As desculpas
Quando falamos apaixonadamente de livros, muitas vezes, do lado de lá, está alguém que não percebe o nosso entusiasmo. São geralmente pessoas que dizem que não gostam de ler. Digo «dizem que não gostam», e simplesmente «não gostam», porque creio que existe sempre um livro capaz de atrair um leitor, embora provavelmente não o mesmo para toda a gente. Mas, quando indagamos porque diz o nosso interlocutor que não lê, ele desculpa-se, regra geral, com a falta de tempo (como se ver televisão ocupasse menos tempo do que ler) ou, pior, com o preço dos livros, quando é capaz de dar uma fortuna por um bilhete para um festival de música. A Ler É Essencial desta semana não desiste de tentar fazer leitores e, por isso, oferece sugestões para convencermos a ler os que não o fazem, tais como falar-lhes de um livro que adorámos repetidamente ou convidarmos amigos para uma leitura conjunta de um livro depois de jantar. Diz mesmo, citando Kant, que ler uma coisa que nos ponha bem-dispostos é tão benéfico como o exercício físico. Vamos fazer esse esforço pelos livros?
Em 100 conseguirei, no máximo, convencer uma pessoa a ler. Tenho essa experiência.
ResponderEliminarÉ algo que não se convence ou a pessoa gosta ou não, terá de partir dela esse gosto.
A desculpa do não tenho tempo, os livros são caros, etc etc é a prova real de que dificilmente alguém convence outros a ler.
Será que estou errado nesta minha análise?
O meu amor pela leitura é uma vertigem louca.
ResponderEliminarClaro que todos os membros do Círculo Literário são amantes da leitura 📖 mesmo assim, tenho orgulho desta minha ideia, que continua acesa desde o dia 15 de Maio de 2009.
A crítica alemã arrasou „O colibri“, de Sandro Veronesi.
Vou tentar lê-lo na versão original. Talvez, a tradução em alemão seja péssima.
Bom dia, Extraordinari@s Leitores:
ResponderEliminarQuanto a mim, dedico a minha vida (profissional, (e até algum tempo da minha vida pessoal) a convencer gente sobre a "coisa maravilhosa" que é ler! Para mim, que sou suspeita, não há melhor exercício para me dispor bem. Mesmo com os livros de temática dita "difícil". Que me podem dar murros no estomago, é certo, mas que muito me elucidam. E depois o que eu não faço para encontrar aquele livro que aquele leitor tanto quer ler? O que me agrada a mim, ir para a Recepção da Biblioteca falar com os leitores, sobre o que leem e se têm alguma sugestão também para mim. Podem não acreditar, mas eu trabalho numa Biblioteca de média dimensão diria, e há leitores que me emprestam os livros deles, livros que eles adoraram, mas que a "minha" Biblioteca não tem.
E sim, dificilmente engulo as desculpas do costume. Um livro é caro? E a pessoa que o escreveu também não come como nós? Não tem que ser devidamente paga? E todas as pessoas incluídas no processo da "fabricação do objecto livro"? Também não têm que viver? E os custos de produção, não serão também eles, com este tempo que todos estamos infelizmente a passar, galopantes? Mas pronto, dizem ser caros... mas se calhar as lojas da moda também têm "produtos" muito caros? Digo eu, que até sei pouco disso... Roupas que por exemplo ninguém recicla? É que se têm que andar sempre muito jeitoso/a? Com trapinhos novos... E um festival de música de semana e meia de duração? poderá também não ser... propriamente barato... digo eu... Mas lá está, os músicos também necessitam de viver.
Posto esta minha opinião, vou defender com unhas e dentes a minha "dama", que é, (que são), as Nossas Maravilhosas Bibliotecas Públicas. Onde não se paga NADA! Leram bem, não se paga rigorosamente nada!
Estão abertas, durante muitas horas, muitas delas (como a minha) até está aberta à hora de almoço. Aos Sábados também abre, durante todo dia. Fecham as suas portas às 19:00 h. Até há um dia por semana em que se fecha mais tarde, no meu caso às 22:00 h. Como não ler? As Bibliotecas e os que nela trabalham, que se esforçam todos os dias por bem recepcionar toda a gente que nos procura? E que deveria de ser muito mais... Que se esforça para ter aquele livro maravilhoso, que saiu há tão pouco tempo... E se não o tivermos "por cá", poderá ser pedido a outra Biblioteca? No nosso caso, noutra Biblioteca do Concelho. Então? Como não ler?
