Palavras derradeiras
Quem sobressai através das palavras tem certamente a capacidade de dizer coisas bonitas e originais nos seus últimos momentos. Mas, embora fosse de esperar que os escritores coroassem o adeus à vida com frases que os tornassem ainda mais imortais, a verdade é que muitos deles foram, antes de tudo, gente com medo da morte ou perturbada pelo sofrimento. Leio algures que, por exemplo, Aldous Huxley – que já ninguém deve ler nos tempos que correm, mas foi autor de um clássico que era obrigatório para a minha geração, O Admirável Mundo Novo – pediu à mulher uma dose de LSD quando sentiu a ceifeira aproximar-se, aspirando talvez a morrer «numa boa». Voltaire, por seu turno, num acto de humor inteligente, terá dito ao padre que lhe pedia que renunciasse ao Diabo que aquela não era altura de fazer inimigos... Já Jane Austen, quando a irmã a interrogou sobre os seus últimos desejos, respondeu que o que desejava era morrer, enquanto, ao sentirem o mergulho nas trevas, Goethe pediu apenas mais luz e Emily Dickinson declarou que estava na hora de entrar em casa porque o nevoeiro se adensava. O autor de Alice no País das Maravilhas ordenou que lhe levassem dali as almofadas, pois já não iria precisar delas para nada, e Tchékov quis celebrar a partida com champanhe, que terá pedido à mulher com a dose de morfina que tomava habitualmente. O poeta romântico Byron avisou simplesmente que ia dormir... E dormiu, de facto, para todo o sempre.
as últimas palavras | plural | a última palavra | singular | a que foi dita na cara da morte, a que puxou para dentro de si o silêncio derradeiro, o sentido abissal, essa palavra que não chegou a transpor os lábios, a ter som, a morrer, que palavra terá sido ? que palavra pode um homem transportar consigo para a eternidade? LUZ, terá sido a última-primeira palavra de Goethe? e a de Novalis ? e a de Hölderlin ? … a Pessoa ?
ResponderEliminarFoi sempre uma pessoa cumpridora das suas promessas. Na hora da morte, disse: «Prometo que não voltarei.»
ResponderEliminarNão, não foi o La Palice.
ABC
Querem saber outro dia achei o máximo a voltar para casa queria a melhor visão.
ResponderEliminarÓ Cláudia sabes o que, à hora da morte, disse o Alexandre Herculano: -tirem daqui as mulheres
ResponderEliminarFernando Pessoa perguntou: -amanhã o que virá?
Penava que FPessoa tinha pedido os óculos...
Eliminar"Pensava"
EliminarOscar Wilde, que eu considero genial, disse qualquer coisa do género, antes de morrer: "Este papel de parede e eu estamos a travar uma luta de morte. Um de nós terá de partir!"
ResponderEliminarCito de cor, provavelmente a frase não é exactamente assim.
Rui Miguel Almeida
Recordando uma antiga anedota
ResponderEliminarDois soldados no meio de uma dura batalha.
Um: Se eu morrer quero que escrevam na lápide: "morreu pela pátria", e tu?
Outro: "morreu contrariado"
Boa tarde, vivos. Não perspectivem a frase do momento ou sujeitam-se a não absorver o último instante, tão importante nessa altura como o que para trás ficou.
Por acaso, outro dia li num jornal a que terá sido a última frase de um velho padre de aldeia, anónimo, que, como qualquer padre que se preze, toda a vida pregara a vida depois da morte. Não era nenhum génio da literatura (nem, pelos vistos, de coisa nenhuma), mas a frase, sem ser profunda, deixou-me um sorriso nos lábios:
ResponderEliminar"Agora, estou mesmo curioso".
Que maravilha de frase atendendo ao contexto, Cristina.
EliminarNão é a sua última frase, mas uma perspectiva muito verdadeira a de Eduardo Lourenço nas Correntes de escrita deste ano. Quando o jornalista o citou, ontem disse perante 600 pessoas "Estou à beira do abismo e olho para ele com tranquilidade”...
ResponderEliminarrespondeu
…é rebarbativa; nós dizemos isso porque não podemos dizer outra coisa é a única escapadela que nós temos, encarar realmente o abismo nos olhos, sabendo perfeitamente que é a única coisa que não podemos encarar de frente. "
E tão dentro do tempo, a elogiar Patrícia Portela, num deslumbramento.
À beira do fim. E não é velho.
Curiosas últimas palavras...
ResponderEliminarHoje morreu Paco de Lucia, ignoro o que terá dito, ou assobiado... mas deixou a sua música!
Saudações kaluandas - espero que não as últimas... que a serem, serão garantidamente contrariadas!
