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Versátil

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É mesmo assim que se chama, Versátil, um festival cultural que acompanha a Feira do Livro de Leiria entre amanhã e 8 de Novembro. Com curadoria de Isabel Lucas e Nuno Artur Silva, convida cerca de 40 escritores para reflectirem sobre «O Comum», partindo do que une as comunidades e do que liga a literatura ao quotidiano. José Luís Peixoto, Patrícia Portela, Paulo Moreiras, Anabela Mota Ribeiro, Rui Zink e Gonçalo Tavares são alguns dos nomes que vão participar nas conversas que contribuirão decerto para cimentar a candidatura de Leiria a Capital Portuguesa da Cultura já no próximo ano. Os encontros nas escolas e as sessões em torno da literatura infantil serão de novo centrais na programação, pois é de pequenino que se torce o pepino, já dizia a minha avó, e é verdade. Nesse âmbito, estarão presentes, entre outros, Catarina Sobral, António Mota e Maria Inês Almeida. Haverá ainda música com Sérgio Godinho e Júlio Resende e um espectáculo de poesia, com Luísa Cruz, Nicolau Santos e Manuel Lourenço. Viva a versatilidade!

 


 

3 de Maio

Quando todos os jornais falavam da proeza que é Hoje, 3 de Maio de Patrícia Portela, o seu romance anterior, Manual para Andar Espantada por Existir, ganhou o Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores. Patrícia Portela está também ligada ao teatro e é autora de performances, tendo sido directora artística do Teatro Viriato, em Viseu, e trabalhado no estrangeiro, onde estudou cenografia e cinema. Os seus livros são, por isso, se assim pudermos dizer, bastante "encenados" e Hoje, 3 de Maio não é excepção. A autora esteve em residência artística em Madrid e tudo leva a crer que tenha passado horas no Museu do Prado diante de Fuzilamentos de 3 de Maio de 1808, a pintura de Goya que inspira este romance e que serve para que entendamos que hoje, que não é 3 de Maio, nem 1808, continuam infelizmente a existir guerras, mortos e assassinos, e que vermos a guerra de longe é como olharmos para este quadro impressionante. O romance, que vai sendo intercalado por pormenores da magistral pintura, fala justamente de quem fuzila e de quem é fuzilado, criando vidas para os que a perdem diante das espingarda e vidas também para quem, contra a sua vontade ou não, dispara sobre inocentes. A autora sugere leituras várias, mas confesso que li o romance de fio a pavio e que só quando tiver uma aberta experimentarei outra ordem. Esta é uma obra de grande originalidade e imaginação que, claro, promete voltar a ser um sério candidato ao prémio já ganho por Patrícia Portela.

Literatura e cinema

Recebo regularmente do estrangeiro propostas de publicação, algumas delas de romances cujos direitos para cinema foram comprados por uma produtora e acabarão por dar origem a um filme; se o realizador já for referido, e se tratar de um desses bem badalados ou premiados, é certo e sabido que isso aumenta o interesse dos editores em traduzir a obra e, se possível, em fazer coincidir o lançamento do livro em Portugal com a saída do filme. O mais certo é esse filme não ser tão bom como o livro, bem sei, mas o cinema hoje defronta desafios incríveis, e os cineastas nunca tiveram tantos recursos para fazerem filmes maravilhosos, mesmo que muitas vezes o guião fique aquém. Por outro lado, parece que muita gente deixou de ir ao cinema, preferindo ver séries de televisão ou esperar que as grandes produções cheguem ao pequeno ecrã que têm em casa. De tudo isto e muito mais vai falar o jornalista Mário Augusto amanhã às 18h30 no El Corte Inglés, contando da importância que a sétima arte teve para o público no século XX e explicando as mudanças e a evolução que tem sofrido no presente. Será que o cinema tem condições de continuar a ser a forma mais atraente e criativa de contar histórias? Ele o dirá.