Ler é maravilhoso mesmo! Não existe um dia em que eu não leia. Regra geral uma horinha, às vezes mais, outras vezes menos qualquer coisa. O sono advém por vezes bem cedo, com muita pena minha...
Mas que se leia mais! É libertador, a meu ver, apagar um televisor com um programa imbecil, com aqueles senhores e senhoras que casam sem saber com quem, ou os que fechados numa casa, devem dar muito que falar, e sentar-se na sua poltrona favorita, com o seu candeeiro maravilhoso aceso... recostar-se bem, pegar num livrinho (no meu caso tenho que colocar os óculos primeiro) e ler.
Agora tenho uma confidência tola a fazer e por favor não me levem a mal: Na minha casa, tenho um posto de iluminação pública mesmo juntinho à minha janela. Essa mesma janela onde por trás está situada a minha poltrona favorita. E tenho a dizer-vos que ler para mim é tão, mas tão maravilhoso, que à noite não gasto com isso, nem electricidade. Só adquiro mesmo bons e inesquecíveis momentos.
(Eu sei que toda a gente que aqui vem, como eu lê, e lê muito, e é absolutamente inusitado este meu sermão. Perdoe-me por isso. Mas estas são as palavras que eu gostaria de dirigir a todos aqueles que não leem, que para essa "não acção" apresentam as mais variadas desculpas. E que estão a perder a possibilidade de serem muito, mas muito mesmo, mais felizes!)
Boas Leituras para Todos!
Celeste Silveira
Muito bem!
EliminarSaudações cá da Cidade Morena.
Extraordinária Celeste, obviamente que adorei este seu discurso, mas atrevo-me a dizer que quem não lê não vai lê-lo, isto é "conversa" que nós (que lemos) todos gostamos -porque lemos-!
EliminarOuso perguntar-lhe: -a Celeste já convenceu alguém (que não lia) a ler? Se sim, certamente numa percentagem muitíssimo baixa.
Costumo dizer, ler é como jogar futebol NASCE ninguém lhe ensina, NASCE!!!
Sou um frequentador de Bibliotecas e estou absolutamente de acordo com o que, sobre elas, escreve. Mas olhe que há lá alguma gente (funcionários) que não lê nada de nada, e alguns passam o tempo absolutamente enfadados a olhar "pró boneco".
Boa tarde, Extraordinário Seve:
EliminarAi que o senhor não tem qualquer confiança nos meus doutos e muito eficazes poderes argumentativos?! Que só cá por coisas é que eu não tomo assento no Hemiciclo? Estou a brincar consigo, evidentemente.
Se convenci alguém a ler? Olhe, pelo menos eu tento. Como sabe a nós, Biblioteca Pública, vem uma faixa muito reduzida da população. Um nicho. No caso concreto da realidade que melhor conheço, agora também vêm algumas pessoas tirar o Passe para os Transportes da Zona Metropolitana de Lisboa. E eu adorei essa ideia desde o primeiro momento em que soube da intenção da instalação da maquineta por cá. E um dia destes veio cá um velhote que me disse: "É aqui a Biblioteca! Olhe que eu não sabia! E moro aqui há tantos anos, mesmo ali ao pé da igreja! Também têm aqui jornais, não têm?" Acredite, Seve, a tal Igreja fica aqui bem pertinho.
É claro que eu também devo ter as minhas culpas. Devia fazer mais qualquer coisa para virem a nós os que ainda não sentiram qualquer necessidade de até nós vir e beneficiar dos nossos serviços. Que são variados e ainda podem vir a ser muito mais. Para mim, o rei do espaço é o livro. Contudo eu já sou uma Senhora Crescida. As Bibliotecas actuais são muito mais que receptáculos de livros. E depois podemos fazer muito para chamar mais público a nós.
