O que faço eu aqui
O título deste post é – alguns devem lembrar-se – também o título de um livro do grande escritor-viajante Bruce Chatwin, publicado, se não me engano, postumamente, uma vez que Chatwin morreu muito jovem, antes de completar 50 anos. Mas é igualmente a pergunta que me ponho muitas vezes quando, atrás da minha secretária, tento passar a palavras a actividade a que me dedico e sinto que o trabalho é tão complexo e variado que não se explica a ninguém em meia dúzia de linhas quão importante pode ser na cadeia do livro a nossa intervenção (tal como a de muitos outros, claro – tradutores, revisores, etc.) para o resultado final. No entanto, encontrei recentemente um pequeno vídeo, Inside the Edit, que, através de imagens e pouquíssimas palavras, dá uma boa ideia (uma boa imagem também) de quais são as funções principais de um editor (podem ler a palavra com pronúncia inglesa, por favor) a todos os que queiram perceber um pouco melhor o que cá andamos a fazer. Claro que puxa talvez ligeiramente pelos galões dos editores (não somos milagreiros, nem temos de repetir sempre os mesmos procedimentos, tudo é diferente de livro para livro), mas serve muito bem para os Extraordinários se inteirarem do que faço eu aqui! Ora vejam.
Excelente vídeo. Quanto a ser o retrato do Editor ou a discrição do seu trabalho, tenho cada vez mais dúvidas. O Editor é cada vez menos o que o vídeo refere - de forma muito clara, reconheça-se. Muito poucos Editores - cada vez menos - têm tempo sequer para ler integralmente as obras, quanto mais para «aconselharem» os autores a fazerem qualquer tipo de melhoria! Além disso, há momentos em que o Editor parece tomar a forma do Autor, do Revisor... enfim, parece ser o que «faz tudo», ou pelo menos «o que faz o mais importante». Ora, parece-me que - salvo raras excepções - cada vez faz menos do que lhe compete. Lamentavelmente para as obras. Elas, sim, IMPORTANTES. E... sobretudo (convém não esquecer) fruto da inspiração, do trabalho e da capacidade selectiva, de jardineiro e podador, do AUTOR.
ResponderEliminarNão imaginava que o editor fizesse tanta coisa. Quase parece que pegam num trabalho do escritor e o compõem de fio a pavio. O vídeo apresenta-o como se o que está escrito no original seja uma amálgama que só enforma depois do trabalho do editor. Francamente imaginava que tivesse participação mais discreta. Não me parece que os escritores, principalmente os que já escrevem há muito ano e com um número razoável de publicações, enfermem de tanta confusão. Mas acredito que os editores saibam melhor - até pela prática - o que retirar ou adensar. Julgaria que funcionava como sugestão, para melhorar a obra...mas estou fora de tal mundo.
ResponderEliminarSim, mas, como disse no post, este vídeo exagera um pouco...
EliminarÉ claro que este assunto tem pano para mangas... Eu continuo a acreditar que um (bom) editor é fundamental para ajudar e até aliviar o autor que passa meses ou anos enleado na sua obra. É muito difícil para um escritor desapegar-se totalmente do seu trabalho e isso cria "buracos" na obra, deficiências no fruto ainda verde, então, será importante que alguém como o (bom) editor pegue no livro e proponha as alterações necessárias para que o leitor desfrute plenamente da história, que sinta ( talvez) algumas das emoções que o escritor sentiu na criação. É evidente que o vídeo tem muita razão quando refere que quanto menos notarmos o papel de editor mais eficaz foi o seu papel... Trabalho ingrato este, feito na sombra de tudo e de todos, pois o mais importante será sempre o resultado final: um bom livro!
ResponderEliminarAbraço aos extraordinários leitores, escritores e editores.
Carla Pais
Penso que esse livro do Chatwin foi o último que ele publicou em vida, embora já muito doente. Ele morreu em Janeiro de 89 e o livro foi publicado em 88. Na edição que eu tenho ele assina a Introdução e afirma que todos os fragmentos,
ResponderEliminarhistórias, retratos e diários de viagens foram escolhas dele, com uma única excepção.
Quanto ao trabalho dos editores, e mais concretamente ao trabalho da Maria do Rosário, eu aconselharia a todos os Extraordinários a leitura
da magnífica entrevista que ela concedeu à revista LER.
É mesmo imperdível!
:-) Antonieta
Recomendo também. Recebi a revista e fui logo ler a entrevista. Responde bem à questão do post.
