Geografias
Os meus irmãos e eu, quando éramos pequenos, adorávamos jogar ao STOP (não sei se se lembram do que é) e, entre os temas mais apreciados, estavam os Países e as Cidades, que preenchíamos sem hesitação, fossem próximos ou distantes, mesmo quando começavam por letras esquisitas como Q ou Z. Recordo-me de conhecer capitais de países africanos que nunca estudei na escola (ler dava uma boa ajuda, mas consultar atlas também fazia parte dos tempos livres); embora hoje se calhar a disciplina de Geografia não vá muito longe, os jovens portugueses também têm hipótese de viajar mais cedo (com o Erasmus, por exemplo) e sabem localizar bastantes países num globo terrestre. Mas nos EUA, muito virados para si próprios (quando não para o umbigo do seu Estado apenas), os habitantes ignoram a geografia mundial. Na época da guerra do Iraque, mesmo os que diziam ser claramente a favor da intervenção americana nunca sabiam onde ficava o Iraque quando lhes estendiam um mapa-múndi. E, mais recentemente, foi entregue a um grupo numeroso de norte-americanos (alguns universitários) um mapa da Europa dividido em países, mas sem nomes, para que o preenchessem. E algumas das respostas foram, como não podia deixar de ser, hilariantes. Além dos mais ou menos óbvios Reino Unido, França, Itália (a bota ajuda muito) e Rússia (o fantasma da Guerra Fria não desaparece de um dia para o outro), que quase todos assinalam correctamente, a Europa Central é descrita muitas vezes como Transilvânia e os territórios da ex-União Soviética como o país de Borat (ai, o cinema); Portugal é a Espanha ocidental ou fica em branco, e há quem ponha uma seta abarcando os países nórdicos dizendo apenas «Hot blonde people» ou «Bjork is here somewhere» ou ainda «Cold» (com alguma razão). O pior resultado acontece na zona dos países mais novos (os que ocuparam a ex-Jugoslávia, por exemplo), que ninguém sabe nomear. Pois é... A notícia revela algum escândalo e apreensão – a Europa é velha – mas saberíamos nós o lugar de cada um dos Estados norte-americanos num mapa em branco? Acho que não.
a geografia [ fixa ] de um mundo ] parado [ com os seus lugares apelativos, perigosos, tropicais ou desérticos, com o seus povos felizes, avançados, outros pelo contrário, muito atrasados, ou demasiadamente recônditos, com a sua história sedutora ou catastrófica, com as sua peripécias culturais e os seu fatalismos meteorológicos, tudo isso pode agora ser cartografado com uma espécie de tabela periódica, onde se ordenem símbolos: ídolos da musica, do futebol, paraísos fiscais, gastronómicos, depósitos de lixo global, santuários de coalas... | as fronteiras não se atravessam | sobrevoam-se | um hotel esquimó, de luxo, num lugar que nem economia possui, são cinco horas de viagem e pouco importa onde fica | fica onde o avião aterrar | e um harém pode ser importado, instalado na Manta Rota e pouco importa de onde vem | vem de onde os haja e demora cinco horas a chagar, e algumas mais a montar e a desmontar | Fukushima, é no Japão, se não houver vento | a tragédia está resolvida? | há quanto tempo não temos notícias ! | lembram-se do terramoto do Haiti ? três, quatro anos? Valerá a pena saber onde fica, agora que as praias, enfim… talvez fosse útil conhecer o mapa dos esquecimentos porque talvez sejam os esquecimentos voluntários a determinar a ignorância e o que a circunda | Aleppo | se nada se alterar em breve, será preferível não saber onde fica | nem sequer que existiu, tal é a perda
ResponderEliminar_de_
Não só não saberíamos o lugar de cada um como nem sequer o nome de todos eles.
ResponderEliminarÉ que são "apenas" 50!
E tão diferentes uns dos outros!
Por isso é que eu acho estranho, e ridículo, quando alguns entendidos falam dos americanos como se fosse possível generalizar...
Antonieta
Os americanos são de uma ignorância e falta da chamada cultura-geral impressionante.
ResponderEliminarPessoalmente, considero-os estúpidos, pura e simplesmente, porque muito limitados e dirigidos!
São muito bons em termos profissionais, mas apenas e só nas suas especialidades e incapazes de ter uma visão global, na sua maioria.
Um americano é um especialista de antolhos!
Isto não é preconceito e sim a dura realidade...
Fiz em 1994 o Food Executive Program na Universidade de Cornell. Um curso de pós-graduação para executivos de topo da área alimentar, com formação em ciências agrárias, distribuição e comércio alimentar ou indústria agroalimentar. Tive colegas que eram gestores destas áreas em grandes empresas americanas ou multinacionais, um ou outro espanhol, argentino, francês, italiano e canadiano. Éramos uns 30 no total, aquilo foi muito caro mas muito bom, devo-o ao Grupo Jerónimo Martins onde fui quadro por 10 anos no Pingo Doce, e me foi dando formação pós universitária e profissional ao longo deste tempo.
