Ressacas

Reli há uns tempos umas colectâneas de poesia espanhola do século XX organizadas e traduzidas por Joaquim Manuel Magalhães, que foi meu professor na Faculdade (e era muito melhor professor do que tradutor de castelhano, mas isso não importa muito para o que hoje me traz). Fiquei muito espantada pela quantidade de poemas que encontrei sobre o álcool, a bebida, as ressacas, os vomitanços...; e, claro, não pude deixar de pensar que os espanhóis não vão, como os portugueses, do trabalho para casa, passando normalmente um bocado com os colegas e amigos, bebendo uns vinitos e tapeando por aí, o que se pode ver em qualquer cidade espanhola, das grandes às pequenas. Pode ser que, por isso, acabem a beber mais do que a conta, sim. E, sendo escritores, que reflictam sobre o hábito ou o vício nas suas obras. Fiquei a pensar que, mesmo aqueles escritores portugueses que toda a gente diz que bebiam bastante (Cardoso Pires, por exemplo), raramente se referem a esse facto no que escrevem. Eu, pelo menos, não me consigo lembrar de nenhum romancista ou poeta que fale abertamente das suas bebedeiras ou ressacas. Será que é porque se sentem culpados e associam o álcool a algo negativo, e não ao convívio com os amigos, como no país aqui ao lado? Julgo que é o Eduardo Pitta que diz que a nossa literatura é mais macambúzia do que a espanhola, porque eles vivem muito mais do que nós. Será? Bem, a cada um a sua ressaca.

Comentários

  1. Não temos, efectivamente, aquele bom hábito de confraternizar diariamente com um copo a acompanhar; não enchemos as esplanadas de conversedo e trivialidade; não nos damos essa oportunidade de desopilar depois de um dia de trabalho. Vamos a correr para casa, para o super, para a escola dos garotos. Por que será? Apenas por razões de personalidade base essencialmente diversa? É que nem me parece.
    Mas aprecio com muita força que poetas e escritores portugueses esqueçam as perversões da alegria, os pequenos e grandes vícios que causam vómito factual e em quem os lê. O desregrado do álcool não é prazeroso. Agradeço aos escribas portugueses a contenção e que o não nomeiem ainda que possam vivê-lo, puxá-lo do bolso se assim o desejarem.

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  2. Aos portugueses parece faltar uma alegria de viver, que noutros povos parece ser crónica - no caso concreto os espanhóis!
    A literatura forçosamente o reflecte.
    Não sei dizer o porquê desta característica, a nossa tradicional falta de alegria, mas atrevo-me muito machistamente a dizer que começa até na garridice das espanholas por contraste com a tradicional sobriedade das mulheres portuguesas clássicas, e me perdoem, mas de facto o que tenho visto nesta última semana por cá não alegra ninguém, a própria feira do livro sendo disso exemplo, caramba que colecção desengraçada, assexuada, mal-vestida e mal-pronta, até nas editoras com jovens de t-shirts pretas e pouco alegres. Se é este o panorama da elite culta e intelectual, credo, Deus me livre!
    Dos homens não falo, alguma das extraordinárias que o faça, mas o panorama também não me parece melhor no toca a falta de graça e bom-gosto.
    Enfim, nuvens de uma Segunda-feira sombria cá pelo Bairro Ribatejano.

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  3. Os escritores portugueses sabem que as suas bebedeiras (e especialmente as ressacas) têm muito pouco de literário. A não ser que tragam alguma aventura à mistura (Cardoso Pires e Francisco José Viegas, por exemplo, não escondem o álcool e o tabaco nos seus livros)...

    Mas não é um assunto tabú, bebe-se e fuma-se bastante na nossa literatura. Mas evita-se escrever sobre o que acontece no wc...

    Os espanhóis são essas coisas todas mais que nós, e também gritam que se farta nas ditas esplanadas. Quem não está habituado estranha, até que se entranhe...

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  4. Cláudia Da Silva Tomazi12 de setembro de 2022 às 05:36

    A literatura trás liberdade, e digo a respeito do comportamento humano. O Post de hoje me saltou a capa de Javier Cercas o livro “Velocidade da Luz” a Ed.Relume. Entanto, recordei algo espantoso “Ressacas” o associei a um escritor francês; saltou-me a mente o recorrente plural. Em “Sol dos Moribundos” Jean Cloude-Izzo provoca uma leitura com o personagem nauseante pela insistência de viver a angústia de beber horrores e dopar-se de modo irresponsável.

    Sinceramente, que preciosa vitória a comparação!

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  5. Um que bebia e fumava bastante e já cá não está era o Vasco Pulido Valente. Outro bebedor mais famoso foi Bukowski, este até levou uma garrafa de vinho com ele para o programa do Bernard Pivot: foi uma bebedeira em directo!

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