Francamente tenho duvidas em dizer que nascemos leitores. E acho que nos fazemos leitores. Somos nós e as nossas circunstancias. Como eu aqui já disse uma vez, eu tive a felicidade de ter um pai que foi, é, e espero bem que continue a sê-lo por mais tempo, leitor convicto e voraz. E apesar de ter somente a instrução primária teve sempre o gosto por comprar livros, muitos livros. E eu sempre tive acesso absolutamente livre aos livros dele. Esta situação na certa, facilitou a minha vida não só como leitora como também amante de livros. O mesmo se passa em muitas casas. Estou de crer! Mas a Biblioteca deverá ter a capacidade de ser foco de atracção. Fazer com que as pessoas aqui se sintam como que em sua casa. Acolhidas, compreendidas e com as necessidades de leitura satisfeitas. Mas, e os que não leem? Pois essa é a chamada pergunta para um milhão de dólares. Existem experiências por todo o lado que preveem um maior acesso às Bibliotecas. Clubes da mais variada proveniência, Workshops da mais variada temática. Oficinas disto e daquilo... E caro Seve, muito já se vai fazendo. Um pouco por todo o lado. Mas é suficiente? Não, ainda estamos muito longe disso.
Em relação aos funcionários que não leem? Pois tem o Seve toda a razão. Um dia destes até me disseram que existem Bibliotecários que não leem... como é possível? Estar eu a "vender" um "produto", querer "vender" ainda mais, contudo não apreciar, nem mesmo consumir o "produto". Nem sequer o conheço "de ouvir falar..." Bem, desta equação não se deve esperar grande coisa. Perdoem-me os Extraordinários toda esta conversa de merceeiro.
E depois nota-se logo essas dificuldades, na execução do chamado Serviço de Referência.
Caro Seve, e com toda a simpatia, eu não tenho as respostas todas. Vou tentando, vou-me tentando. Com a espectativa que a minha absolutamente mínima acção, no meio da imensidade de toda a realidade, possa fazer alguma diferença. Por pouca que seja.
Fique bem, Extraordinário Seve. Com excelentes Leituras.
Celeste Silveira
Evidentemente que conheço, todos conhecemos, pessoas que não lêem e têm razões aceitáveis para isso, sim, que as há e seria exaustivo enumerá-las.
ResponderEliminarHá depois aquelas pessoas que apenas não lêem... pelas mais diversas razões, porém, estas são sobretudo preguiça ou algum tipo de preconceito contra a leitura, muitas vezes ignorância pura sobre o que é ler e o que se encontra ou adquire através da leitura, até dos tipos de livros que existem. Falta de tempo ou o preço não são argumentos aceitáveis, de um modo geral.
Em minha opinião, não vale a pena investir naqueloutros, porém nestes últimos sim! Nos preguiçosos, preconceituosos, ignaros literários. É junto destes que temos de actuar.
Como? Bom, se eu soubesse a resposta fundava já uma editora... mas arrisco a dizer que muitas vezes a culpa está naquilo que se publica, porque não vai ao encontro do que muita gente gostaria ou poderia ler.
Um livro que cumpra a sua função, é o que o leva a ser lido! Reside aí o segredo, ser adequado, preencher as expectativas do putativo leitor. E não há argumentos que possamos usar, apenas este: - o livro ser adequado.
Tenho uma empregada doméstica, angolana, que me pede para ler certos livros que eu percebo ela folhear quando arruma o quarto.
Sabem que livro que ela me pediu agora para ler? Aquele que estou a acabar neste momento: Naipaul, "Um caminho no Mundo". Surpreendidos? Eu não! Percebo perfeitamente que a realidade que ele descreve é próxima e entendível por ela, ao contrário de "Último olhar" de Miguel Sousa Tavares que é para ela incompreensível.
Devíamos pensar nisto!
O argumento: "lê este, porque eu gostei muito", não é o melhor, creiam.
Por exemplo, a mim ninguém vai apanhar a ler o tal colibri... defeito meu? Não me parece, tal como não me verão a andar em Lisboa de calção e chinelos, são opções.
Saudações cá da Cidade Morena.
A propósito de tudo e de nada, recomendo aos jovens (os meus "parceiros" de trabalho) livros que gostei muito de ler na juventude e de outros que li mais recentemente ou que leio nesses momentos. Outras vezes, leio excertos de livros sugeridos para as idades desses jovens. Quando isso acontece, mostram interesse, alguns até anotam os títulos, mas o resultado é nulo ou quase nulo.
ResponderEliminarNoutros tempos, atrevia-me a oferecer livros aos filhos dos amigos e às minhas sobrinhas, que, na infância, gostavam que lhes lessem. Hoje, desses jovens, sobrevivem dois ou três leitores. Uma dessas crianças, a minha afilhada mais velha, confessou-me, já adulta, que foi determinante para ela que eu lhe tivesse oferecido livros, algo que os adultos à sua volta não valorizavam.