Na cozinha

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Entre o final do século XIX e o primeiro programa de culinária na televisão nacional (1958), dezenas de mulheres portuguesas – muitas desconhecidas, algumas celebrizadas, outras escondidas atrás de pseudónimos – publicaram livros de culinária que moldaram a economia doméstica, os saberes alimentares e a identidade gastronómica do País. O Lugar da Mulher É na Cozinha? – As Primeiras Autoras Portuguesas de Livros de Culinária (1894-1967) reconstrói, pela primeira vez, a história integrada dessas autoras e dos seus livros, analisando um corpus cronologicamente contínuo, desde os primeiros manuais domésticos escritos por mulheres até à transição para a modernidade alimentar. Com prefácio de Inês Meneses e aturada investigação histórica, incluindo imprensa feminina e abordagem de contexto social e político, Guida Cândido, já premiada várias vezes com os seus livros, publica mais uma obra importantíssima no âmbito da História da Alimentação, que inclui uma selecção de cinquenta receitas comentadas, revelando ainda como a cozinha se tornou palco inesperado de voz, criatividade, autoridade e, por vezes, resistência.


 

O ALA

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Às vezes, na voracidade dos dias, alguém na editora falava do «ALA». Referia-se, claro, a António Lobo Antunes, fazendo uma sigla a partir das iniciais do seu nome. Não era um autor que, nos últimos vinte anos, fosse regularmente à editora, nem um autor que desse demasiadas entrevistas, sobretudo fora do âmbito de um romance ou livro de crónicas que tivesse acabado de lançar. No fundo, sabe-se pouco sobre o homem que foi ALA; e uma maneira bonita de o homenagear é justamente deixar falar a seu respeito quem com ele privou. Amanhã, pelas 18h30, no Grémio Literário, em Lisboa, vamos poder ouvir justamente a sua mulher, Cristina Lobo Antunes, explicar como era ser casada com ele; uma das suas filhas dirá sobre o pai que ele era; Miguel Lobo Antunes contará como era o irmão e Daniel Sampaio como era ser seu amigo. Ainda se ouvirá falar do que lia (Rui Cardoso Martins), do psiquiatra que foi (Maria Rueff), do melómano (Vitorino), do alferes miliciano (Boaventura Martins) e ainda de como era como entrevistado, do que falará a jornalista literária Isabel Lucas. Como diz o comunicado que anuncia a sessão, «um António como nunca se viu».


 

Excerto da Quinzena

A Varanda de Julieta 

 

Uma vez, entrei em verona para não entrar
em veneza. Entre o vê de verona e o vê
de veneza optei por ver verona. Gostei da
coincidência das consoantes na janela
de julieta; e sei que em veneza não ouviria
o vento da vingança, nem provaria o veneno
de uma volúpia que só em verona se
desvanece com a vida. Não há canais em
verona, como em veneza; nem há janelas
em veneza, como em verona; mas julieta
espreita a rua, da janela que é sua, e se
ninguém diz a senha que só ela sabe, agita
o lenço molhado pelas lágrimas que as
nuvens bebem, levando-as de verona até
veneza, onde a chuva as deita nos canais.

 

Nuno Júdice, 50 Anos de Poesia, Antologia Pessoal (1972-2022) 

Ditadura da Opinião

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Os festivais estão na moda mas não os exclusivamente musicais ou literários. Desta vez, falo-vos de um festival de Filosofia intitulado É Proibido Proibir, que decorre nos dias 23 e 24 de Outubro no solar dos Zagalos, em Almada, e tem como tema a Ditadura da Opinião. É bom que haja quem invente um festival que convide à reflexão e que faça pensar, cruzando conversas, oficinas e encontros de leitura. Desta vez são convidados, entre outros, Ricardo Araújo Pereira, Rodrigo Guedes de Carvalho, Inês de Medeiros (que é a presidente do Município de Almada), João Miguel Tavares, Pedro Adão e Silva, António Castro Caeiro, Rui Zink e Joana Bértholo. Com nomes assim, a coisa promete. E algumas mesas são aliciantes, como «O humor tem opiniões a mais» ou «Jornalismo e opinião», passando por «Como combater a desinformação». O encontro também não esquece os mais novos, propondo oficinas divertidas e interessantes onde se ensina o valor das perguntas, da escuta e da reflexão. Boas ideias.


