Camões no Porto
Uma das coisas que mais admiro no escritor Mário Cláudio é a sua generosidade. Ao contrário de muitos outros autores consagrados, que não lêem nada das gerações que se lhes seguem, Mário Cláudio disponibiliza-se frequentemente para ler as obras de jovens e principiantes e lhes dar a sua sincera opinião (outra virtude, porque não é pessoa para mentir). Foi, de resto, por ter lido o texto de uma autora que considerou merecedora de uma boa chancela editorial para os seus escritos que me encaminhou há tempos um romance de Isabel Rio Novo. Na altura, eu tinha tanta coisa para ler que, enquanto as costas não folgassem, como diz o ditado, sugeri à Isabel que concorresse ao Prémio LeYa – e o seu romance (Rio do Esquecimento) acabou por ser finalista nesse ano. Mário Cláudio ficou contente por ver que não era o único a reconhecer o talento desta escritora – e agora decidiu ir ainda mais além, convidando-a para apresentar no Porto o seu Os Naufrágios de Camões, recentemente publicado. Não era qualquer escritor firmado que escolheria para apresentar livro seu uma escritora não muito conhecida e com obra ainda relativamente escassa. Tiro-lhe o chapéu, claro, e aproveito para convidar todos os que estão perto da Invicta para vir ouvir este par logo à tarde, num lugar muito bonito, a condizer com a literatura.
Não mais, Musa, não mais, que a Lira tenho
ResponderEliminarDestemperada e a voz enrouquecida,
E não do canto, mas de ver que venho
Cantar a gente surda e endurecida.
O favor com que mais se acende o engenho
Não no dá a pátria, não, que está metida
No gosto da cobiça e na rudeza
Düa austera, apagada e vil tristeza.
Esta é só uma das muitas belíssimas passagens dos últimos dois cantos d'Os Lusíadas, os tais que Mário Cláudio diz serem mais fraquinhos que o resto da obra. Esta e outras barbaridades, como a de dizer que o primeiro verso d'Os Lusíadas é traduzido do primeiro da Eneida! Quer simplificação grosseira...
Se lermos a entrevista dada por Mário Cláudio ao DN, vemos que ele tem um conhecimento muito superficial de Camões.
http://www.dn.pt/artes/interior/mario-claudio-camoes-era-um-marginal-5662882.html
Estive lendo a entrevista e não me parece que ofenda Camões. Em todo o escritor há a ficção sobre a realidade. Julgo que seja o que acontece, como aliás o autor admite. O que no livro se apresenta são dúvidas pessoais e interpretações do mesmo género. Quanto à espécie de indivíduo que Camões era, penso até que Mário Cláudio não andará longe da verdade ao afirmar que tendia para o arruaceiro e mulherengo. O ardor que nisso punha é que não sei medir.
EliminarExcelente autor.
ResponderEliminarPartilhas...
ResponderEliminarDa vasta obra de Mário Cláudio (aliás Rui Barbot Costa) li apenas Camilo Broca (2006), mas os variados prémios literários já recebidos atestam a valia do escritor. Quanto ás possíveis "enormidades" que possam resultar da sua última obra (que não li) consideremo-las ficção, "factos alternativos" como agora se diz e não levemos isso muito a sério!
ResponderEliminarDo Mário Cláudio li três livros:
Eliminar-"CAMILO BROCA" - Que grande livro, gostei muito - excelente!
-"O EIXO DA BÚSSOLA" - um punhado de crónicas publicadas na imprensa-não gostei; esta pareceu-me uma escrita arcaica e nada fácil.
-"RETRATO DE RAPAZ"-decidi que a partir desta novela, só muito dificilmente voltaria a ler Mário Cláudio.
Gosto do cheiro d'arte!
ResponderEliminarFoi um convite muito conveniente para concorrer ao Prémio Leya. Não há coincidências...
ResponderEliminarA conveniência para mim é bastante mais grave e e é preciso saber como funciona o Prémio Leya para a atingir.
EliminarO júri do Prémio Leya lê apenas, no máximo, meia dúzia de obras, que são escolhidas por uma equipa de funcionários da... Leya. Não quero crer que a MRP faça parte desses seleccionadores, embora, racionalmente, me custe acreditar que não pela sua experiência na arte. De qualquer modo, mesmo que eu esteja errado, e mesmo que a MRP não o quisesse, ela é alguém a quem basta uma palavrinha distraída durante um café para passar no mínimo a mensagem a quem faça a escolha: leia com uma atenção especial. O que, convenhamos, sabendo como estas selecções funcionam já é um grande privilégio para a obra em causa.
