Fábrica de sonhos

Disseram-me que os televisores vão ter muito rapidamente ecrãs tácteis, como os dos telemóveis e dos iPad, nos quais as crianças tocarão para mudar de canal, aproximar a imagem ou ajustar o volume do som. Não me pareceu nada do outro mundo, se, na verdade, os pimpolhos dominam a técnica na perfeição (basta vê-los operar os telemóveis dos pais quando estes se distraem por instantes). Não estava, porém, à espera da notícia bombástica de que a Walt Disney – quem mais? – se prepara para, por meio de impulsos eléctricos transformados em microvibrações, oferecer aos telespectadores uma outra função, que é a de, ao passarem os dedos no ecrã, sentirem a textura do objecto ali mostrado. Mas parece que a tecnologia já foi testada e funciona mesmo. Já vejo a criançada a fazer festinhas a televisivos cães peludos (mesmo que eles não abanem a cauda em sinal de reconhecimento) e as meninas a experimentarem a suavidade da seda e dos tules das princesas dos desenhos animados; e – porque não? – as donas de casa a enterrarem os dedos naqueles turcos muito fofos que entram sempre nos anúncios a detergentes de máquina de lavar. Quiçá os adolescentes solitários se atreverão então a tactear o corpo de uma actriz famosa para depois contarem aos amigos que beliscaram a nádega da estrela... Enfim, com livros a cheirarem a chocolate e televisores macios como alcatifas, não sei que mais podemos esperar.

Comentários

  1. Humm, não estou a ver um adulto cansado a sair do conforto do sofá para tactear o que quer que seja...
    Agora para as crianças vai ser o paraíso.
    Brave new world!
    Antonieta

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  2. E num programa sobre gastronomia poderá apreciar-se a textura de um leitão assado, de um peixe acabadinho de pescar. Na mente de muita gente, erradicar-se-á de vez a fome e só as barrigas por saciar (cada vez mais), não acreditarão.

    Mas cuidado que as imagens mudam a grande velocidade e a pele sedosa de um corpo de mulher, poderá subitamente serem sebosas tripas num filme de terror.

    Em termos literários, adeus ficção científica. Quando a realidade ultrapassa a imaginação, resta-nos muito pouco.

    Por isso, por mim, eu meteria essas invenções no...ecrã de televisão.

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  3. nas instalações eléctricas e electrónicas [no cérebro humano] há um filamento que acompanha o ímpeto positivo e o ímpeto negativo | para ligar à terra | cuja utilidade se desvaloriza por possuir qualidade neutra . mas tal filamento tem por objectivo realizar o contato entre o circuito e o solo, com a menor IMPEDÂNCIA possível . nada a opor a novas e tentadoras oportunidades sensoriais, possam os cientistas garantir que o climax e a electrocução são coisas bem distintas | nada a OBJECTAR

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    1. Claudia da Silva Tomazi27 de fevereiro de 2014 às 04:08

      Nova Lisboa




      Oh' vida de vida beleza nua
      quiseeste comparar-te a lua
      teu crescente apogeu encerra
      amo-te doce e favorável terra.


      Que a igualdade de teu dia
      em quisera o quê nem temia
      vai assenta teu verbo a carne
      sem correria, reajuste ou alarme.


      Transformar-se-á vossa cheia
      donde claro por noturno
      esvazia-se noutro momento?


      sois voz, lida e talento
      eis minguaste mira lá turno
      passeia garbosa nem peia.

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    2. Nova Tomazi

      Sóis fechado termo
      Quedo e mudo
      Fachada com graça
      Abstracta passagem
      De Extraordinária Hora...
      Extra.
      Crioulagem de mente
      Tão diferente
      Da imprudente
      Imatura criadagem
      Do lugar de roupagem
      Que é um lugar
      De pecado,
      Seguro.

      Sóis a genial
      To Mazi,
      Cláudia para os
      Des Conhecidos,
      Doce e madura romã
      De subtil pomar
      De saboroso
      Guloso
      Verdíssimo fruto.

      Sóis de Lisboa
      Bairro da Bem Boa
      Finíssima fabricadora
      Da experimental
      Poesia,
      E na desordem talhada,
      Da floral re mixagem
      Da palavra radical

      E do seu amulatado
      Adro,
      Lugar virtual
      Sem pecado
      Virtuoso,
      Onde o sentido
      Do nocturno,
      Toma a vida,
      Sem pudor,
      Do lugar
      Do diurno

      Grande e garbosa
      Tomazi.

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    3. Claudia da Silva Tomazi27 de fevereiro de 2014 às 06:19

      História ia a cavalo.

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    4. Esperemos sem o freio nos dentes! ;)

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    5. Claudia da Silva Tomazi27 de fevereiro de 2014 às 08:22

      almeida .

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    1. Muito bom... digo eu, que também nada pesco disto de poesia, talvez ao contrário da Cláudia que também pesca, mas mais de poesia?

      Saudações kaluandas!

