Pecados mortais

Hoje mesmo estará disponível nas livrarias portuguesas um romance cheio de personagens admiráveis que mostra que, por mais que fujamos do passado, ele continuará a perseguir-nos e poderá bater-nos à porta quando menos esperamos. O Pecado de Porto Negro, de Norberto Morais, tem como cenário uma ilha inventada, a piscar o olho a Cuba, e passa-se no princípio do século XX, não muito depois de ter terminado a escravatura e de os ilhéus se terem livrado do último governador branco. Santiago, o protagonista, é o sedutor nato que adora mulheres, especialmente as feias, e não desistirá de desencaminhar a virgem Ducélia Trajero, a filha que o açougueiro de Porto Negro guarda como um tesouro inviolável e que o funcionário do açougue – uma criaturinha desprezível – julga, sabe-se lá porquê, estar-lhe destinada. Mas em terras de clima quente os pecados, carnais e não só, sucedem-se a um bom ritmo – como, aliás, o do romance – e a vida de todos os aqui referidos e de muitos outros há-de sofrer inesperadas metamorfoses, podendo a penitência cumprir-se, por exemplo, num bordel, onde, além de um leque variado de prostitutas com histórias deliciosas, um mulato efeminado terá um papel determinante nos destinos de uns quantos. Finalista do Prémio LeYa no ano passado, O Pecado de Porto Negro lê-se de um fôlego apesar das suas muitas páginas e guarda surpresas espectaculares até ao fim.


 


Comentários

  1. Não quero cair no pecado de não ler este romance.

    António Breda Carvalho

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  2. É um erro fugir do passado. Nós somos o nosso passado. Fugir dele é fugir de nós mesmos.

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  3. Fiquei curiosa. Vou comprar. Obrigada. :-)
    E ainda existem criaturinhas desprezíveis e de imaginação fértil. Só não existem motivos para fugir do passado. Ou, pelo menos, tantos motivos. A não ser que sejamos criminosos, temos todas as razões para assumir-nos como seres inteiros. Somos o passado que lográmos, o presente que vivemos e o futuro que almejamos. Não somos é o passado que nos pretendem inventar. É que ainda há homens que, sendo mal sucedidos, pretendem imputar sucessos junto de uma mulher que jamais tiveram. Criaturinhas... ;-)

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  4. António Luiz Pacheco21 de maio de 2014 às 04:02

    Uma proposta interessante... a foto podia ser de uma rua de Évora ou Cáceres, curioso...

    No entanto, a arquitectura colonial (algo de bom ficou dessa época...) torna muito semelhantes as pequenas cidades Ibéricas, daquelas da América do Sul e Central, como de África, e claro, suas ilhas!

    Saudações do Bairro Ribatejano

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    1. António Luiz Pacheco21 de maio de 2014 às 04:03

      Bolas! É no que dá publicar sem ler... desculpem a má construcção da frase!

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  5. Cláudia da Silva Tomazi21 de maio de 2014 às 04:10

    Bom dia, vou contar a "anécdota" brasileira do corvo negro: nasceu branco.

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  6. Parece o enredo de uma telenovela brasileira.

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  7. Por falar em autores premiados:

    "Quem quer que abra, por vontade própria ou decreto providencial, um livro de Gonçalo M. Tavares, dá com a vista naquilo a que, literariamente falando, se chama uma surpresa. Sossegue quem tiver aprendido a pensar, pois ainda não disse se é boa ou má a surpresa com que dá quem assim opera. Nem o poderia talvez dizer, pois que, de um certo ponto de vista, pode ser bem surpreendido aquele que der com o espanto em má surpresa. Ora, quem quer que abra, pondo o intuito em ler, um dos livros por que Gonçalo M. Tavares foi surpreendendo o exigentíssimo público pátrio, Matteo perdeu o Emprego, tem forçosamente de abri-lo, como abriria qualquer outro livro, na primeira página. Se tiver a gentileza de fazê-lo, pode não reparar em muita coisa, mas decerto repara nas letras que lá se timbraram. Pode, por isso, não depositar suspeitas na hipótese de o escritor, desconhecendo as ínclitas leis da profissão de escrever livrinhos, não saber que um parágrafo pode conter mais do que um período, como o faz quem sabe o que há a ser feito, mas é com certeza capaz de ler, porque está lá para ser lido por quem tiver olhos e educação primária, o seguinte parágrafo:

