Cuidar da língua outra vez

Ontem falei de ortografia e dos cuidados a ter com a língua; e de repente apanhei um artigo em que um autor que todos conhecem, João Tordo, afirma ter aprendido a cuidar da língua com a procura constante de sinónimos que não atravancassem a sua gaguez, uma vez que palavras começadas por determinados sons (p, t, q, por exemplo) complicam enormemente a vida a um gago. Ele diz que em pequeno tinha complexos, mas que já lhe passaram. E tem razão, até porque houve muitíssimos escritores gagos antes dele, e a respectiva escrita não pareceu minimamente afectada por esse facto e, se o foi, deve ter sido positivamente. Falo, por exemplo, do grande Cervantes ou do incrível Lewis Carroll (a Alice não gagueja, que me lembre); Machado de Assis e Henry James, Darwin e Updike, e também do homem que foi brindado inesperadamente com o Nobel da Literatura, Winston Churchill! Todos eram gagos, mas não com a caneta, está visto; e é bom saber que há quem tire de uma limitação a hipótese de enriquecer o seu vocabulário, sobretudo num tempo em que o número de palavras usadas pelas pessoas quotidianamente é tão limitado. Parabéns a João Tordo pela sua estratégia. Quem sabe se não terá sido ela que o levou a ser escritor...

Comentários

  1. Bom dia!
    Em resumo e como diz o provérbio :
    "Quem escreve assim não é gago."
    Grande João Tordo!
    A. DELFIM

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  2. António Luiz Pacheco29 de junho de 2022 às 02:20

    A gaguez não influencia a escrita a não ser na forma aqui relatada, com o eventual enriquecimento do vocabulário! Conclui-se portanto?.
    Sou daqueles que procuram constantemente sinónimos, faço mesmo disso um jogo. Em tudo que escrevo procuro não repetir as palavras, bem como novos termos para ir alternando e fugir à monotonia. Faço-o por puro gozo, felizmente que falo uma língua tão rica quanto a nossa que me proporciona infindáveis recursos.

    Churchill é justamente celebrado como orador, tinha o dom da palavra, com clareza, verve e grande força na voz e idéias. Ao que se diz, tinha "a língua presa", no entanto conseguiu superar essa limitação e até soube usá-la como forma distintiva de discursar. Pena que o Adolfo H. não tivesse sido gago como aqui o meu amigo Jorge Caturrado, pois talvez assim desconseguisse de empolgar as massas e se tivesse evitado o sucesso do nazismo que indubitávelmente partiu da oratória hitleriana.

    Eu creio que haja diferentes formas do gaguejar, ou pelo menos diversos graus, o que também suponho que com exercício, o treino, se logrem ultrapassar. No entanto se a gaguez produz escritores de alto gabarito, então que seja abençoada, pelo nosso bem, dos amantes da leitura.

    Saudações fluidas e fluentes, cá desde a Cidade Morena!

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  3. Não me parece que tenha sido a gaguez a influenciá-lo. Em entrevistas sempre disse que a escrita o moveu desde pequeno e que até em casa toda a gente o via nesse mundo. Se a procura constante de sinónimos e o ampliar decorrente do vocabulário o ajudaram na arte, parece-me que sim.

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  4. Fazer o que se puder para melhorar a dicção é um esforço admirável. Conheci uma pessoa que não produzia o som de c e um dia meteu-se em brios e conseguiu falar normalmente. O exemplo clássico é o de Demóstenes que, necessitando de falar fluentemente para bem defender as suas teses em público, ultrapassou a sua gaguez chegando a utilizar seixos na boca para o conseguir.

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  5. Cláudia da Silva Tomazi29 de junho de 2022 às 05:30

    Bom dia. Se obtivermos em respostas por comparar a qualidade o domínio à língua ou riqueza vocabular de outras décadas, embora a comparação sobressalente as disciplinas, o pano de fundo os colégios ou a falta de recursos a distância geográfica, basicamente o contraponto exibirá moldes específicos de equilíbrio satisfatórios em relação a contemporaneidade. Aliás, em termos de ensino se nivelar o passado e não o respeitar como superior ao presente ou, isso for novidade para alguém então certamente por fora do contexto estudantil. Creio que a dinâmica desta resenha implica expor e confrontar diretamente a relação entre o avanço de conhecimento versus a qualidade do pensamento. Bem, mas será que têm haver a língua?!

    O modelo brasileiro em relação clara de ensino segundo as Diretrizes de Base evoluiu bastante na Pedagogia. Percorreu das lousas às cartilhas e das cartilhas ao construtivismo de Piaget, França. Se o ensino fez e faz o suporte em seu compromisso no beabaá a língua, e contudo há deficiências e as sabemos ser(em) falha(s) a qualidade do produto que é a variação entre aprendizados onde se lhe supõe uma esfera de neutralidade fenomenal. Eu, creio ser o ponto chave a vez (chave subliminar) etapa de valorização e integração humana, não tão somente a introdução o self, reconhecimento ou fluência digital. Em suma desde sempre os rumos do desconhecimento tem sido até então, uma cortina de fumaça vencida simplesmente pela Literatura, consensualmente todas as literaturas pequena ou grande primam o cognitivo; até porquê em própria resposta cultural viva é arte, existe por princípio a sensibilidade a capacidade. Ouso apontar enquanto verdade explícita o livro se lhe faz alcançar o indivíduo em sua autonomia. Caramba, cura a gagueira e aí está o Tordo e quantos outros.

    Por nossa imensidão o Brasil das metáforas é uma soma existente em carne e osso, drama e esperança. Nação que resiste inclusive atualmente abarcando os problemas da América. Onde talvez se lhe pertença o complexo comportamento do efeito sem moderação a língua corretamente exercida em lida ou escrita. Seguimos na reparação a credibilidade sensível o acolhimento literário.

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  6. Não sabia que o João Tordo é gago. Aliás, só muito recentemente li o primeiro livro dele, primeiro para mim, entenda-se. Mas creio que o último publicado: "Naufrágio". Que obra belíssima! E tão inteligente. Agora tenho todos os outros dele para ler! Acho que ser feliz é (também) isto: encontrar um novo autor que nos enche as medidas.

    Mais uma que tenho de lhe agradecer, Maria do Rosário. Foi daqui que levei a ideia de ler João Tordo.

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    1. Creio que não tive sorte com os dois livros que li de João Tordo, "O Bom Inverno" e "O Luto de Elias Gro". Tenho na estante "A noite em que o Verão acabou" e estou persuadido a ler "O Deslumbre de Cecilia Fluss". Quaisquer outras sugestões são bem-vindas!

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