Livro sem Ninguém

Acabo de publicar um dos romances finalistas do Prémio LeYa de 2012 (o autor quis revê-lo), intitulado Livro sem Ninguém, que é um projecto altamente original, uma vez que conta uma história abdicando das personagens. Como? Pois bem: na rua do arco-celeste há sete casas, cada uma de sua cor; e também um café, uma horta, um jardim, uma florista, uma sucata e uma escola. Mas, embora lá vivam pessoas, esta história é contada apenas pelas coisas que lhes pertencem à medida que vão mudando de lugar, e por isso o livro é sem ninguém. Ainda assim, durante este ano extraordinário, acontece de tudo na rua: há quem se apaixone e quem se separe, quem nasça, quem morra, quem mate e até quem, depois do trauma, comece uma vida nova. Há bengalas (e, portanto, há velhos), há fraldas e bicicletas com rodinhas (e, portanto, há crianças) e, de vez em quando, há até um skate parado num pátio (e, portanto, há jovens também). Mas, como em todas as ruas, havemos de encontrar nesta preconceitos, dúvidas, alegrias, segredos e desgostos (quando o violino cigano se ouve ao longe, chora uma terrível injustiça e, quando a bengala se parte contra o muro, é certamente a raiva que a move). Enquanto isso, o tempo vai passando sem darmos por ele, mas a montra da florista e o que se colhe ou semeia na horta nunca nos deixam afastar do mês em que estamos. Pedro Guilherme-Moreira usa o microcosmos da rua para desenhar o retrato da sociedade contemporânea e abordar questões tão polémicas como a xenofobia, a violência doméstica, a repressão sexual ou o envelhecimento. E – o que é um milagre – sem precisar de ninguém.


 


Comentários

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    1. Adorei o primeiro livro do autor, por isso já mandei vir o meu exemplar.
      Finalista ou não, premiado ou não, estou certo que será bom.

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    2. Também gostei muito do "A manhã do mundo". E vou comprar o novo, também. A história parece-me deveras interessante.

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  2. Ahahah! Boa essa ó Extraordinário Anónimo...

    Faz-me lembrar aquele sujeito que no manicómio andava há anos a escrever um livro... quando o deu por terminado, foi apresentá-lo aos médicos:

    E apresentou:
    "A Grande Cavalgada", por Eugénio de Matos
    Começou a desfolhar páginas dizendo sempre:
    Cataclop- cataclop - cataclop... até que exclamou:
    Aí-ôôô!
    Fim...

    Também podia vir a despertar o interesse do júri do prémio Leya?

    Ahahah!

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    1. Julgo que as coisas têm mesmo o seu mundo; se distendem com a noite e relaxam dos olhos das pessoas e da claridade; que nos esperam no lugar circunscritas e doces ou intrusivas e beligerantes. E que o mundo visto por aquele óculo há-de ser engraçado. Portanto. Talvez compre.

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    2. ... O inorgânico às vezes compensa... é a história do "Rei Vai Nu". Abraço amigo.

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    3. ... O inorgânico às vezes compensa... é a história do "Rei Vai Nu". Abraço amigo

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    4. grande Pacheco!

      estava a pensar em algo parecido. :))

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  3. Agora há muitas ideias que se disfarçam de boas sendo parvas, mas a ideia para o livro que hoje a MRP nos apresenta parece muito boa. Gostei, há muitos anos, de uma obra em que uma casa contava a sua história (o autor era americano mas não me lembro do seu nome).
    Não gostei particularmente da obra premiada em 2012 mas desconfio que, como noutros anos, vou achar melhores as obras dos finalistas vencidos.

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  4. O Autor do livro ora trazido pela Maria do Rosário apenas deixou de "dar nome aos bois". Mas eles estão lá, parece-me. Se há paixões, amores, abusos, preconceito e tal e tal, parece-me que isso só acontece entre seres humanos. Nunca vi um caso de amor entre um armário e uma mesinha de cabeceira nem, tão pouco, uma cadeira andar de bengala porque está com a perna "lixada".

    Estão lá todos. Bois sem nome e sem identidade. Mas estão.

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  5. Sem precisar de ninguém? Isso é mau! Muito mau...

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  6. | cada coisa nos d\'escreve em si |

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  7. Um livro sem ninguém...

    Lembrei-me logo do filme sem imagens "BRANCA DE NEVE" do realizador João César Monteiro.

    E do Marcel Duchamp , que estabeleceu que uma sanita também era uma obra de arte se assim o decidia o artista...

    Do magnata que pagou doze milhões e meio de euros por um tubarão preservado em formol num recipiente de vidro e que o autor, Daniel Itirst , seja hoje reverenciado não como o extraordinário vendedor de embustes que é, mas sim como um grande artista do nosso tempo.

    Já para não falar dos expressivos quadros do Miró... (perdoe-se-me a minha ignorância)...

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    1. Mas atenção que o João J. A. Madeira não deixa de ter razão- é preciso ler o livro para se poder opinar, pero que las hay hay...

