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Os Poemas de António

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Quando entrei na LeYa, há cerca de quinze anos, António Lobo Antunes ainda era uma visita regular e aparecia sempre que saía um dos seus livros para autografar exemplares para a comunicação social. Sentava-se rodeado de caixotes numa salinha com o meu colega da comunicação e, enquanto dava ao dedo com as assinaturas, parece que ia recitando poemas que sabia surpreendentemente de cor, de várias épocas e línguas e de autores variados. Era um grande leitor de poesia, género a que se atrevia de vez em quando, embora sem lhe atribuir a importância que dava à ficção de que era autor. Mas algumas dessas tentativas poéticas despretensiosas acabaram por valorizar-se em fados cantados por Kátia Guerreiro, Vitorino e outros, ou em textos cheios de humor como aquele que fala dos homens quando estão doentes. A Dom Quixote, com a ajuda da família, resolveu publicar estes poemas e versos de António Lobo Antunes para o homenagear na Feira do Livro deste ano e o pequeno volume de capa vermelhinha chamado apenas Livro de Poemas (título que consta apenas da contracapa) está aí. Se não conhece esta faceta do génio, leve e divertida, atreva-se e não se arrependerá.


 

Excerto da Quinzena

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O melhor eu. Durante séculos, este foi o conceito-chave subjacente a qualquer definição essencial de amizade: o de que o amigo é um ser virtuoso que fala à virtude que existe em nós. Como é estranho tal conceito aos filhos da cultura das terapias! Hoje não olhamos para ver, e muito menos para ratificar, o nosso melhor eu uns nos outros. Pelo contrário, é a abertura com que admitimos as nossas incapacidades emocionais – o medo, a raiva, a humilhação – que excita os laços contemporâneos da amizade. Nada nos aproxima mais do que o ponto a que encaramos abertamente a vergonha mais profunda na companhia do outro. Coleridge e Wordsworth abominavam tal exposição de si mesmo; nós adoramo-la. O que nós queremos é sentir-nos conhecidos, com verrugas e tudo; aliás, quantas mais verrugas, melhor. A grande ilusão da nossa cultura é pensar que aquilo que confessamos é o que somos.

  

Vivian Gornick , A Mulher Singular e a Cidade,

tradução de Maria de Fátima Carmo

 


 

Antes e depois de Paris

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Inverness, 1927. As Terras Altas da Escócia, refúgio privado do ramo britânico dos Senigallia, a mais influente dinastia de banqueiros judeus da Europa, são o palco da infância de Franca e Giullietta, duas gémeas impossíveis de distinguir e, ainda assim, tão diferentes. Mas os muros aristocráticos do castelo de família encerram muito mais do que sonhos juvenis. Lá, dá-se o maior crime do século, uma tragédia que marcará de maneira impiedosa o destino das raparigas. O seu grito de emancipação escutar-se-á nos cenários mais improváveis – dos cafés de Montparnasse, onde Giullietta impõe o seu génio artístico entre pintores que se contarão entre os mais famosos do mundo, até à costa do Estoril, onde Franca apanha sol no Tamariz e se cruza com espiões nas festas exuberantes do Hotel Palácio. Porém, quando tudo se desmorona, o romance anoitece, quase insuportável de ler perante a mais hedionda das faces do Holocausto, essa que se oculta nos blocos de Auschwitz e Birkenau, pelas mãos de Mengele, o Anjo da Morte, e a sua legião de médicos nazis. Com Aguarela de Paris, João Pinto Coelho – autor vencedor do Prémio LeYa – regressa ao seu tema de eleição, presente, desde logo, em Perguntem a Sarah Gross, tecendo desta feita um romance de formação que é também uma surpreendente história de rebeldia e resistência numa Europa em guerra. O lançamento é hoje, na Cinemateca de Lisboa, às 18h30, e vai apresenta-lo Luísa Sobral. Apareça!