jardinzinho à beira-mar plantado (até referem o número de dígitos). Mas agora caiu-me nas mãos uma lista de obras que custaram milhões aos seus editores – e isto, creio, por terem oferecido a Obama e à mulher quantias astronómicas para escreverem livros. Eu própria publiquei em tempos cá em Portugal a autobiografia de Bill Clinton, mas desconhecia que ele tinha recebido 15 milhões de dólares à cabeça… E que o romancista Ken Follet, num negócio para uma trilogia, ganhou logo ali 50 milhões de dólares; e que João Paulo II (ou o Vaticano, sei lá) foi contemplado com 8,5 milhões de dólares em 1994… Imagino que a autora do Harry Potter também ganhe assim muito dinheiro e, quanto a esta última, talvez tenha feito bem em sair aqui da ervilha onde viveu tantos anos.


 


P.S. Hoje, se estiver na Figueira da Foz, haverá na Biblioteca uma conversa com os autores Isabel Rio Novo e Paulo M. Morais que promete ser interessante.

Comentários

  1. António Luiz Pacheco23 de março de 2017 às 02:50

    Já tenho pensado nisso...
    Mas o mercado americano certamente que não será o exemplo, deve ser demasiado específico e é imenso. Sempre li, vi ou ouvi referir escritores que vivem disso, de ser escritores. Mas não sei se é verdade, ou romance... ou cinema!

    Também já ouvi/li sobre aqueles escritores-fábrica, como o Follet, que publicam não sei quantos livros por ano, que têm uma equipa de escritores a trabalhar com eles e para eles, a desenvolver e escrever no fundo, sob sua supervisão, os novos livros... sejam ou não encomendados pelas Editoras.

    E na nossa ervilha?
    Tirando Saramago, que julgo ter sido escritor a tempo inteiro, na última
    fase da sua vida, temos algum escritor de profissão, quero dizer que viva só de escrever livros? Se der aulas, se escreve em jornais e revistas, se trabalha na TV ou rádio, se é jornalista, editor, tradutor, revisor, etc. isso não vale! Já não é só-escritor-de-livros, se é que bem me entendem.

    Os escritores que conheço, têm ou tiveram outras profissões ou rendimentos, ainda que ligadas às letras.

    É uma curiosidade que tenho.

    Saudações bisbilhoteiras cá da Cidade Morena.

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    1. António Lobo Antunes vive da escrita. E ainda bem!

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    2. Já deve ter vivido melhor...

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    3. Homem! Sempre azedo.

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    4. É verdade, Severino.

      O que o deve safar são os alemães e os americanos. :)

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  2. Exemplos de sucesso aqui mencionados, impressionantes mesmo. Não sei se Paulo Coelho publica em língua inglesa, se publica constará também da constelação, certamente.
    Longe, muito longe do sucesso eu nunca li nenhum. Pior, condenei-me a jamais os ler.

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    1. António Luiz Pacheco23 de março de 2017 às 04:43

      Segundo a Wikipédia:
      Como escritor, ocupa as primeiras posições no ranking dos livros mais vendidos no mundo. Vendeu, até 2007, mais de 92 milhões de livros[6], em mais de 150 países[7], tendo suas obras traduzidas para 66 idiomas[8] e sendo o autor mais vendido em língua portuguesa de todos os tempos[9], ultrapassando até mesmo Jorge Amado, cujas vendas somam 55 milhões de livros[9].

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    2. António Luiz Pacheco23 de março de 2017 às 04:45

      Apesar da rotulação de escritor-a-metro, tem obras muito boas... Diário de um mago, por exemplo... enfim, eu achei interessante!

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  3. O sabor da ervilha.

    PISUM SATIVUM, “ nickname” ervilha.
    Como esta deliciosa e muy alimentícia leguminosa,, também algumas obras literárias são sujeitas aos processos dos transgénicos.
    Das complicadas técnicas da engenharia genética, uma parece-me directamente aplicável à produção literária massiva. A fusão dos protoplastos, que no âmbito acima referido pode chamar-se a fusão dos emplastros, sem qualquer desprimor para a ciência e afins.
    Fui googlar, por sugestão da Rosário a tal vida amorosa do sr. Nathaniel e pareceu-me de facto, ao fim de página e meia, tão tensa e cheia de stress que precisaria de uma caixa de xanax para terminar o livro.
    Quanto aos livros, propriamente, essas maravilhas de páginas impressas e almas imprecisas só me ocorre que apesar dos milhões( e o mundo está a transformar-se num pântano corrosivo dos milhões), por mais artificialismos que inventem e que se façam passar por arte. Por mais grandiosas campanhas de marketing que se inventem
    haverá escritores obscuros e anónimos que continuarão a cultivar as palavras da forma tradicional . Para não perderem tal como os tomates, o sabor e o aroma...