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  8. Não aplaudo, nunca, os anónimos - longe disso - mas hoje parece-me estarem (serão vários ou um só?) de parabéns. Intervenções tão pertinentes que mereciam sair do anonimato.

    Porém, não queria deixar de dar uma palavra ao Pedro Guilherme-Moreira: apesar da descrição feita pela anfitriã, nenhum de nós conseguirá ser justo nos comentários sem ler o livro. Para isso já bastam os editores que rejeitam uma obra por apenas lerem o nome do autor.

    Acredito que o livro seja agradável de seguir, a sinopse - malditas sinopses que abreviam o que tanto trabalho deu - é que dificilmente resulta. Para além de deixar a pergunta: e a seguir?, dá-se sequência ao estilo e ao tema? Não se esgota ao nascer? Acredito que não, Pedro. Venceu esta guerra, toca a vencer a batalha.

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    1. Obviamente troquei as mãos na última frase.

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  9. Fiquei curioso e interessado.
    Assim de repente, lembrei-me de um romance de Joaquim Paço d'Arcos: "Memórias duma nota de banco". Talvez seja uma associação sem fundamento.

    António Breda Carvalho

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  10. Brincadeiras à parte, fiquei curioso com a proposta da nossa Extraordinária Anfitriã, se bem que depois de ter lido "O teu rosto..." a minha opinião em relação ao citado prémio tenha ficado algo um tanto ou quanto abalada, e me pergunto se o que vai ao júri é seleccionado de forma honesta ou é ditado por uma equipa de gestão que tenha por base outras razões que não de letras mas de cariz economicista e propagandista... o que desconfio!

    Porém como este não foi vencedor e sim finalista, pode ser que...

    Quanto aos anónimos... se a dona da casa os admite, é porque ela lá sabe, e não tenho problema nenhum em falar com eles desde que não se escondam atrás desse anonimato para estragarem o ambiente. Suponho que terão para isso boas razões...

    Saudações kaluandas

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    1. Curioso que também não achei grande piada a "O Teu Rosto Será o Último". Não consigo entender o encanto.

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    2. encontrei que "O teu rosto será o último" está bastante bem para um primeiro romance. A forma como a narração se desenvolve pareceu-me até assaz original. Por que razão não gostou? - ouso perguntar (e só responde se queira, há gostos que não são de discutir)

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    3. Caríssima Beatriz, quanto à nossa Extraordinária, não sei... mas pela minha parte, não gostei de "o Teu rosto..." por diversas razões:

      1º Insere-se num género literário muito em voga e actual, mas que não me diz nada e desagrada pois é tudo ao contrário daquilo que aprecio:
      - Suburbano (urbano-depressivo lhe chamam alguns), negro, depressivo e deprimente, pessimista, com uma carga psicológica excessiva que dá corpo às frustrações pessoais ou colectivas, que parecem ser mais um exercício de exorcismo dos fantasmas ou do passado do autor ou pela sua percepção e forma como se insere no que o rodeia.
      É um livro-pesadelo ou uma alucinação.

      2º A forma como se desenvolve a narração, também não gosto, pois não é fluida. Para mim não é... anda para trás e para a frente, como se os textos fossem escritos em separado e depois juntos...

      3º Os personagens, são doentios, clichés de banda desenhada suburbana dos anos 70, de que também não gosto.

      4º Não gosto do estilo, é assim "a despachar", seca, sem floreados e nenhum sal e pimenta.

      Claro que pode rebater cada um destes pontos...
      Mas como muito bem diz, são gostos, e se calhar os meus estão errados ou são os de uma traça inculta e incapaz de perceber a elevação deste romance premiado.

      Uma comparação que talvez ajude a perceber-me: "O rasto do jaguar" foi dos melhores livros que já li! Devia ter recebido uns 7 prémios Leya... por comparação com este que valeu 1...

      Saudações kaluandas

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    4. Ó extraordinário Pacheco, também gostei imenso do "O Rasto do Jaguar", é excelente.

      Não desgostei do "O teu rosto será o último" e, na minha modesta opinião, para primeiro livro parece-me bom, já não sei se "O rosto do jaguar" seria o primeiro do autor e se este reuniria as condições para se candidatar ao mesmo prémio?

      Contudo, a atribuição dum prémio deste género será sempre discutível porque subjectivo...será alguma vez possível ler todos os livros que poderão ter potencial para ganhar o prémio? logo...

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    5. Ó Extraordinário Severino... nisso tens razão, o Murillo de Carvalho é um jornalista experiente e com obra publicada!
      Achei o Jaguar, excelente, dos melhores livros que já li, daqueles em que nos tornamos parte da acção e companheiros dos personagens, que acabamos com pena e nos deixam saudades.

      Um abraço

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    6. Não li "O rasto do Jaguar".
      Mas entendi as razões porque não gosta de "O teu rosto será o último".

      São quase na totalidade as mesmas por que eu o aprecio:))

      Ainda bem que existem leitores para os vários tipos de escrita.

      E muito obrigada pela resposta

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    7. Pois...a mim também me deixou a seco de emoções. E o prémio, enfim, é aquilo que deles se sabe.