Voltando aos americanos, a falta de conhecimentos fora da sua área específica era perfeitamente espantosa e admirava aos europeus... era patente em cada simulação ou exercício de grupo nos diversos módulos.
Estabelecer uma estratégia, um plano, ou interpretar dados com os americanos, se eles não fossem daquela área, era por vezes hilariante pela sua falta de visão global e da incapacidade de olhar para fora da sua especialidade!
Mas pior a sua ignorância sobre a geografia ou história Mundial, dos povos e países em geral era atroz e impossibilitava-os de ter noções de gastronomia ou o que fosse, fora dos EUA, que redundava numa total insensibilidade para o que fosse não-americano!
Ficavam abismados com o nosso conhecimento geral uns dos outros e do Mundo, até de sabermos detalhes sobre eles e a sua história.
Foi uma decepção tremenda... como é que o país mais poderoso do Mundo tem à frente das suas empresas gente desta? Pois... mas isso explica muita coisa que fui percebendo depois e ao longo do tempo...
Quanto aos portugueses actuais... noto muita informação made in CNN, mas colada comm cuspo, pois se os espremermos, têm pouco sumo, ou nenhum... as questões actuais na Ucrânia são exemplo, pois não sabem quem nem o que foram ou significam "cossaco"... ouviram vagamente falar em Crimeia mas Balaklava e a Carga da Brigada Ligeira não lhes diz nada, nem sequer quem a travou!
Ou seja, também já não se sabe assim tanto nem de geografia nem de história, aliás nem da nossa... e aqui em casa passo a vida a dar nas orelhas e a obrigar a minha malta (mesmo a formada) a ir ver onde fica o Pulo do Lobo ou a serra da Gardunha!
Pela minha parte concordo com a Nossa Extraordinária Anfitriã, porque de facto a maior parte do pessoal ignora onde fica o Nebraska... não sabem onde é o Montana e South Pass ou Antietam (Sharpsburg) não lhes diz nada, menos o nome de Lee ou de McLellan... mas também acho que são preciosismos ou fruto do acaso.
O Europeu médio ignora quase tudo dos EUA... e é capaz de fazer dos americanos uma idéia falsa, e ter uma desilusão como a minha!
Já agora... e quem de entre nós sabe o que os portugueses fizeram na américa? O que a desenvolveram? Que portugueses inscreveram o seu nome na história dos EUA?
Também muito poucos...
Saudações do Bairro Ribatejano.
Caro e Extraordinário Pacheco,
EliminarSerá possível que num universo de trezentos e tal milhões de habitantes sejam todos estúpidos e ignorantes?
Nunca estive nos USA, não tenho sequer a pretensão de ter a sua bagagem cultural ou de viajante, mas recuso-me a acreditar que assim seja.
Conheci alguns bem cultos e interessados no mundo em geral, não só no seu mundinho.
Aceito que se diga: os portugueses são assim ou os franceses são assado, mas quanto aos americanos acho impossível generalizar.
Enfim, é só a minha opinião.
Antonieta
Claro que não se pode generalizar nunca nada... mas pela amostragem que tive ocasião de fazer, e falo de quadros superiores de empresas tão grandes quanto a BP (divisão alimentar) ou a Sara Lee Foods, Coca-Cola, Nestlé ... foi um quadro aterrador, repito... Repare Extraordinária Antonieta, é gente com formação universitária, com mestrados... gestores de topo das maiores empresas.
EliminarSe me disser que por cá o quadro não está melhor... eu aceito, porque infelizmente se tem seguido muito o modelo made in EUA, mas nunca nos meus contactos com os meus colegas europeus, tive um quadro tão mau quanto aquele!
Evidentemente - e para a tranquilizar - que falo do meu "meio", o negócio agroalimentar e da distribuição... mas... temo que seja mesmo geral.
Já agora - e dando-lhe razão quando me aponta o erro de estar a generalizar de forma extrema - faço ainda esta observação:
Eliminar- Os americanos de que falamos ambos, se calhar são uns da área da gestão (os meus) e ignorantes de tudo o mais, e outros (os seus) de áreas eventualmente ligadas á cultura ou académicos... e daí a nossa diferente percepção.
Repito a idéia que tenho deles: São especializados em extremo, eficientes na sua área sem dúvida, mas apenas e só nela.
Saudações do Bairro Ribatejano
Hum... estou hoje muito chato, mas estou de férias e este dolce fare niente é ainda mais agradável com as visitas a este Extraordinário lugar onde é tão bom "conversar" com "vócezes".