 

Escritaria

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No ano passado, o festival Escritaria, organizado pela Câmara Municipal de Penafiel, fez o favor de me homenagear, o que agradeço muito, até porque não é todos os dias que temos oportunidade de ouvir pessoas a falar (só) bem de nós. E hoje mesmo será lançado em Penafiel um livro com esses e outros testemunhos, mas, infelizmente, não vou poder estar presente. Se pudesse, estaria a passar o testemunho ao escritor timorense Luís Cardoso, que é o homenageado deste ano (a partir de hoje). Autor de obras como Crónica de Uma Travessia, Requiem para o Navegador Solitário, O Plantador de Abóboras e Hotel Timor, recebeu o Prémio Oceanos em 2021, e o Colar da Ordem de Timor-Leste em 2023. Luís Cardoso vai ter com ele várias personalidades que vão conversar sobre temas da sua obra e sobre o seu país, entre as quais se contam Ondjaki, D. Américo Aguiar, Adelino Gomes, Ana Gomes, Pedro Bacelar de Vasconcelos ou Ana Sousa Dias. Participarão também João Gil, Sérgio Godinho e Dulce Pontes e haverá exposições de vídeo e fotografia dedicadas ao território timorense. Entre outras actividades, passará ainda um documentário intitulado O Voo do Crocodilo, O Timor de Ruy Cinatti, de Fernando Vendrell, que comentará o filme junto de Mário Augusto e Lúcio Sousa. A programação é extensa e pode ser consultada no site da Câmara de Penafiel.


 


Bons alunos

Uma vez, disse a uma rapariga que me tinha enviado um livro para avaliação que o texto não tinha qualidade para ser publicado: além de o enredo ser pobre, era demasiado previsível (ao fim de um capítulo, já se sabia como seria o fim) e não havia nada de especialmente original na estrutura ou na linguagem do romance. Qualquer leitor o perceberia e, como tal, recusei-o. A rapariga era bastante jovem (pré-universitária, creio) e ficou compreensivelmente aborrecida. Telefonou-me depois de ler o meu e-mail, dizendo que não compreendia a minha decisão, pois tinha sido sempre a melhor aluna da turma a Português. Tive de lhe dizer que ser competente a Português nada tem que ver com ser um escritor talentoso, embora ache que ela não chegou a aceitar a minha explicação. Mas vejamos: Einstein não era um bom aluno na escola quando talvez todos pensem que era um génio da Matemática. E muitos escritores famosos foram alunos sofríveis, porque, mesmo tendo jeito para escrever, podem ter sido preguiçosos, desatentos (é o mais certo) ou nefelibatas (andar com a cabeça nas nuvens). Escrevo isto a propósito do Prémio Nobel de Literatura Jon Fosse, que tive o privilégio de ouvir no FÓLIO, em Óbidos, numa sessão em que a tenda rebentava pelas costuras. Ora, Fosse explicou que detestava a escola quando era novo, que faltava às aulas e não estudava  (preferia beber) e que foi um enorme espanto para os pais e professores quando uma revista literária aceitou um conto que tinha escrito para publicação quando ele tinha 15 anos. Mas o talento não tem mesmo nada a ver com ser bom aluno. Há grandes marrões que não têm nada de criativo. 

Mulheres que viajam sozinhas

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A vida é uma equação que não se resolve facilmente, mas qualquer escolha que façamos pode significar uma mudança irreversível. Sanna anda cansada do casamento, dos amigos, da rotina e da sensação preocupante de que a sua vida se tornou demasiado previsível. Será mesmo só isso que a espera no futuro? A precisar de uma pausa – e também de se afastar de um colega de trabalho sedutor –, decide viajar sozinha para uma ilha no Mediterrâneo, deixando para trás o marido e as duas gémeas ainda pequenas. No hotel onde se instala, conhece Evelyn, uma mulher mais velha que trouxe consigo uma mala cheia de cartas por abrir, cartas essas que o homem com quem nunca conseguiu partilhar a vida lhe foi escrevendo. Só agora, que ele morreu, Evelyn encontra coragem para revisitar as dolorosas memórias de um tempo que teve tanto de feliz como de triste; e para isso viaja até àquela ilha grega para encerrar uma história de amor marcada pelo poder, pelo silêncio e pela vergonha. Entre as duas mulheres nasce então uma ligação inesperada. Apesar da diferença de idades, reconhecem uma na outra as mesmas inquietações, desejos e remorsos. E, à medida que as suas histórias se entrelaçam, são levadas a confrontar-se com aquilo que realmente devem a si próprias e com o verdadeiro preço das escolhas que fizeram em nome do amor. Este é o enredo de Mulheres Que Viajam Sozinhas, da norueguesa Connie Barr, um livro que fala das escolhas que fazemos e não fazemos, do arrependimento e do remorso.