Escritores de canções

Apesar de Sérgio Godinho sempre ter insistido na expressão «escritor de canções», não costumamos considerar escritores aqueles que fazem letras e poemas para serem cantados. Mas a Academia Nobel, ao premiar Bob Dylan com o maior galardão que existe para a Literatura, mostrou que eles têm, afinal, tanto direito a serem denominados escritores como os que se dedicam à escrita de romances, poesia ou peças de teatro. Talvez por isso, foi divulgado com alguma pompa e circunstância na revista The New Yorker que a Biblioteca Pública de Nova Iorque ficará com o espólio de Lou Reed – e quem o anunciou foi a cantora Laurie Anderson, sua viúva, no dia em que Reed, se fosse vivo, faria 75 anos. Por aqui não creio que as nossas bibliotecas se interessem muito ou estejam preparadas para gerir o espólio de um músico: gravações electrónicas, registos em papel, pautas, vídeos e discos sem fim, além de objectos pessoais, fotografias, cadernos… Não temos um grande museu para a música e os músicos, e as nossas bibliotecas olham mais pelos espólios dos escritores à moda antiga. Mas talvez as coisas mudem com a introdução da expressão «escritor de canções» na nossa língua e com o Nobel da Literatura atribuído a um músico.

Comentários

  1. António Luiz Pacheco22 de março de 2017 às 02:38

    Para mim já mudou!
    Escritor de canções, é isso mesmo!
    Eu nunca me pronunciei quanto ao Nobel que deram ao B.Dylan (de quem aliás muito gosto!) , mas acompanhei a discussão, só que me falta o mais importante para ter opinião, que é o saber ou os conhecimentos para de facto construir essa opinião e o argumentário.
    Porém, esta denominação "Escritor de canções", parece-me que ajuda aqueles que como eu ficaram sem saber o que pensar.
    Há de facto grandes escritores de canções, como o Sérgio Godinho, o Zeca Afonso, o Fausto, o Adriano Correia de Oliveira, o Carlos Tê ... e o que foram por exemplo Carlos Alberto Janes, Ary dos Santos, David Mourão Ferreira, Pedro Homem de Mello ... terão sido além de poetas, escritores de canções? Diria que quando um poeta escreve com o intuito de criar a letra de uma canção, torna-se um Escritor de canções, não é assim?
    Então está literariamente justificado...
    Pergunto eu?

    Saudações interrogativas cá da Cidade Morena.

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  2. Emílio Gouveia Miranda22 de março de 2017 às 03:33

    Toda a criação artística merece ser olhada como manifestação da alma humana e tratada de igual modo enquanto espólio de memórias...

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  3. A minha opinião não muda por causa do comité Nobel .

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  4. Realmente, acho muito bem. Estou a referir-me à guarda do espólio de Lou Reed na Biblioteca Pública de Nova Iorque.
    Eu chamar-lhes-ia - poetas de poemas - os quais, por algum acaso, (porque tudo são acasos) foram musicados. Os poemas de Lou Reed ou de Bob Dylan ou de Leonard Cohen ou de Jacques Brel foram musicados pelos próprios. Primeiro nasceu o poema, depois a música que os envolveu. São poetas, acima de tudo. O seu pensamento transformado em poesia tornou-se universal, foi muito mais abrangente. A música levou esses poemas a muita gente que, de outro modo, não os conheceriam. Essa música transportou-os, aos poemas, elevou-os nos ares por cima dos mares. São poetas. Mas alguém tem alguma dúvida de que Bob Dylan ou Jacques Brel são poetas? Resta alguma dúvida? Alguém põe em dúvida a poesia de Maria do Rosário Pedreira quando esta é musicada e cantada por António Zambujo ou alguém põe em dúvida a poesia de António Gedeão quando esta musicada e cantada por Manuel Freire?

    Quem me dera que os poetas, realmente os poetas fossem assim cantados aos ventos, nos quatro pontos cardeais! Todos eles! Ou serão só chamados poetas aqueles que, de pluma em riste e na sua mansarda esconsa escrevem para os fantasmas lerem?

    A Academia Sueca, finalmente reconheceu o valor da grande poesia transformada em canto. Ja não era sem tempo!

    (Agora posso continuar este meu "discurso" retomando o conhecimentos de alguns séculos passados e começando a debitar sobre os jograis, os segreis e os trovadores...Talvez, quem não sabe, mudasse de ideias quanto à comunicabilidade e abrangência de alguns poetas modernos)

    VIVA A POESIA E A FORÇA DA MÚSICA QUE A PODE ACOMPANHAR e assim divulgar-se pelo mundo fora o desenho de um poema.

    Cristina Carvalho

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    Respostas
    1. Cláudia da Silva Tomazi22 de março de 2017 às 04:39

      Cristna o Brasil entende-se compositor: Vinícius de Moraes, Cartola, Chico Buarque de Holanda, Zeca Pagodinho, Osvaldo Montenegro e Fátima Leão entre outros.

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    2. Portanto, Claudia, - Chico, Vinicius, etc, não são poetas, não são escritores. Ponto final. Não são poetas.
      Mas, afinal, quem são os poetas?
      Não percebo...

      Cristina Carvalho

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    3. Sim. Percebe e percebe-os em transitoriedade. Seu olhar aguçado e sensível, arrepia-se com fenômenos d'esta natureza. Respeita-os tão profundamente tal vossa liberdade em transcrevê-Los. O tempo alinha sígnos e dignifica expressões; metáfora e vórtice. Precioso domador de bússolas.