EliminarExtraordinária Antonieta, e demais Extraordinários:
Alguém leu "O último homem americano" da Elizabeth Gilbert?
Vale a pena, digo eu, e o tema relaciona-se com esta nossa conversa sobre os americanos. Também explica ou ajuda a entender muita coisa.
Haja livros, esse sim é um facto.
Nunca li nada dessa escritora embora tenha visto um filme com a Julia Roberts feito a partir de um livro dela (Comer, orar, amar) e não gostei muito.
EliminarVou tentar ler esse de que fala.
E tem razão, haja livros!
Aliás, na semana passada li um livro que me impressionou imenso (Doze anos escravo, do Solomon Northup) e que demonstra bem a diferença que existia (e existe?) de Estado para Estado nos Estados Unidos.
Logo de seguida vi o filme homónimo, em dvd, que ganhou o Oscar de melhor filme este ano; confesso que gostei mais do livro.
Extraordinário Pacheco, óptimas férias para si e família!
:-) Antonieta
E já que está por cá, hoje tem um programa na rtp feito especialmente para si: é sobre touradas. Vi o anúncio à hora do almoço.
EliminarAntonieta
Já dizia o grande Millôr Fernandes: -
EliminarO ESPECIALISTA É UM IGNORANTE EM TUDO MENOS NUMA COISA"
Bem, eu que sou europeia e que percorro pelo menos uma vez por ano (ou duas, ida e volta) metade da Europa de carro, teria muita difculdade em assinalar países como a Albânia, a Roménia, a Eslovénia ou mesmo a Hungria, num mapa em branco. E se me dessem uma mapa em branco da Ásia, também me via aflita para assinalar o Nepal, a Tailândia, a Coreia, o Bangladesh, Singapura e cia.
ResponderEliminarMas é verdade que os americanos são muito ignorantes quanto ao resto do mundo. Nunca mais me esqueci de um promenor do filme "In Bed With Madonna", visto talvez há duas décadas, em que ela, em tourné pela Europa, exclama, num dos serões em que se apronta para mais um espetáculo: «Esta Europa é mesmo incrivel! Tantos países, tantas línguas diferentes!» (Isto também prova que se pode aprender algo com filmes julgados "menores", ou mesmo fúteis; com os livros é parecido).
Já agora, o fascínio que a Europa exerce sobre os australianos baseia-se precisamente nisso. Conheço uma australiana que gosta muito de cá vir e uma vez perguntei-lhe porquê. »Porquê? Porque na Europa se podem visitar tantos países e culturas diferentes em tão pouco espaço. Nesse aspeto, a Austrália é aborrecidíssima».
Quem diria?
Céus! "Pormenor", claro!
EliminarEsse detalhe é curioso Cristina!
EliminarVeja que tenho alguns bons amigos australianos e da Nova Zelândia, que aproveitam os campeonatos mundiais de pesca submarina realizados na Europa: Rota (Cádiz), Galiza, Peniche, Sines, Mali-Losinj (Croácia) para vir passear... vindo em grupo. Começou com Sines, como país anfitrião, e depois disso tenho-os apoiado muitas vezes, fornecendo indicações e ajudando a escolher destinos de passeios. Adoram a história, a gastronomia e vinhos, e, são muito mais cultos do que se poderia pensar de australianos... em particular um dos Neo-Zelandeses que alcunhámos de "Vileda" pelo seu ar desgrenhado e hirsuto tipo esfregão, trabalha em hotelaria e turismo, sempre mantenho com ele animadas trocas de mail por força da preparação destas incursões!
Já a equipa americana, embora bons tipos, muito simpáticos e prestáveis (são até gratos!), onde há um luso-descendente, cubanos e havaianos, são tipicamente americanos no que toca a não saber nada sobre mais coisa nenhuma! E pouco se interessam... o seu objetivo é apenas disputar o campeonato e nem trazem as comitivas que quase todos os países trazem, normalmente em passeio.
Confesso que também fiquei com uma opinião bem diferente dos nossos antípodas - NZ e Austrália!
para quem queira ir ao princípio, recomendo a leitura, sobretudo da mais recente edição, a todos os títulos magnifica de | Da democracia na América | de Alexis de Tocqueville | livro lançado em meados do sec XIX ||| os EUA vistos e analisados por um europeu | além do mais, uma notável reflexão sobre a democracia
ResponderEliminar_de_
Não sou americana mas serei estúpida ao perguntar a cada um de vocês se, em Portugal, um país de dimensões tão "pekurruxinhas" saberiam localizar no mapa todas as vilas e aldeias? Acredito que para as cidades maiores (que são tão poucas) a pergunta é muito fácil e todos passariam no exame.