Eu sei, vão dizer que sou maldoso. Mas acho que talvez a MRP não devesse ter dado a informação. A Isabel Rio Novo, a avaliar, pelo bom gosto de Mário Cláudio, não mereceria a dúvida que agora fica. Há muitos podres nas empresas e não basta ser, se acaso se é. Também é preciso parecer.
Se dou a informação, é justamente porque não há nada a esconder.
EliminarOu seja, a selecção não é imparcial. Muito obrigado pela informação. Só confirma o que já se sabia.
EliminarPenso que não entendeu porque não quis entender. Mas é como dizia a minha avó: um bom julgador por si se julga. E agora vou para o Porto.
EliminarAhahaha!
EliminarÉ a chamada fuga para a frente.
Perdoem-me o cepticismo, e sem desprimor para Mário Cláudio, mas é tudo muito conveniente. Ele é publicado pela Dom Quixote, ela foi finalista do Leya. Ou seja, fazem parte da mesma casa!
ResponderEliminarPor favor! Eu gosto de acreditar no valor das pessoas. Vou optar por isso. Ainda que não tenha lido nada da senhora:).
EliminarBom, a malta anda sempre atrás de conveniências, aqui e ali... não chega o talento, tem de haver algo escondido, mas adiante...
ResponderEliminarNão conheço pessoalmente o escritor Mário Cláudio, no entanto, parece-me que a Rosário tem razão para falar da sua generosidade, pois o Mário Cláudio, o centro a quem dá nome, pelo segundo ano consecutivo dá à estampa novos autores através de um prémio de contos que ele próprio lê e analisa a partir da sua experiência. Dá-se a esse trabalho! Não quer isto dizer nada, mostra apenas um certo interesse pelos mais jovens, e isso é de louvar.
Tenham paciência meus senhores mas que isto cabe na generosidade, isso cabe!
Um abraço
Carla Pais
Reparo que quem acusa nunca se acusa. Enfim, como diz a Antonieta, isto anda um bocado azedo.
EliminarPerante tanta virtude, lembrei-me de pesquisar qual seria o Santo protector dos escritores.
ResponderEliminarE após aprofundada missão, onde muito descobri ( até um Santo padroeiro dos estudantes em véspera de exames), e que me deixou fascinado e um pouco confuso .
Mas em que é que ficamos, o Santo padroeiro dos escritores é S. Francisco de Sales ou S. Cirilo?
Deixo-vos aqui uma pequena oração, que em caso de dúvida pode ser feita aos dois, que eles não levam a mal. Afinal de contas é por isso que são Santos à uma eternidade!
“ Caro Santo do Criador
Concedei-me a graça
de encontrar um escritor,
Que tenha bom coração,
Que me leia o manuscrito
E não use da apropriação
Que seja de terno feitio
E da verdade galante
Que já tenha sido editado e
Não tenha tiques de irritante.
S.Francisco
Ouve-me lá
Mas com toda a atenção
Há muita gente aqui
a precisar
Da tua intervenção.
E se não for pedir muito
Da tua miraculosa ação
Manda-me a Teolinda Gersão”(escritor a gosto).
ah, ah, ah. Os escritores que não se agarrem a outra coisa - a escrita por exemplo - que vão ver o que lhes acontece. Depois não digam que não avisei...
EliminarTambém lhe tiro o chapéu. Gosto de Mário Cláudio à parte a atitude para com os principiantes; aprecio o escritor, quero dizer.
ResponderEliminarTambém gostei de conhecer esta faceta generosa do Mário Cláudio, uma vez que como escritor já gosto dele há muitos anos.
Eliminar:-) Antonieta
Não vou comentar as coincidências, que as há e o acaso é que é coisa em que não acredito, porque crente numa Ordem Universal (ainda não descobri é qual, o que portanto é Extraordinário e motivador)! Também não comento o Prémio Leya que me daria muito jeito vencer um dia... eheheh!
ResponderEliminarFalamos de Mário Cláudio!
Gosto de ler as suas descrições, sobretudo, e gosto de como escreve!
Há coisas em que somos divergentes, eu sou caçador e aficcionado, assumido e esclarecido, ele é anti e por sinal não-esclarecido pois declarou qualquer coisa como a caça nem vale a pena discutir. Felizmente para ele, eu sou mais aberto e tolerante, por isso aprecio a sua escrita.
Pelo que dizem, parece ser generoso, o que é bom!