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    4. António Luiz Pacheco22 de março de 2017 às 06:07

      Muito bem.
      A Cristina sempre o defendeu, falo da Nobelização do B. Dylan, e eu, como disse parece-me que a designação "escritor de canções" é uma boa forma de classificar os poetas que deveras escrevem para canções, sejam eles depois a musicar ou não.
      Claro que qualquer poema é passível de ser musicado e se transformar numa canção, e a prova disso reside justamente na poesia de A. Gedeão cuja voz única de Manuel Freire a cantou como ninguém, além de lhe juntar a música também de uma forma sublime. Porém, e sem desprimor, note-se, há poetas que não escrevem a pensar em ser cantados, caso de A. Gedeão, certo? E outros que escrevem objectivamente para isso, como o Dylan.
      Ambos são poetas, sem dúvida, mas não serão ambos Escritores de canções, estarei certo?

      Saudações palinúricas cá da Cidade Morena, eheheh!

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    5. Se me der como argumento de que nem tudo "serve" para ser cantado ou musicado, eu aceito esse argumento. Nem toda a poesia tem a musicalidade que se exige para ser cantada ou musicada. Outra poesia tem-na, a música, mas será por demais difícil conseguir esse efeito. Nesses casos, essa poesia pode ser declamada ou, simplesmente, lida nas condições que existirem, ou seja, em qualquer circunstância, em qualquer lugar. A não ser que se considere que a poesia não pode ser lida na rua, em casa, nos transportes...
      Mas voltando às músicas e repetindo a ideia: nem toda a poesia é musicável ou cantável. Claro que não. Mas a que é, por que não? Qual é a diferença? A diferença é para melhor. A diferença está mais virada para um amplo contributo para a humanidade do que outra coisa qualquer.~
      Poesia e música são dádivas de alguns seres para toda a humanidade.

      Cristina Carvalho

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    6. Meu amigo António Luiz Pacheco, depois respondo-lhe. Agora tenho de sair.

      CC

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    7. Robert Allen Zimmerman começou a escrever poemas ainda em criança. Depois aprendeu a tocar piano e viola (sem professor!) para melhor poder divulgar a sua poesia.
      Escolheu o nome Dylan em homenagem ao seu poeta preferido: Dylan Thomas.
      Bob Dylan não é apenas um escritor de canções e, por muito que os velhos do Restelo barafustem, foi um merecido Nobel da Literatura.
      Antonieta

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  5. António Luiz Pacheco22 de março de 2017 às 06:14

    Bom, como estamos lançados e as conversas são como as cerejas, atrevo-me a dizer então que se deveria considerar também a designação "escritor de filmes", ou coisa parecida... certo que há o "argumentista" ou "roteirista", mas creio que pode ser uma coisa diferente. Que acham?
    O Tarantino, podia muito bem ser um escritor de cinema, digo eu, aliás suspeito porque fã dele e do Robert Rodriguez... há uma versão em livro de "Sacanas sem lei", que se lê muito bem.

    E, não deixo de fora o "escritor de teatro", aliás dramaturgo, não é?

    Assim fica a pergunta: O Nobel deveria considerar a obra de dramaturgos e argumentistas , como candidatas ao Nobel da Literatura?

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    Respostas
    1. Já considerou!
      Dramaturgos:
      Bernard Shaw, Samuel Beckett, Dario Fo e Harold Pinter, por exemplo.
      Quanto a argumentistas, sabia que William Faulkner escreveu vários argumentos para filmes?
      Mas há mais...
      Antonieta

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    2. António Luiz Pacheco22 de março de 2017 às 07:22

      Tem toda a razão Antonieta! Sim senhora, não me tinha lembrado desses nomes... porque na verdade me habituei a considerá-los escritores e não dramaturgos!

      Quanto ao Faulkner... sabia e sei que há vários livros seus adaptados ao cinema, o que desconhecia é que tinha sido roteirista! Por acaso fiquei curioso com o seu post e fui googlar... ficando assim a desconhecer um bocadinho menos! Obrigado pela sua resposta e pela dica!

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    3. Mas, António Luiz, escritores são todos, não é? O género literário a que se dedicam é que pode ser diferente. A literatura distingue e engloba vários géneros, a saber e por exemplo: ficção, poesia, ensaio, dramaturgia, etc.
      A questão é que, vulgarmente e erradamente, se distinguem estes géneros, ou seja, quando se fala de 'literatura' a pessoa está a pensar em ficção. Está errado. Literatura é tudo. Daí eu dizer-lhe que não pode haver distinção (a não ser que se mude tudo e todas estas classificações, mas por enquanto e desde sempre é assim) entre os vários géneros. Quanto a mim não há escritores de argumentos de filmes, nem há dramaturgos, nem há poetas, nem há ficcionistas, etc. Há escritores. Depois, há as 'especialidades' se assim quisermos dizer.

      Saudações aqui do Oeste gelado!

      Cristina Carvalho

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    4. António Luiz Pacheco22 de março de 2017 às 14:03

      E tem toda a razão! Nem mais...
      Já matou saudades do Amadeo????

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    5. Já matei saudades de todos!

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  6. Ontem andei cheio de trabalho nem sequer passei por aqui.

    Para mim o escritor é um criador, no melhor que existe dentro desta palavra, e como tal, tanto pode inventar uma canção, um romance, uma peça de teatro ou um filme.

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