    Todas as manhãs, um homem era visto, entre as sete e as sete e meia, a contornar a rotunda principal da cidade, rotunda onde desembocava sessenta por cento do tráfego. Às sete da manhã o fumo dos automóveis era maior que ao fim da tarde, porém, mesmo assim, havia fumo, metal e ainda a velocidade de alguns automóveis. E ali, no meio, correndo risco de vida, um homem. Aaronson."

    http://www.sed5contra.blogspot.pt/2014/05/sed-contra-3-tavares-ainda-nao-perdeu-o.html

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    Respostas
    1. Francisco! Leia A Viagem à Índia. A literatura são também ideias. E se Tavares não é um autor consensual, não deixa de ser um autor inovador na sua capacidade de as desenvolver.

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    2. Qual é o (seu) problema?

      PLFF

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    3. Pedro,

      O texto é da autoria do Álvaro da Horta. A mim coube apenas publicitá-lo aqui. Embora partilhe a maior parte das opiniões dele, não quero defendê-lo a não ser lembrando que o argumento que defende é fortíssimo.

      Quanto à sua objecção, diria que ideias qualquer um tem. Um cientista que tenha uma ideia brilhante mas que não a saiba testar ou pôr em prática é digno de louvor? Diria que não. Se ter ideias é o critério! é possível que haja tantos filósofos na Arrentela como na Atenas do século V.

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    4. Francisco,

      Ideias com critério. Mas isto, é como tudo: cada um gosta daquilo de que gosta. É a nossa liberdade de que nunca devemos abdicar. Nestas coisas do Gosto não me intrometo, apenas para sublinhar que tenho gostos diferentes. Gonçalo é um jogador de palavras? Parece-me que sim! Mas comungo com ele nem sempre as palavras deverem viver vidas simples. A complexidade abre portas, baús e todo o tipo de cruzamentos e labirintos. Literatura fácil e compreensível ao primeiro "toque" para mim é novela. E essas nunca suplantarão as novelas da vida e o nosso ser visual.

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    5. Pedro,

      Gostar de literatura não é gostar de ananás. Há coisas que dependem do gosto e que é ocioso discutir. Há outras que não dependem, como é o caso de qualquer obra de arte. Não gostar de Fernando Pessoa, por exemplo, não é como não gostar de ananás. Seria mais como preferir fruta podre. Não gostar de Fernando Pessoa, tal como preferir fruta podre, é estúpido. E é-o pela simples razão de que não é um critério de gosto que define a qualidade do que escreveu. Sobre a qualidade dos livros, assim como sobre a qualidade da fruta, pode-se discutir. E aquilo que o Álvaro tentou mostrar no seu texto foi que a qualidade dos textos de Gonçalo M. Tavares não é boa.

      Quanto ao resto do comentário, não consigo perceber quase nada. Não sei o que são palavras que vivem vidas simples, não consigo perceber a relação entre literatura e novela e não sei o que é literatura fácil. Quanto a jogar com as palavras, diria que o texto do Álvaro da Horta, uma vez mais, mostrou irrefutavelmente que não é coisa que Gonçalo M. Tavares saiba fazer.

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    6. Francisco

      Óptimo. A minha resposta cumpriu a sua função. A de não conseguir fazer "perceber" nada. Também era essa a ideia. Porque não sou eu quem lhe posso explicar. Não se explica quem já tem ideias feitas. São as suas. Respeito-as. Irrefutável não faz parte do meu dicionário. Não pretendo fazer vingar teses. Não sou vingativo. Vivo para observar, para me deleitar em perceber. Isso basta-me. Sou mais voyeur do que doutor. Fujo das emoções destrutivas. Prefiro o estoicismo como as dúvidas. As certezas aborrecem-me. Vivo vidas simples, não complicadas. Não alimento novelas. Um abraço.