No resto, aguardo que um colega me traga o referido livro que anseio ler, e mal me contenho... estou mesmo em pulgas! Depois poderei também e eventualmente ter uma opinião sobre a obra, e digo eventualmente porque sou um ignorante Camoniano, sei apenas o que li porque tenho algum fascínio pelo Luiz Vaz e aquilo que se estudava... imagino que MC tenha feito uma investigação e pesquisa e saiba sobre o que escreve e que aliás parece sobretudo reunir o que outros dois "estudiosos" (?) escreveram sobre Camões.
Aguardo pois! Aka! Saudações da Cidade Morena!
Gostei muito da entrevista, que se pode ler no link dado pelo primeiro comentador.
ResponderEliminarAliás, eu já me questionei várias vezes sobre a figura de Camões. Mas quem sou eu? Um "anónimo", de facto. De qualquer maneira, não resisto a transcrever um excerto de um original meu nunca publicado, à semelhança de tantos outros, desejando a todos uma muito boa noite:
«- Consideramo-nos um país de poetas, – insiste a Teresa. – Não me admira que aquele que é apontado como o nosso maior poeta tenha lançado as bases para criar um mito: o mito de um povo afoito, um povo que se atira ao desconhecido, à procura da aventura.
Recita, teatral:
As armas e os barões assinalados
Que da ocidental praia lusitana
Por mares nunca de antes navegados
Passaram para além da Taprobana...
Interrompo-a:
- Estás a querer dizer-me que, nessa tua indiferença por poetas, tomas Camões, o grande Camões, por uma espécie de… impostor?
- Não necessariamente. Ele apenas exerceu a sua arte. O pior foi o que se passou depois: o transformar de um poema épico no nosso retrato fiel. Não me parece lúcido. Nem saudável.
Mais uma vez, a Verónica deixa-me sem resposta. E aproveita o meu silêncio para voltar à carga:
- Talvez fosse melhor considerarmos a obra literária apenas por aquilo que é, em vez de nos projetarmos nela, tomando-a por uma verdade absoluta. O homem era poeta, não era psicólogo, nem sequer historiador!
Fixa-me, divertida, e acrescenta:
- Bem, é verdade que a aventura de Abril também nos lançou em «mares nunca de antes navegados». Mas sem caravelas… Talvez com pranchas de surf.
- Pranchas de surf?
A Verónica ri-se:
- É para dar um ar mais moderno: surfávamos nas ondas do PREC!
Peço desculpa, mas publiquei sem querer, enquanto ainda estava a fazer uma pequena correção. Há uma incongruência no excerto. A personagem em causa chama-se Teresa, como no início, não Verónica, como aparece depois.
EliminarEsta história faz-me lembrar o que aconteceu com um amigo meu. Também ele foi convidado pela MRP a concorrer ao Prémio Leya, para ter uma segunda oportunidade, uma vez que o seu romance não passou pelo crivo da sua assistente editorial. Só que o meu amigo não foi em conversas e não concorreu a nenhum Prémio Leya (não fosse a MRP dar também uma palavrinha distraída a algum dos seleccionadores). Conclusão: a obra do meu amigo ganhou nesse ano um prémio literário e foi entretanto publicado. Um mau julgador (MRP) pelos outros se engana.
ResponderEliminarE não nos quer dizer o nome do seu amigo e o título do livro?
EliminarFicámos com curiosidade...
Lamento. O meu amigo é uma pessoa muito discreta e pediu-me que não divulgasse essas informações. Mas a MRP talvez se lembre. Eu sei que ela tem boa memória, tanto para as boas como para as más decisões. Faz parte dos ossos do ofício. De qualquer modo, não há assim tantos romances premiados...
EliminarÉ mesmo a resposta que eu esperava, aliás nem esperava qualquer resposta. Lamento mas não acredito na sua história - suspense só mesmo o do mestre Hitchcock.
EliminarE se o seu amigo é assim tão discreto (estranho, não é? um escritor que não quer ser conhecido, mas que publica livros e recebe prémios) talvez a D. Adília não devesse ter contado esta história sem pés nem cabeça.
Em primeiro lugar, digo-lhe que a cabeça e os pés da minha história estão no seu devido lugar. Faltarão algumas peças, as essenciais, como o nome do escritor visado e o título da obra entretanto premiada e publicada. Entendo a sua curiosidade, mas não vale a pena ansiar-se por causa disso. O meu amigo é, de facto, muito discreto e não pretende "ser conhecido" a todo o custo, ou seja, não é vaidoso. Tem consciência do seu valor enquanto escritor, tendo essa qualidade sido avaliada por juízes externos (júris dos vários prémios que lhe foram atribuídos, editores, críticos, escritores e leitores) e gostaria que a sua obra fosse apreciada como merece. Apenas isso. A história é verdadeira, mas não me compete a mim revelar o nome do visado. De qualquer modo, também não gosto de falar com "anónimos". Só respondi por educação.