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  11. quando estiver disponível [podcast] sugiro a audição do programa de Luis Caetano | Antena 2 | mesa redonda com editores, no âmbito das Correntes

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    1. também sugiro:) quer escritores, quer editores valem a pena

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  12. Bem, se o livro citado é desabitado, resta-nos o consolo de não estarmos sós neste blog.

    Assim sendo, e sem querer explorar a sabedoria de quem aqui "vive", poderá alguém explicar-me o motivo da existência daquele hífenzeco entre os nomes Guilherme e Moreira?

    Sinceros agradecimentos.

    (Há coisas que me intrigam, muito mais do que um livro sem ningém).

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  13. Eu consigo explicar o "tracinho", caro Anónimo a 24 de Fevereiro de 2014 às 17:59 :). Está aí o meu mail, terei todo o gosto em recebê-lo nessa arroba ou em qualquer lançamento, de corpo inteiro, olhos nos olhos, e em responder a todas as perguntas e dúvidas, ou apenas ouvi-lo. Ouvi-los. Aproveito para agradecer aos leitores deste blogue o tempo dedicado à literatura. Hoje. Amanhã. Sempre. Quando que cá volto, encontro a boa gente de sempre. E o "Livro sem ninguém" que se defenda sozinho, que já é crescidinho:). Posso dizer, antes de me despedir, que é transpiração e sangue, não moda. Humildade e paixão pelos que me ensinaram e ensinam os grandes, nenhuma certeza. Uma proposta de regresso à leitura de todas as nossas ruas e prédios como realmente a fazemos, as mais das vezes, em silêncio e sem perguntas: pelas coisas. As coisas em si ou as coisas dos outros. Abraço a todos. PG tracinho M :)

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    1. O vento gélido soprava e ia virando as folhas do livro-cidade, onde já ninguém morava. Fizeram-se vazias as vielas, ruas e avenidas e, quando a noite vier, provavelmente haverá escuridão total. A não ser que ainda ardam as velas no altar da Sé que, na pressa da fuga, o sacristão esqueceu de apagar. Debandaram todos, como aves migratórias, porque se cansaram da subserviência, das traições, dos conluios, dos amores que morriam ao virar de cada página. Não sabiam o porquê de tanta desesperança; faltavam-lhes a coragem e a ousadia para a luta, para o dizer não a tanta manipulação. Queriam ter vida própria e ser donos dos seus passos, traçar seus caminhos, ainda que errados e tenebrosos. Na esplanada do café perto da praia, a latinha de coca-cola resistia ao vento e equilibrava-se bravamente sobre a mesa. Páginas adiante talvez se deixasse levar. Lutar cansa, resistir, também. Em algumas janelas deixadas abertas, os cortinados dançavam ao vento, em movimentos desesperados, como se pedissem liberdade para também poderem partir. O livro-cidade estava deserto e o vento continuava a uivar por entre as suas folhas e esquinas, onde já não havia perigos nem sobressaltos. Embora tinham ido os rufias, os mendigos e as prostitutas. Os ladrões e os políticos. Os homens de bem e as crianças com seus bichinhos de estimação. Estranhamente, agora havia paz. Não havia vida, nem morte. No último parágrafo, muito perto da palavra Fim, o homem levantou-se e caminhou, arrependido do que não havia escrito. Não poderia ter sido ele mais benévolo em suas letras, mais tolerante? Se sim, lá estariam todos, com suas dores, alegrias, sofrimentos, dúvidas, fracassos, sonhos e esperanças. Não tinha lágrimas nos olhos mas carregava o fardo do arrependimento. Quase à saída, ali entre o M e o ponto final, apareci-lhe à frente e perguntei-lhe se podia entrar. "Neste livro ninguém entra. Só sai. Não viu, que de tanto os manipular, eles se rebelaram e fugiram? Tive sorte de me pouparam a vida".
      - Afinal, quem é você?
      - Sou o homem do tracinho, o dono disto, o manipulador de vidas fictícias.
      - Oh! Pena que cheguei tarde demais. A minha vida real anda tão cansativa ....



      :):):)

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  14. O que é preciso é inovar, mesmo se à custa de ideias antiquíssimas... Na literatura como na Natureza nada se cria, tudo se...

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    1. Sempre perspicaz e assertiva... :)

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    2. Clarificação: a «ideia antiquíssima» é a de serem as coisas personificadas a contarem as histórias. Afinal, neste caso, não há personificação.

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  15. Pedro Guilherme-Moreira24 de fevereiro de 2014 às 15:11

    Muito, muito bonito, Anónimo das 22:22h :)

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    1. Também gostei!
      Da sua réplica, e deste texto final!

      Abraço a ambos!

      PS - É o que eu digo... os anónimos de categoria, são Extraordinários... nunca sabemos quem são!

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    2. Obrigado, António. Normalmente os anónimos deste blogue são mesmo extraordinários. As minhas desculpas por tréplica tão tardia, já que não sou notificado das respostas. Calhou cruzar-me com ela agora. Abraço a todos.

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