    FDD ( Fiódor Dantas das Dores)

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    1. Anónimo, tendo a concordar com o que disse sobre a escrita de ficção. Quero dizer, concordo mesmo. Mas o pormenor do nome é que...é sugestivo, pronto.

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  4. Li, há cerca de cinco anos, um livro pobre em termos literários, mas que me pôs a par desses negócios. Aqui, um excerto do que na altura escrevi sobre ele:

    «"Mord auf der Buchmesse", em alemão, ou "The Bookfair Murders", em inglês, é um policial de Anna Porter sobre dois importantes agentes literários americanos assassinados durante a Feira do Livro de Frankfurt.
    O livro introduz-nos num mundo literário a milhares de léguas de distância do nosso (e do europeu, em geral). Trata-se de um mundo em que os autores de best-sellers, ao assinarem um contrato com uma editora, recebem, em adiantado, de dez a vinte milhões de dólares. Também há adiantamentos para livros que ainda nem sequer foram escritos! Acrescente-se que estas somas são calculadas, não só em função dos livros que se venderão, mas, igualmente, dos filmes e/ou séries de TV que virão a ser realizados, baseados na respetiva obra».

    O link para quem quiser ler mais:
    http://andancasmedievais.blogspot.de/2012/05/crime-na-feira-do-livro.html

    (Como se vê, os números estão já desatualizados, pois a Maria do Rosário fala em 50 milhões).

    Penso que negócios destes só se fazem nos EUA. Passa-se o mesmo na música, lembro-me de Michael Jackson, ou de a sua irmã Janet, assinarem contratos que implicavam o pagamento de milhões por discos ainda por editar. E haverá outros, estes são os casos dos quais me apercebi.

    É claro que a J.K. Rowling também ganha milhões. Mas não sei se em Inglaterra se fazem contratos destes. A partir de certa altura, ela terá recebido adiantado, pelo menos, nos EUA, por livros ainda não publicados, já que a sua adaptação ao cinema estava já prevista. Mas lembro que ela começou bem em baixo (aliás, como quase todos os escritores). Vi há anos, num documentário na TV alemã, o seu primeiro editor a explicar que resolveu fazer uma edição de 500 exemplares do primeiro Harry Potter, que já tinha sido recusado pelas maiores editoras. Ele desculpou-se, perante a autora, da pequena tiragem, mas era um editor desconhecido e com poucas posses. Perguntou à J. K. Rowling em que trabalhava. Ela disse-lhe que estava desempregada. E ele aconselhou-a a procurar emprego, pois, que não se iludisse: nunca conseguiria viver apenas da escrita de livro infanto-juvenis!
    Como se enganou...

    Tenho cá para mim que um fenómeno como a J.K. Rowling é impossível, em Portugal. Não me baseio apenas no tamanho ervilha do nosso país (bem, se nós somos ervilha, o que será a Holanda, a Bélgica, ou o Luxemburgo?), nem na vantagem que é escrever em inglês. É que em Inglaterra, quando uma pessoa anda à procura de um livro desconhecido, por ter ouvido falar nele, não lhe dizem nas livrarias que está esgotado, sem estar! Encomendam-no e ele chega no espaço de dois ou três dias!

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  5. Não se esqueçam do 575...

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  6. Cláudia da Silva Tomazi23 de março de 2017 às 09:39

    Certamente os admiradores e leitores norte-americanos, têm estreita e fiel relação com marketing... Claro, a "síndrome" capitalista faz diferença. Alguns livros ou revistas nascem com a estratégia planeada, crítica ascendente e visibilidade com ênfase no heroísmo. O círculo americano desperta (quaisquer) audacioso intento da afirmação cultural, desde a carta de Abraham Lincon até a corrida espacial. Números são arenas no espetáculo de consumo ocidental e os tablóides (também) exploram o povo na ignorância feito milhinho aos pombos.

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  7. Talvez só porque sim, hoje apetece-me falar do Herberto Helder.
    Devo pedir desculpa, o tema é outro no entanto “como se toda a casa ardesse pousada na noite” é urgente falar dele.
    Desse poeta das palavras incandescentes e dos poemas que se leem como histórias.
    Dizem que Março é da poesia.
    Talvez seja verdade, o mês insano e imprevisível, onde a neve anda de mão dada com frágeis rebentos de uma nova era.
    Os improváveis tocam-se e desaparecem .
    Restam-nos os poemas e os poetas. As portas desenhadas a giz num fragmento de parede. O verbo que inventa um ritmo.
    Uns olhos que mais que olhar são caminho.
    Ah, como se leem os poemas...

    Puck

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