Eu fiz-me leitora, numa casa onde pouco ou nada se lia, graças a alguns professores que tive, aos almanaques que lia em casa de um tio e ao acesso a uma das bibliotecas da Gulbenkian, que ficava a dois minutos da minha casa e que passei a frequentar depois de o pai de uma amiga a ter inscrito.
Boas leituras para todos!
Se me permite, DEEP, o seu esforço não foi inglório. O que conseguiu foi bom se tivermos em conta que muitos de nós não conseguimos resultado algum.
ResponderEliminarQuanto ao preço dos livros, algo está mal explicado. Em França, onde o custo de vida é superior a Portugal, encontram-se os clássicos em edições de bolso por menos de 10 euros. São reeditados com frequência, não esgotam. Em Portugal, vendem-nos em grandes formatos e a preços bem superiores. Estão esgotados grande parte do tempo. Queria as crónicas da Guiné do Zurara e as do Cadamosto, olha comprei em francês na Chandeigne. É pena.
ResponderEliminarJá passei por "tolinho" por muitas coisas... e também por ler, muito (até já me disseram que podia ocupar melhor o tempo...). Nada que me incomodasse, claro.
ResponderEliminarÉ por isso que sei que ler livros não é coisa deste tempo, de soltar e escrever frases curtas com um vocabulário menos que básico (todas as semanas os meus filhos, um engenheiro e uma excelente aluna do 12º ano, me perguntam o significado de uma palavra qualquer que escapa à vulgaridade...).
Se tivesse de dizer a alguém porque razão se deve ler (já o fiz a várias plateias de alunos, mas não sei se resultou...), diria que se deve ler porque nos ensina a pensar, a pensar pela nossa cabeça. E também a questionar, porque os bons livros passam o tempo a querer trocar-nos as voltas...
Uma das melhores coisas que os livros nos proporcionam, são as viagens que fazemos pelo mundo fora... Falava sempre disso e percebia que a maior parte dos alunos que não liam pensavam que estava na brincadeira...
É também por isso que é muito difícil convencer alguém a ler.
Outra coisa que fazia, nestas sessões, era recomendar livros agradáveis de ler para jovens ("O Malhadinhas" do Aquilino, não faltava, assim como "O Velho que Lia Histórias de Amor", de Luís Sepúlveda ou os "Capitães da Areia" de Jorge Amado). Mas sempre tive grandes dúvidas se consegui conquistar algum leitor...
O post com relação à leitores me fez recordar uma circunstância bem engraçada. Na altura o caso (extravagante) quando o diretor atendeu a ligação de uma senhora e por elogiar o Jornal, mencionara especialmente meus artigos. A mulher surpreendeu enquanto leitora ao revelar embora adorasse tudo que eu escrevia, simplesmente ela nada entendia.
ResponderEliminarA certeza de algo mais a escrita e o leitor percebe, capta ou liga-se. Há um certo fio de esperança alinhavado às vezes, feito anzol às páginas de alguns e açúcar feito outros.
Quando era um jovem professor, tive um problema com uma turma de adolescentes que simplesmente não queria ler nenhum Shakespeare. Nem suas peças nem seus sonetos. Tentei por várias semanas fazer com que a classe participasse e lesse em voz alta. Sem sorte. Então um dia perguntei a eles que tipo de poesia os interessaria. Um menino sugeriu que a letra de Linton Kwesi Johnson seria mais apropriada do que Shakespeare para eles. Na aula seguinte, sem que eu pedisse, o menino trouxe para a aula sua coleção de discos de Johnson junto com cópias das letras. E assim, para as lições seguintes, nós os lemos juntos antes que um pequeno milagre ocorresse: a classe perguntou como as letras de Johnson se comparavam aos sonetos de Shakespeare. Naturalmente não perdi a oportunidade e durante várias semanas fizemos alegremente essas comparações literárias em termos de estilo, vocabulário, ritmo e tema. Foi um avanço mágico! Aprendi que é sempre preciso considerar os interesses dos leitores potências antes de fazer qualquer tentativa de sugerir-lhes autores.
ResponderEliminarRussel Boncey, Fontainebleau