Livres e acorrentados
O diário francês Libération acusou (como quase todos, imagino eu) uma diminuição significativa do número de exemplares vendidos em 2013. Os administradores da empresa proprietária do jornal consideraram então que se devia fazer alguma coisa para o modernizar e aproximar de uma comunicação mais de acordo com os tempos actuais, e digitais, propondo que ele não fosse apenas um título da imprensa escrita, como até aqui, mas também uma espécie de plataforma geradora de conteúdos e passível de se tornar lucrativa. Pois bem: os jornalistas não gostaram e, traindo o espírito visionário que o jornal possuía quando foi criado em 1973 por Sartre, mostraram-se completamente intransigentes com as modernices e resolveram reclamar dos objectivos da administração no próprio jornal, com uma edição especial em que, na primeira página, declaravam: «Nós somos um jornal.» O mais paradoxal é que quem pagou essa edição foram os administradores, ali duramente criticados, para não dizer enxovalhados, pelas suas ideias monétisables. Mas, ironia à parte, a verdade é que o império do dinheiro chegou a todo o lado; e, se a publicidade deixou de pagar o custo do papel (há jornais que já não têm praticamente anúncios), muitos dos diários e semanários correm o risco de fechar se não se tornarem, de facto, uma coisa completamente diferente da que têm sido. Na edição de livros, foi decerto também a busca do lucro rápido que fez com que os editores se pusessem a publicar livros menores mas potencialmente vendáveis, sem se aperceberem de que estavam a criar leitores crédulos e mal formados, muitos dos quais incapazes de pensar pelas próprias cabeças e de, mesmo com um empurrão, passar a um patamar de leitura superior. No entanto, agora já não é possível voltar atrás, e a recusa dos funcionários do Libé a adaptarem-se a novas estratégias também me parece um pouco exagerada. Até porque, pelos vistos, ainda têm quem lhes «sustente» as críticas...
… reflexão de Eduardo Lourenço nas correntes d’escritas, ontem | « dá a impressão de que, de repente, fomos invadidos, não por uns castelhanos arcaicos nossos vizinhos e que são nossos irmãos e primos, mas por uma espécie de vampiros como aqueles que o cinema de Hollywood ilustra. Não é por acaso que o tema dos vampiros se tornou um tema da moda, os vampiros são emissários da morte, é como se estivéssemos a viver uma espécie de apocalipse indirecto » « passámos [...] para um tempo em que aparentemente as guerras já não têm lugar ou são guerras de uma outra espécie, são quase guerras virtuais como se fossem cinema puro, embora os mortos não sejam cinema nenhum. Passámos para um tempo em que estamos - não parece à primeira vista - num mundo em estado de guerra permanente no interior do sistema, não há nenhuma grande produção que não esteja em guerra com uma outra ao lado » « tudo se passa na televisão, as intervenções dos comentadores na televisão são mais importantes do que a realidade" | v a m p i r o s …
ResponderEliminaras coisas mudaram, mas não tanto como nos querem fazer crer.
ResponderEliminarquerem mesmo acorrentar-nos... é só irmos na conversa deles.
o nosso país, governado por políticos demagogos, incompetentes e mentirosos, é um bom exemplo de quem nos anda sempre a querer "tapar os olhos".
Tanto La Palisse como a Lili Caneças, já perceberam que não podemos ser livres. acorrentados. :)
No Brasil "Marselhesa"é time.
ResponderEliminar«Allons enfants de la Patrie»! ;)
EliminarEu teria de ouvir a conversa da tutela para poder posicionar-me - ou não - contra os jornalistas.
ResponderEliminarEduardo Lourenço tem a sageza de nos dar voz e ser melhor que a voz que é nossa.
E agora.
ResponderEliminarPelo seu comentário (quase) que diria que (ainda) não leu esse excelente livro que é "O Negócio dos Livros" de André Schiffrin , que infelizmente faleceu em Dezembro do ano passado. Diria que é (quase) uma leitura para quem quer saber mais sobre os bastidores dos livros, e também se fica a conhecer a vida de um grande editor e homem.
ResponderEliminarVamos lá a ver... O Medina Carreira jáa tinha dito há bastante tempo que o mundo, tal como o conhecemos, acabou com a queda do muro de Berlim...uma espécie de caixa de pandora que foi aberta por inadvertência...Qual é a admiração agora?