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    2. Claudia da Silva Tomazi27 de fevereiro de 2014 às 06:21

      Seriam pássaros a por espinhas fora...

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    3. Aos peixes eu arpôo...
      E, aos pássaros abato...
      E como ambos!
      Sem penas e sem espinhas,

      Fica o mote, quem sabe! Eheheh!

      Ai... agora é que vou levar das boas por ter dito tal... mas a culpa foi da Cláudia!

      Saudações deste lado do mar, Cláudia.

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  5. A meu ver tudo isso é assustador! Estamos a caminhar para um mundo virtual, quando o mundo palpável é tão bonito. Vamos perder muito, embora à primeira vista possa parecer que estamos a ganhar!

    Cláudia

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  6. Talvez a ideia seja pôr toda a gente a fazer exercício físico. Em vez de esparramados no sofá agarrados ao comando, vejo-os a correr para o ecrã, novos e velhos, gordos e magros... Cá para mim, quem menos o apalpa são as donas de casa!

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  7. parece que estão mesmo a querer roubar-nos a realidade...

    vou ver se consigo permanecer em fuga "nesse mundo"...

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  8. Tem graça que ainda ontem me perguntaram o que significava « ecranizado »... Ora aí está: mais um sentido que não precisará do contacto direto com a realidade...

    Quem tem um ecrã tem tudo!

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  9. Claudia da Silva Tomazi27 de fevereiro de 2014 às 05:07

    Até em açougue já trabalhei.

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    1. O tema do dia é “Fábrica de Sonhos”.

      Pois bem: Cláudia fabrica-os, porém recomenda-nos:
      « (...)
      vai, assenta teu verbo a carne
      sem correria, reajuste ou alarme.
      (...) »
      (in “Nova Lisboa”, hoje).

      De um outro seu poema, creio que de 2012, destaco, que vem a-propósito:
      « (...)
      Ah, como é colorida
      e destemida
      a arte-íris
      (...) »

      Assentando, pois, no açougue o verbo à carne:
      – sem correria, reajuste ou alarme, fabriquemos os nossos sonhos na colorida e destemida arte-íris.

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  10. Hum jogos florais aparte... não acredito lá muito nessa possiblidade táctil do ecrã.

    Não mesmo... tanto quanto não acredito no teletransporte.

    Vejam tv com o gato ao colo! No Inverno, sobretudo, é muito agradável.

    Saudações kaluandas!

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  11. Esperemos que as coisas no seu tradicional, a realidade exterior tal como se nos mostra e a reconhecemos, se não lembre de emigrar. Que isso sim, era desgraça.

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  12. Já nada me surpreende nem a (triste) confidência do jogador de futebol da Selecção de Portugal, João Moutinho, hoje no jornal Record : só li um livro até ao fim - o do Lance Armstrong ...

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  13. A propósito de jogadores de futebol/gosto pelos livros: registei com muito agrado o gosto que Ronaldo (Fenómeno) brasileiro tem pelos ditos. Conhecem mais algum?

    Desculpem-me desviar-me do tema mas até fico com ânsias depois de saber destes analfabetos que ganham milhões aos pontapés...e o Povo a passar necessidades...ó mundo injusto não tens remédio.

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    1. Sim, Extraordinário ASeverino, não esqueçamos o ex-jogador Pep Guardiola, que sempre era visto a ler, nos estágios, no balneário, (sempre que tinha um tempinho livre), o que lhe valeu a alcunha de "filósofo" dada pelos seus pares :)
      Cumprimentos
      Ana Peixoto

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    2. Então, pela sua lógica , se esses que ganham milhões aos pontapés, não fossem analfabetos e fossem tão «instruídos» como o Severino, nesse caso, os milhões já não tinham importância. O que me parece é que é tudo dor de cotovelo.

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    3. Ó extraordinário M Santos não é nada disso, o que me chateia é que o pessoal não leia...sou um inimigo feroz da ignorância. E olha que não sou tão instruído como se calhar eu me faço parecer, aliás por cada dia que passa mais me sinto ignorante por isso a combato dia a dia (a ignorância).

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  14. “o peixe solúvel” |não é| apercepção e antilogismo | é | o peixe solúvel

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  15. São fábricas de sonhos. Sonhos que nunca se realizarão. As carnes durinhas de Marilyn Monroe já lá não estão, mesmo que o dedo por elas passe, subtil ou brutalmente.

    Fábrica de sonhos tenho eu. Todos fresquinhos, ainda estão quentes, acabadinhos de fazer.
    Estão servidos?

    Sonhar vale sempre a pena. Vale muito mais a pena não perdermos a esperança de que o nosso sonho se realize, seja nosso, inteirinho, sem as barreiras dos vidros frios dos ecrãs.


    Muito boa noite a todos e sonhos extraordinários.

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  16. Não sei se quero tanta tecnologia. Não sei se quero tocar em coisas com que posso, porventura, sonhar ou que posso imaginar.

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