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    7. Pedro,

      Todos temos ideias feitas. Temo-las e vamo-las modificando à medida que nos persuadirmos de que já não nos servem. Neste caso, você tem a ideia feita de que não deve ter ideias feitas. E, por isso, acha que tudo vale, que tudo é uma questão de gosto, e que nada é irrefutável. Repare no seguinte silogismo: Todos os homens são animais racionais; o cão do meu vizinho não é um animal racional; logo o cão do meu vizinho não é um homem. O silogismo é válido e verdadeiro, pelo que a conclusão é irrefutável. Como me disse o Álvaro acerca do seu texto, o que ele pretende mostrar pode ser reduzido a um silogismo parecido: Todos escritores sabem escrever; Gonçalo M. Tavares não sabe escrever; logo Gonçalo M. Tavares não é escritor. O silogismo é válido e, se as duas premissas estiverem certas, o corolário é irrefutável. O que o texto do Álvaro se esforça por mostrar é que a premissa menor está certa. Se estiver, é irrefutável que Gonçalo M. Tavares não seja um escritor. Mas nem era preciso ir tão longe. Quem é que se levantaria para ir trabalhar se não tivesse a certeza de que o mundo não ia acabar na semana seguinte? Como é que alguém aprenderia a jogar futebol se não tivesse a certeza de que as leis da gravidade, tal como as conhece, iriam permanecer imutáveis? Como vê, há muita coisa irrefutável. Aliás, se não tivesse certezas, nem conseguiria viver. Que não as tenha a respeito de livros não quer dizer que não as tenha a respeito de outras coisas. Quer apenas dizer que ou não é capaz de tê-las ou que prefere não tê-las. Acho mal as duas, mas mais desculpável a primeira.

      De resto, volto a não compreender algumas coisas, nomeadamente a relação entre estoicismo e dúvidas. Os estóicos tinham poucas dúvidas, caro Pedro. E defendiam aquilo em que acreditavam.

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    8. Caríssimo Francisco

      Ao afirmar termos todos ideias feitas está claramente a traçar a divisão do que nos separa. Por que não tenho ideias feitas, tenho ideias que se vão fazendo. O feito pressupõe uma perspectiva de tempo e espaço de que não comungo. Como sabe também os estóicos e o estoicismo ensinavam que as emoções destrutivas resultam de erros de julgamento. O Francisco acena com conclusões irrefutáveis. E eu aceno-lhe que os erros de julgamento não estão nas conclusões irrefutáveis, mas no absoluto das premissas. Afirmar que todos os homens são racionais é esquecer que todos os homens são racionais em momentos da sua vida, mas não em todos. Os que compram por impulso não são racionais e assemelham-se ao cão do seu vizinho. Aposto até, embora também com a relatividade do risco, que sei qual a preferência partidária do Francisco. Porque quem afirma o absoluto da racionalidade são os mesmos que afirmam a economia de mercado como o melhor dos sistemas, partindo do pressuposto (aparentemente errado) que todas as nossas decisões económicas são racionais.
      Repare que até o cão é racional quando "sabe" que se defecar na cozinha pode apanhar como contrapartida uma palmada pedagógica — com um jornal, é claro (a violência contra os animais é reprovável).
      Poderá dizer-me: mas ele só aprende à segunda, não à primeira. Responder-lhe-ia: até as crianças só conhecem as asneiras quando só confrontadas com elas. Claro que quem defende a irrefutabilidade afirma irrefutavelmente que o cão não reagiu racionalmente mas por impulso, tentando não confundir este com reflexo condicionado.
      E na minha relatividade nem todos os escritores sabem escrever (o que é isso de saber escrever? não dependerá muito do receptor?), nem o Tavares não sabe escrever. Saber escrever ou não também depende do tempo e espaço e talvez por isso "gostemos" de alguns autores, de outros não. Normalmente isto chama-se juízo preconcebido, que poderá ir até ao preconceito.
      Em resumo: com a relatividade das minhas afirmações (refutáveis para mim), há quem ache que há verdades absolutas e há quem pense que tudo no mundo é relativo. Até a morte... que é um tempo e um espaço que nos é vedado conhecer!