ResponderEliminarTambém não acho acertado dizer que os norte-americanos são estúpidos. Já estiveram na Lua. Em breve talvez pisem em Marte. E se for enumerar todos os seus feitos e invenções de grande utilidade para a Humanidade talvez não saia daqui por horas e horas ....
Agora outra pergunta: o que interessa aos norte americanos saber onde fica localizada Freixo, Lagoaça, Kifangondo ou Ruda nad Moravou?
Pffffffffffff, querem lá saber, têm coisas mais importantes a descobrir ...
Bom dia a todos.
Exactamente... têm coisas para descobrir, que outros já descobriram... eheheh!
EliminarSabe Caríssimo Anónimo, é evidente - e já o reconheci, que estou a exagerar... mas, ainda há pouco e em conversa com uma das minhas irmãs - estamos de férias - me lembrei de que um dos meus cunhados, já reformado e antigo quadro da administração da BP internacional (porque será que a BP tem tantos quadros europeus?) não tem igualmente grande opinião sobre os americanos, se em que reconheça que são obviamente competentes naquilo em que se especializam. Outro cunhado meu, há muitos anos nos EUA, era director de compras e logística de uma empresa americana de software. Aqui há uns 3 anos esta foi comprada por uma empresa muito maior e ele começou a pensar na saída... surpresa! A outra companhia manteve-o e até o nomeou responsável para a América Latina... porque ele fala línguas e porque valorizaram o facto de sendo não especializado, resolver tudo o que são problemas, o que em logística conta muito... pelo menos não são assim tão estúpidos, reconheço... eheheh!
No fundo o que eu quero dizer, é que os americanos estão longe de ser os super-homens que eles mesmos e o Mundo em geral julga que são... quando nos relacionamos com eles descobrimos as fragilidades que têm, isto sem fazer de nós melhores... não... mas somos também bons em muita coisa, muitíssima coisa e isso eu sei por experiência própria - talvez daí a fraca opinião que transmito do mito americano.
Saudações do Bairro Ribatejano.
Onde fica o Bairro Ribatejano? eheheheh
EliminarConcordo, em parte, com seu comentário e também sei o quão prepotentes têm sido os seus Governos, sempre invadindo terras alheias (eles olham o mapa e dizem "hoje vai ser esta"... zás e lá vão) ...
Não podemos generalizar, isso sim. Povo é povo e todos os povos têm qualidades e defeitos ... somos todos iguais, independentemente sob qual bandeira e hino tenhamos nascido. Eu não tenho hino nem bandeira e, por conseguinte, gosto de todos ... gosto de gente, gosto da mistura e sei que cada um de nós é um mundo de falhas, deficiências, inteligência, estupidez, acertos e eficiência ... e assim caminhamos ...
Boa tarde em seu bairro alentejano (ops... Ribatejano) eheheheh
Extraordinária Anónima,
EliminarGostei muito do seu último parágrafo, eu penso exactamente assim.
:-) Antonieta
E já agora... eu também!
EliminarQuero dizer gostei do seu parágrafo (e do resto...) se bem que eu tenha hino e bandeira (embora se pudesse escolher, a bandeira seria azul-e-branca e o hino outro, não o da carta mas por exemplo o "Poema da Malta das Naus").
Mas sim sem dúvida, gosto e interesso-me por gente, que tento ir conhecendo.
Já agora, e tem toda a razão por norma e de um modo geral também não é sabido que há no Ribatejo 3 zonas distintas: O Campo, o Bairro e a Charneca.
O Bairro é a zona que se estende para N de Santarém, indo pegar com a região saloia. Caracteriza-se pelo terreno bastante dobrado em outeiros ou cabeços e pequenos vales com cursos de água, aliás é uma região rica cujo subsolo é rico em água. Está bastante dividido em propriedades de pequena/média dimensão. Os seus naturais são os "barrões", gente laboriosa e orgulhosa pois quase todos possuem terra e a trabalham, além de haver muitos artesãos, ofícios e prestadores de serviços, ademais sendo fértil quase nunca se passou fome! As culturas tradicionais são as do triângulo azeite-vinho-trigo, eventualmente grão, feijão, aveia, e forragens. Ainda muita horta e pomares. Cria-se gado em pequeno regime mas toda a gente tem carneiro/boi/porco sobretudo para autoconsumo.
Saudações de cá!!!! Eheheh!
Agora outra pergunta: o que interessa aos norte americanos saber onde fica localizada Freixo, Lagoaça, Kifangondo ou Ruda nad Moravou?
EliminarQue me interessa saber quem foi D. Afonso Henriques se isso já aconteceu há quase mil anos, etc etc...
Perdoe-se-me a ousadia é até a rudeza mas não posso deixar de dizer que esta conversa é mesmo de quem não tem curiosidade por aprender, por saber mais, é conversa de especialista...(o ignorante em ido menos numa coisa- conversa de americano...)