E se esquecermos as últimas palavras e passarmos aos actos?...
ResponderEliminarConsta que estando acamado e um segundo antes de morrer, num último ápice de energia Beethoven ergueu o punho num autêntico murro. Para quem o rodeava terá sido um murro no vazio, para muitos terá sido bem na cara da Ceifeira.
Acredito que aquele homem sempre teve problemas com a autoridade... por isso, fico-me pela segunda opção.
Não foi Mark Twain que reagiu a uma notícia sobre a sua alegada morte, escrevendo algo como: "A notícia sobre a minha morte, foi algo exagerada!"
ResponderEliminarO Português herói do Far-West, John Portuguese Philips, também foi dado como morto num dos seus confrontos com os índios sioux. Escreveu ao jornal afirmando-se vivo e de boa saúde! Este publicou um desmentido referindo a sua carta, e rematava dizendo que por ser homem de palavra era de se acreditar no que escrevia!
(in Os Portugueses no Far-West).
Ó Pacheco -palavra de português - e ainda continuo a pensar que um homem vale o que vale a palavra dele, apesar desta gentalha política (toda) que nos governa e desgoverna...
EliminarTudo gente com sorte por ainda puderem dizer qualquer palavrinha.
ResponderEliminarPois como simples mortal já tenho a coisa preparada, debaixo da língua e cozida no pijama, não vá não ter tempo para dizer qualquer coisita.
Direi como quem não quer a coisa: «Vou ali e já volto!»
Entretanto, para não apressar as coisas vou fazendo como Voltaire, procurando não fazer inimigos: é tão inútil!
Mas já agora fiquei curioso: o que dirá o Silva quando chegar a sua hora?
Possivelmente: «Ainda não é a hora, já que nunca me engano e raramente tenho dúvidas!»
Pobre do anjo que o tiver de levar: ficará com remorsos eternos e dúvidas celestiais de se ter enganado no «cliente».
E ainda terá de ouvir um choradinho da sua «encomenda» por não ter como pagar as contas. Bem como ouvir falar em que não há mais ninguém com tanto tempo de experiência política, ou não ter havido ninguém que tivesse previsto a crise com tanta antecedência:
«É que, anjo... é que além de ser professor de finanças, sou especialista em macroeconomia, em econometria, em teoria dos jogos, em mercados financeiros, em banca de investimento... E por isso não me engano ao dizer que não posso ir, porque ainda não pagaram a dívida contraída comigo...»
«Veja lá a minha mulher...!»
«Deixe lá a sua mulher que ela ainda fica! E ainda agora acabei de levar seis ou sete velhinhos com pouco mais de duzentos euros!», responderá pela certa o anjo já lhe conhecendo a fama.
Ah, pois é... é tão inútil fazer inimigos e tão útil fazê-los!
Entretanto, Extraordinários, vou ali e já volto e ainda hei-de trazer a facturinha para me habilitar ao carrinho! Vá-se lá saber se um dia ainda não me sai o Mercedes 600 Sedan da Presidência da República!
A última palavra de Ricardo Reis, segundo Saramago: Vamos.
ResponderEliminar[E esse livro, para que é, Apesar do tempo que tive, não cheguei a acabar de lê-lo, Não irá ter tempo, Terei o tempo todo, Engana-se, a leitura é a primeira virtude que se perde, lembra-se. Ricardo Reis abriu o livro, viu uns sinais incompreensíveis, uns riscos pretos, uma página suja, Já me custa ler, disse, mas mesmo assim vou levá-lo, Para quê, Deixo o mundo aliviado de um enigma. Saíram de casa, Fernando Pessoa ainda observou, Você não trouxe chapéu, Melhor do que eu sabe que não se usa lá. Estavam no passeio do jardim, olhavam as luzes pálidas do rio, a sombra ameaçadora dos montes. Então vamos, disse Fernando Pessoa, Vamos, disse Ricardo Reis.]
"O ANO DA MORTE DE RICARDO REIS" que livro! um monumento à literatura!
EliminarConcordo.
Eliminar"Deve ser engano, estava tão bem ..."
ResponderEliminarou
"Fuiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii"
Aproveitar o tema para apresentar o sed5contra.blogspot.pt, um sítio onde se reúnem textos de vários géneros. Entre as várias categorias, há uma que reúne, precisamente, últimas palavras famosas. A primeira, e única até agora, é a do major-general John Sedwick, momentos antes de ser atingido por franco-atiradores, a 9 de Maio de 1864, na batalha de Spotsylvania: "a esta distância, eles não acertariam num elefante".
ResponderEliminarhttp://sed5contra.blogspot.pt/search/label/Ave%20Atque%20Vale