ResponderEliminarA curiosidade é quase nenhuma, fiz a pergunta porque me pareceu deselegante da sua parte vir aqui contar uma história que só poderia interessar a si, à dona do blog e ao tal "amigo discreto e afinal muito premiado".
EliminarNão me pareceu muito educado da sua parte "repreender" a Maria do Rosário neste espaço, fiquei com a sensação que queria que os leitores do blog ficassem a pensar mal dela, mas provavelmente enganei-me, era um elogio - eu é que não percebi...
Eu também sou uma pessoa muito discreta, e apenas por isso não lhe vou dizer o meu nome.
De qualquer modo, agradeço a sua resposta, embora não tenha dito nada.
Melhores cumprimentos.
Faz muito bem esquecer este assunto, o qual não merece a sua atenção. Eu não repreendo ninguém, muito menos quem exerce um ofício do qual não tenho grande conhecimento. Mas tenho sabido em primeira mão algumas histórias fantásticas e inverosímeis da cena editorial, as quais, como depreende, não posso divulgar, uma vez que não se passaram comigo. Os próprios, se assim o entenderem, é que terão esse privilégio. No entanto, o que eu disse sobre MRP, também já tenho dito sobre outros "grandes" editores: por vezes, deixam escapar belíssimos inéditos com as suas próprias razões, que só a eles diz respeito. Obras que talvez não chegassem a ser lidas pela maioria dos leitores/compradores, uma vez que essa maioria é, na verdade, constituída por maus leitores, que gostam de banalidades e historietas. Logo, o investimento financeiro não conduziria ao lucro e uma editora é uma empresa, eu entendo isso. Ler bons autores dá trabalho, não é para todos, e a mediocridade é mais acessível e até entretém, aos fins de semana e nas férias. Gosta então de comentar anonimamente? Pois eu não. Tenho nome e tenho rosto. Melhores cumprimentos.
EliminarA maioria dos leitores deste blogue "repreende" a MRP por ela dar o seu ar de importância no meio editorial. Mas a verdade é que a MRP é uma pessoa convencida e dá muitos tiros no próprio pé. Há muitas histórias ainda por contar: o Prémio José Saramago, por exemplo. A MRP está em todos. Pobres dos leitores...
ResponderEliminarOlhe que não sei, "não sei".
EliminarSe a MRP está em todos não será porque é competente e tem um sexto sentido para descobrir talentos?
E não será melhor ser convencida do que ser insegura?
E os "pobres leitores" não comprarão os livros que ela edita por gostarem genuinamente deles?
Já me aconteceu comprar livros e só mais tarde descobrir que foram editados pela Rosário.
E estou à vontade para dizer isto, pois não a conheço pessoalmente e não sou ninguém - apenas uma "pobre leitora" - não venho aqui para ser conhecida nem para vender livros... até porque nunca escrevi nenhum.
Antonieta
Olhe caro Anónimo, que afinal parece que se chama Antonieta. Como já disse anteriormente, muitos leitores são, na verdade, "pobres" de espírito e maus leitores. Não sabem escolher o que devem ler, não aprofundam, procuram autores/"carasconhecidasdatv" e pouco mais. E as grandes editoras têm um papel pedagógico na formação de leitores que é relegado para segundo plano. Essa é a minha maior crítica. Não apostam em desconhecidos, mesmo que sejam bons, mesmo que sejam autores premiados por outros prémios que não controlam. Apostam em personalidades. Mas a mim não me convencem. Já leio há mais de meio século e juízo crítico não me falta. E hoje fico por aqui. Nada tenho contra MRP. Nem a favor.
EliminarAnónimos há muitos mas eu assino sempre Antonieta.
EliminarNo seu caso, ou não assina nada ou assina "não sei", o que me parece um bocadinho pateta pois nem sei se estou a responder a um der, die ou das, mas enfim...
Eu também leio há mais de meio século, mas não me parece que isso seja motivo para vir aqui dizer que a maioria dos leitores são pobres de espírito e maus leitores, não sabem escolher e blablaba...
Agora essa das grandes editoras terem um papel pedagógico... em que planeta vive?
Anónima que por acaso se chama Antonieta.