Lutos em vida

Digamos que A Caixa Negra, de Amos Oz, não será exactamente o livro mais indicado para as férias – se nas férias devemos ler coisas diferentes das que lemos o resto do ano, claro, de preferência menos deprimentes (mas as deprimentes, bem sei, às vezes são as melhores); é, no entanto, um livro que, a partir de cartas e outros materiais escritos (notas para um ensaio, telegramas, etc.), faz uma radiografia à relação de um casal divorciado (Ilana e Alec) e, por extensão, também ao conflito israelo-palestiniano. Notável na forma como nos revela no decurso da história quem são, efectivamente, as personagens (por exemplo, o bonzinho actual marido de Ilana, que é, afinal, um bom ladrão e um bom fanático) e no modo como um advogado judeu alemão tão depressa nos parece apenas um oportunista como o melhor amigo do seu cliente, este romance epistolar é também uma lição sobre o poder da argumentação, o luto impossível de certos relacionamentos, o medo e a coragem para seguir em frente. Mas é um livro triste e escuro (o último terço é belíssimo), tal como a caixa negra de um avião, que nos mostra o que estava podre e conduziu ao desastre.

Comentários

  1. Já o li há tanto, tanto tempo... acho que ainda antes de fazer 20 anos, era dos meus pais. Tenho de o reler.

    ResponderEliminar
  2. "o bonzinho actual marido de Ilana, que é, afinal, um bom ladrão e um bom fanático"

    Deus nos livre dos "bonzinhos"! Tive uma professora primária com o epíteto de "boazinha". Nem vos conto...

    Eduardo Sá:
    «Basicamente, quem não diz não torna-se bonzinho. E os bonzinhos são os grandes inimigos dos bondosos».

    José Rentes de Carvalho:
    «Finalmente sou como deveria ter sido desde menino, deixei de ser "bonzinho"».

    ResponderEliminar
  3. Mas ser-se bom não terá obrigatoriamente de se ser sacana; penso eu.

    Já agora permita-me: na minha modesta opinião também eu penso que não haverá livros indicados para férias, nem teremos de, nas férias, ler coisas diferentes das que lemos o resto do ano, ao contrário do que dizem de alguns sábios que escrevem nos jornais e dão ao fole da pulmadura na rádio (como diria Vergílio Ferreira).

    É que cada vez mais gosto dos livros que me dão cabo da cabeça, daqueles que me põem a caixa dos piriloitos a fazer bolhinhas (Philip Roth, Corman McCarthy, Kafka e outros que ainda não descobri porque ,nisto das leituras, ainda me considero, sinceramente, um aprendiz), repare-se que não falo nos chatos e compridos como os Damásios, Dan Brown's etc etc

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Caro Severino, há uma grande diferença entre ser-se "bom" e ser-se "bonzinho". O diminutivo, aqui, é muito traiçoeiro...

      Eliminar
    2. P.S. Repare na diferença, por exemplo, entre dizer:
      "este livro é bom", ou
      "este livro é bonzinho"
      Coitadinho.
      ;)

      Eliminar
    3. É verdade, Cristina é já viu como o "nosso" primeiro ministro é bonzinho, o desgraçadinho só pensa é empobrecer a gente. Coitadinho!O homem deve sonhar em fazer-nos desgraçadinhos...mas será que ninguém corre com este meninos incompetentes...e o desgraçadinho de Belém...moita carrasco, então ele não vê que a reforma dele está a mingar...
      Tirem-me desta cena!
      Desculpem-me o desabafo mas tou farto destes meninos jotas/Relvas e outros que tais; mais uma cambada de incompetentes a juntar a toda a cáfila que nos tem governado...

      Eliminar
  4. É um bom livro.
    É um romance com uma estrutura interessante e com uma belíssima capa.

    Vale o tempo dispensado.