ResponderEliminarWell ... well . Bom post . Lá voltamos nós ao amor pelo povo e ao desprezo pelo zé sem ver que no povo há tantos zé s quanto o tempo o tempo tem. Nada impede que os jornalistas do Libértion , se juntem e criem um blog para o seus fieis leitores enquanto arranjam um emprego em qualquer coisa que efectivamente lhes pague os salários. A "cultura" que merece ser subsidiada são os vampiros e o porno em quarenta sombras porque é disso que as pessoas gostam e é das pessoas, do trabalho das pessoas, que vem esse dinheiro. "Mas o Gonçalo M. Tavares escreve muito bem e a Margarida Rebelo Pinto é uma pirosa..." pois bem, o Gonçalo deve ser um feliz e orgulhoso pobre. Eu acredito em valores absolutos, não sou daqueles imbecis que dizem Quim Barreiros tem tanto valor quanto Mozart, de maneira diferente", mas também não digo "O povo é sábio" porque não é. Vocês, gente da "cultura", para viverem em paz, têm que aprender a ter pouco criando muito. Citando um parvalhão "Não há almoços gratis ": porque deve o meu avô contribuir para uma peça da qual não compreende uma única palavra? Porque mil sabem ser boa? Ensinem bem o avô do futuro e talvez, só talvez, já não precisem de caridade.
ResponderEliminarAproveito para dizer que estou novamente a ler!! Yhea !! Jack , o Fatalista! É só rir!
Quer dizer, ó Courinha: já lá vai um ano e tal, se calhar já tens as tuas nogueiras a pontos de, mais dia menos dia, fazeres a colheita, de modo que, descontraído, “Jack o Fatalista” debaixo do braço, já podes dar-te ao luxo de comparecer aqui num sábado às 19:36, quase hora de jantar… Querias fazer-nos uma surpresa, mas isto aqui está sem movimento porque, sabes como é, o pessoal a estas horas anda ocupado, uns no pomar a ver, ao sol-posto, como estão as frutas, ou na estufa a ver como estão os legumes, outros nas Correntes de Escritas, outros, a estas horas, na cozinha, e tal – todos a abrir o apetite para a jantarada e sem ocasião para virem aqui dar uma espreitadela…
EliminarAté eu, vê lá tu, só agora, umas vinte horas depois de ti é que chego aqui à estufa a ver se há novidades e… : – Eh pá!!! Caraças!! O Courinha por cá?! É sinal que já deve ter as nozes dele prontas a roer!
Mas… ‘pér’aí… Eh pá! Ele trata-nos por «Vocês, gentes da “cultura”», e tal…
E… ‘pér’aí… Que “não há almoços grátis”, e não sei quê…
… Por falar nisso: – Ó Coisinha, o jantar já está adiantado? Ou ainda tenho tempo de mandar uma mensagem ao Courinha a convidá-lo para deixar-se de se armar em esquisito e vir até aqui petiscar e pôr a (agri)cultura em dia?
Ó Courinha, anda lá, pá, que, por ser para ti, o jantar é grátis.
Olhó Courinha, bem vindo!
EliminarAhahah!
ResponderEliminarFizeram-me rir os dois, Courinha e Jordão!
Mas eu cá não sou "gente da cultura", ó gente Extraordinária! Sou apenas uma traça literária, logo não enfio o barrete. E estou-me bem nas tintas para isso, sei do que gosto e me faz contente e isso me basta.
Sou isso sim, e porque traça, um amante do papel pois não há traças digitais... e Deus me livre de ser alguma vez um vírus!
Compreendo as duas partes em conflito (falo do Liberation)... o que é bastante complicado pois assim não consigo tomar posição. De um lado o romantismo do papel, do outro o pragmatismo da gestão, sem o qual parece que não haverá Liberation, nem em papel nem digital!
Ó inclemência, ó martírio... (sic "O Pai Tirano).
E por falar no Courinha, não serão mais as vozes que as nozes? Ou seja... é tão-tão preciso aderir ao digital? É que me parece que ainda há muita traça! E o papel serve sempre para forrar a gaiola do periquito, pôr debaixo da cama do cão ou da caixa do gato, fora pôr em cima da mesa para amanhar o peixe, colocar na entrada quando chove... portanto dá 5 a 0 ao digital!
Saudações kaluandas!
J'accuse!
ResponderEliminarDisse Sartre, e eu que não gosto de acusar prefiro recusar.