Sem telemóveis

As principais revoltas fizeram-se quando ainda não havia telemóveis, e os estudantes franceses no Maio de 68, bem como os da Praça de Tiananmen, não os tinham. No livro de que mais gosto de Han Kang, Actos Humanos, a escritora coreana descreve um massacre policial nos anos oitenta contra o que começou por ser uma manifestação estudantil e se tornou uma tragédia de proporções inimagináveis, de que ainda hoje não se conhece o número de mortos. Os telemóveis ainda estariam para vir, mesmo nesse país ferozmente tecnológico. Hoje, em toda a Europa os estudantes se manifestam, mas acredito que o telemóvel tenha um papel mobilizador e sirva também para situar um colega ou amigo num ajuntamento. E, porém, uma professora francesa escreve um interessante artigo no Nouvel Observateur sobre a importância nos recentes protestos em França da proibição do uso de telemóvel nas escolas. Diz ela que já há muito que as condições nos estabelecimentos de ensino eram terrivelmente precárias, mas que os alunos tinham os narizes e os olhos de tal modo mergulhados nos ecrãs que não se davam conta disso; e que foi apenas quando deixaram de poder usar telemóveis na escola que, além de se sentirem privados infantilmente de uma coisa que fazia parte do seu quotidiano, ergueram finalmente as cabeças e olharam à sua volta. Então, desgostaram-se com o que viram (futuro duvidoso, presente sombrio) e resolveram reclamar. Há males que vêm por bem, ou bens que vêm por mal?

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