    Se a Maria do Rosário Pedreira não se importar, deixo aqui o meu texto publicado no Diário Digital
    Se se importar...apague, se faz favor. :D
    Cumprimentos a todos
    Mário

    http:/ oplanetalivro.blogspot.pt /2012/02 caixa-negra-de-amos-oz.html

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Já tinha lido a sua crítica e gostei muito. E já li uma boa parte dos livros sobre os quais escreve. E os que não li, aguardam vez. É engraçado: partilho dos seus gostos literários.

      Eliminar
    2. Obrigado, Ana.
      Tenho tido a sorte de ser bem aconselhado. É muito importante saber escolher quem nos influencia.
      Quanto aos meus textos...fico muito feliz. :D
      É difícil ter um feedback e quando o temos é excelente.
      Muito obrigado

      Cá estaremos neste blogue para ouvir as opiniões uns dos outros. É uma boa comunidade de leitura.
      M

      Eliminar
  5. Adorei esse livro! É triste, escuro, urbano-depressivo , como diria o nosso Amigo António Luís Pacheco. Mas sublime na descrição dos estertores de uma relação amorosa. Na sua desintegração. E o título está muito bem conseguido. Li-o há poucos meses e fiquei rendida. Do mesmo autor, já tenho outros dois na lista de espera: A Terceira Condição" e "Uma História De Amor E Trevas". Mas não sei quando os vou ler: falta-me tempo para ler todos os livros que quero.
    Sem dúvida, foi um dos melhores livros que li este ano. Corrigindo: um dos livros que mais gostei de ler este ano. É que são conceitos diferentes...:)

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Cara Ana b,
      Por falar em estertores de uma relação amorosa, li recentemente algo muito, muito bom sobre esse tema: "A Ilha de Caribou " de David Vann (e não é urbano-depressivo ... - decorre numa ilha inóspita e recôndita do Alasca - apenas triste e escuro, gélido e cortante como a natureza em torno dos protagonistas...).
      E aproveito a oportunidade para lhe agradecer a referência entusiástica (algures antes da interrupção deste blog para férias) aos livros de Philippe Claudel . Estou a ler o "Relatório de Brodeck " :)
      Cristina

      Eliminar
    2. Cara Cristina, já tenho "A Ilha de Caribou " mas ainda não o li. Do mesmo autor li um livro, também passado numa ilha, intitulado " A Ilha de Sukkwan " que é belíssimo! Embora muito triste e angustiante. Depressivo, como eu gosto...:) E , por acaso - ou não- também retrata os estertores de um relação mas, desta vez, entre pai e filho. É muito, muito bom! Provavelmente esse que falou será o próximo a pegar: do que já espreitei pareceu-me excelente. Nem imagina a angústia que é ter que escolher o próximo livro...já não sei como me orientar, com tantos lazeres urgentes em fila.
      Fico feliz por saber que o meu entusiasmo pelo Phillipe Claudel a contagiou: adoro esse escritor. É um dos meus preferidos, sem dúvida. Ainda bem que está a gostar.

      Eliminar
    3. Ana,
      Leia o último de David Vann . É um grande livro. Não se arrepende.
      Abraço
      M

      Eliminar
    4. Fica a promessa!:)
      Abraço

      Eliminar
    5. Ana, concordo como o nosso amigo Rufino:) De seguida, eleja o último do David Vann: não se vai arrepender. Também li a "Ilha de Sukkwan" em primeiro lugar e é excelente - absolutamente extraordinário - ! Estou a gostar muítissimo do "O Relatório de Brodeck": a escrita do Claudel é-me particularmente apelativa, tem ao mesmo tempo profundidade e leveza, e uma grande beleza. A construção da narrativa (ainda vou no princípio) deixa adivinhar algumas surpresas...
      Até logo,
      Cristina

      Eliminar
    6. Já está prometido!
      Até logo, então.:)

      Eliminar
  6. Cláudia da Silva Tomazi24 de setembro de 2012 às 07:26

    Desconheço lutos em vida.

    "E, eu o amei de quando menino através das palavras".

    ResponderEliminar

Enviar um comentário

Mensagens populares deste blogue

Em Berlim

O que ando a ler

O principal e o acessório