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    9. Caro Pedro,

      Já percebi. É um relativista absoluto. O que dá jeito, pois nunca perde discussões. É mais ou menos como um vira-casacas, que nunca perde uma guerra. Mas diga-me uma coisa: quando pega no carro, circula à direita ou à esquerda? Devo supor que circular à direita é relativo? Quando veste uma camisola, começa por que perna? Continua a achar que não tem ideias feitas? Continua a achar que é possível ser relativista em relação a tudo? E quando tenta adivinhar a minha preferência partidária com base no facto de eu achar que há coisas irrefutáveis, também acha que não tem uma ideia feita (e muito tosca) acerca de um grupo de pessoas? Francamente, A menos que seja um girassol, o Pedro não pode simplesmente virar-se para onde estiver o Sol. Saber escrever depende do receptor? Em que planeta? Se um aluno tiver má nota num teste por escrever mal, pode alegar que o professor que lhe deu a nota não é o receptor indicado? Pode então o aluno, ou qualquer outra pessoa, estipular o que é escrever bem como bem lhe apetecer? Desculpe a comparação, mas o Pedro é o Humpty Dumpty.

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    10. Caríssimo
      Uma coisa são ideias, outra são cumprimento de regras ou normas. O caríssimo não vê entretanto em lado nenhum por mim escrito que não perco ou ganho discussões. Por dois motivos simples: porque não discuto, debato; e porque na bondade da relatividade nunca digo raramente tenho dúvidas e/ou nunca me engano. Quanto à viradeira ou reviralho sim as minhas opiniões são flexíveis, ao serviço da tolerância e de melhores opiniões.
      E muito menos contraponho com argumentos obnubilados ou aquele afã muito característico de uma sociedade que não se governa, nem sabe governar, uma sociedade de vermelho ou negro, não aceitando argumento, esgrimindo apenas a espada ou a pena como espada.
      Essa, guardo-a para momentos mais radicais. Porque também a sei desembainhar, mas tento a manter a repousar porque as espada é um instrumento do absoluto e não do relativo.
      Recebi-a dos meus ancestrais que a andaram a espadeirar dos Brasis, Áfricas a Índias, possivelmente nem sempre pelos melhores motivos e ideais.
      E meu caro: claro que o aluno nunca pode alegar má classificação e revisão de prova, instrumento característico de uma sociedade que não vive sob a tutela do totalitarismo.
      Um abraço, sempre relativo, mas contemporizador, que a vida não se esgota nos argumentos!

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    11. Pedro,

      Claro que o aluno pode alegar o que quiser. Que tenha razão ao fazê-lo é que já é difícil. Se escreveu mal, está mal escrito. Receptor algum, desde que saiba o que é escrever, lhe dará razão. Mas já oercebi que, oara si, quem acredita que há coisas irrefutáveis é necessariamente adepto do totalitarismo. É um modo de pensar pouco relativista, há-de concordar. E abre espaço para a objecção de que quem não acredita, como é o seu caso, é necessariamente anarquista. Já viu onde nos leva a sua maneira de pensar?

      A relatividade não é bondade; é imbecilidade. Eu percebo que, numa sociedade composta de imbecis, a tendência seja a relativização de tudo. Afinal, foi assim que cada um dos imbecis pôde ser alguém na vida. Um imbecil, por exemplo, quis ser carpinteiro. Como estava rodeado de imbecis, ninguém lhe disse que, apesar de não saber nada de carpintaria, não podia sê-lo, e acabou mesmo como carpinteiro. Não acha que essa sociedade tem um carpinteiro que não devia sê-lo? Agora imagine que todos os outros imbecis sobem na vida assim? Numa sociedade de imbecis, uma sociedade que não é minimamente criteriosa, que é relativista como pretende, não há maneira de criar profissionais inteligentes, seja em que área for. Se calhar o Pedro gostava de viver numa sociedade assim. Tem todo o direito a isso. Mas se alguém lhe disser que um carpinteiro que não sabe de carpintaria é pouco útil, o que é que vai responder? Que é relativo? Que, no mundo em que gosta de viver, não é preciso que os carpinteiros sejam úteis? Enfim, numa sociedade a sério as pessoas têm constantemente de provar as suas qualidades. Como os clientes do carpinteiro, os outros carpinteiros, e basicamente toda a gente à volta dele não são imbecis, o carpinteiro, para sobreviver como carpinteiro, tem de saber alguma coisa de carpintaria. Não me parece diferente o caso do escritor. Desde que à volta dele haja alguma exigência, tem de saber escrever para ser escritor.

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