Excerto da Quinzena
(Para a semana estou de férias, o blogue só volta dia 14.)
Dani sempre quis acreditar que a mãe estava predestinada para voos mais altos, como mãe e como mulher. Que, se o pai não tivesse morrido, ela se teria transformado no suprassumo da nova mulher trabalhadora dos anos noventa, gerindo a casa e um negócio próprio, com todas as ideias que tinha de design de moda infantil que a avó costuraria. Pouco depois de Dani nascer, ela falava em estudar modelagem e moda. Mas o entusiasmo, a alegria e toda a doçura que sabia transmitir através das canções que inventava, das histórias infantis à hora de dormir, de tudo o que contava sobre tesouros, bosques, fadas, monstros bons e solitários, ficou paralisado com a doença do marido. Como se tudo tivesse ficado fossilizado no interior de um rochedo duro, juntamente com os seus jogos de sedução, as suas pestanas compridas, a elegância das maçãs do rosto e as feições delicadas. Uma mulher jovem completamente encerrada no interior de um rochedo e tingida de preto, de um preto fúnebre. O preto podia ter sido sofisticado e mágico, mas ela ainda hoje anda toda manchada de receios. Entrou para a igreja do bairro de uma forma excessiva e encheu os seus dias de catequese, velas e círios pascais. Decidiu deixar a vida feliz para outro mundo, já que assim tinha a certeza de que estar bem não dependia dela.
Marta Orriols, Doce Introdução ao Caos, tradução do catalão de Maria João Teixeira Moreno
Que bem escrito!Isto e que e saber descrever emoçoes,estados de alma,sensibilidades.Sem lamechices nem tragedias excessivas.Sem holocaustos nem dramas de cortar o coraçao.
ResponderEliminarUm excerto que nos move. Acho que quero ler o livro.
ResponderEliminarBoas férias, Rosário.
Chegou Álvaro ao pátio do mosteiro.
ResponderEliminarFoi Cecília a da nova, e após ela vinham todas, alviçareiras, a esbofar de cansadas.
Maria sentou-se de ímpeto no leito, e abraçava vertiginosamente, quantas estavam ao pé da cama, onde todas vieram. Até a prelada, menos gotosa que nos outros dias, regamboleava a perna, revel à própria sineta de matinas! A mãe de Álvaro pedia os vestidos, e tods à porfia lhe davam os fatos em duplicado para se vestir, chilreando destoadamente uma inglesia de que as próprias noviças estavam como pasmadas. Já Maria saltava do leito meio vestida, quando entrou a dona abadessa, e a obrigou brandamente a recolher-se à cama, que assim o mandara o médico, e não se fazia mister ir buscar nos braços quem ali vinha ter por seu pé.
A este tempo, correu a chusma das noviças à porta da cela, como ouvissem de longe o rangido de botas nos sonoros corredores dos dormitórios. Vinha Álvaro com a madre porteira, com a madre escrivã, e com a madre que estava de semana no encargo de acompanhar os facultativos às celas das suas doentes. [...].
- É o meu filho! É a minha riqueza! [...]. Tenho vivido em tormentos de onze anos para este instante... Deixem-me desabafar, que a felicidade sufoca-me...
E bracejava, atirando a repelões as tranças soltas para as costas.
Álvaro comtemplava a mãe com ar de assombro. Tinha visto um retrato, como ele, naqueles anos, poderia imaginar um anjo. A mulher, que ali via, era magra, lívida, e com as rugas da velhice precoce nos rebordos macerados dos olhos. Raros vestígios das feições antigas conservava a infeliz aos trinta e quatro anos, idade em que o toque mórbido e desmaiado da beleza é muitas vezes mais de cativar que o viço dos vinte anos.
Camilo - O Romance dum Homem Rico
Também acabei de ler, sou um admirador de Camilo, já visitei a Casa de Camilo em S. Miguel de Seide; este romance era aliás um dos preferidos de Camilo, tenho e já li cerca de 100 romances e novelas do mestre da língua portuguesa. É um dos meus autores preferidos ao lado de Aquilino, Torga e Eça!
Eliminar"Coimbra, 7 de Junho de 1950
ResponderEliminarDIA POÉTICO
Que lindo dia
De poesia
Se pôs!
A manhã baça,
O jornal carrancudo,
E, de repente, tudo
Cheio de luz e graça!
E que não há milagres!
Há, mas são destes, que não provam nada...
É uma pena
Que a nossa alma seja pequena,
Ou já esteja ocupada."
Miguel Torga, "Diário V", 2ª Edição Revista, Coimbra, 1955, p. 98
Manuel Dias da Silva
ALGUMAS PALAVRAS SOBRE A MENTIRA
ResponderEliminarPor que razão, entre nós, todos mentem? Não duvido que me interrompam de imediato e gritem: "Disparate, nem todos! Tem falta de temas, então inventa essas coisas para começar com grande efeito." Já me têm apontado esta falta de temas ; mas tenho de dizer que, francamente,agora estou mesmo convencido de que a mentira, entre nós, tomou um carácter generalizado.
Diário do Escritor - Fiódor Dostóievski
Tao atual!
ResponderEliminar