EliminarComecei a ler esse livro do Chatwin, no original há uns anos, mas saí a meio. Volto lá um dia.
Do Chatwin vale a pena ler a sua biografia do Nicholas Shakespeare.
Adorava ler esse livro mas não consigo encontrá-lo em livrarias, penso que está esgotado. Talvez em alfarrabistas, só que na zona em que resido isso é coisa que não existe...
Eliminar:-) Antonieta
Em relação à entrevista à LER da Maria do Rosário já a tinha recomendado no comentário que fiz ao post "Pai a Tempo Inteiro" do dia 7 de Junho.
EliminarSe se referir à biografia, está à venda na wook a um preço muito bom:
Eliminarhttps://www.wook.pt/livro/bruce-chatwin-biografia-nicholas-shakespeare/77478
Eu andei na feira do livro à procura do "Utz". O melhor dele para mim é o "Canto Nómada". Tem-se feito algumas reimpressões da Quetzal: https://www.wook.pt/autor/bruce-chatwin/6933
Obrigada pela informação, Henrique, embora eu não goste muito de comprar pela net, gosto de ver o estado dos livros quando os compro, pois já tive uma má experiência.
EliminarEu tenho o Utz, comprei-o assim que saíu, foi o único livro do Chatwin que chegou à shortlist do Man Booker.
Boas leituras!
:-) Antonieta
Não sei se a propósito: conhecem capas mais horríveis do que as últimas da revista LER?
EliminarCanto Nómada ... um grande livro... aliás todos dele são bons, incluindo o póstumo "Anatomia da Errância". Tenho curiosidade em ler Paul Theroux que escreveu Bruce Chatwin - Regresso à Patagónia. Além de livros de viagem gosto muito de livros sobre viajantes! E Paul Theroux é muito bom nisto... como Javier Reverte.
EliminarSaudações viajativas cá da Morena Cidade.
Não devem ter nenhum designer gráfico da categoria de quem faz a revista EPICUR ou a EGOISTA.
EliminarBelíssima denominação: escritor-viajante !
ResponderEliminarObrigado pela partilha.
ResponderEliminarCuriosa coincidência: estou a ler um livro que é uma resposta possível à pergunta (mesmo sem ponto de interrogação) da nossa anfitriã. Chama-se Dear Scott/Dear Max e é uma compilação da correspondência trocada entre F. Scott Fitzgerald e o seu editor na Scribner, Maxwell Perkins. Cobre praticamente a totalidade da curta carreira literária do escritor (tinha 44 anos quando morreu) e ilustra bem o papel de um editor criativo, expressão que assenta como uma luva a quem nos proporciona estas Horas Extraordinárias.
ResponderEliminarAchei interessante e esclarecedora esta apresentação!
ResponderEliminarO trabalho do editor é deveras pouco conhecido/reconhecido... se bem que ao leitor mais atento este (o editor) surja por vezes referido em muita obra literária, no próprio desenrolar da acção sobretudo quando o narrador é o próprio escritor na pele de um escritor. Nunca deram por isso?
Aqui há dias li justamente o que postou a Cristina Carvalho sobre o tema do editor!
No entanto também me pergunto se não haverá algum exagero, pois não estou a ver nenhum dos autores clássicos e consagrados a serem auxiliados pelo editor da forma que se sugere na peça... diria que o editor como é descrito, é uma criação moderna da fileira do livro, do marketing editorial e afinal para que serve o escritor se a obra precisa de tanto corte e costura?
É uma idéia minha, e claro que pode estar errada porque não tenho essa experiência ou a que tenho é inconclusiva!
Como talvez alguns dos Extraordinários saibam, publiquei em 2010 um romance em dois volumes, e, ressalta-me o seguinte:
a) A única editora que manifestou algum interesse, sugeriu-me logo o corte de algumas "cenas",sendo-me dito que partes havia que poderiam chocar ou ferir sensibilidades! Sendo um livro de aventuras com fundo histórico, contém descrições de batalhas, combates e cenas do género com sangue e violência... mas, porém, todavia, contudo, os cortes sugeridos diziam respeito a descrições de caçadas ou corridas de toiros! Ou seja e como deduzi, a sensibilidade ferida era a da própria, portanto estava a sugerir-me cortes que eu entendi como devido às suas opiniões pessoais e nem tanto profissionais... Disse-lhe que não, pois o espírito do livro era aquele e assim mesmo, recusando fazer qualquer cedência nesse sentido, como resultado acabei por me entender com a Chiado.
b) Depois de impresso e pronto o livro, então sim... a minha experiência de leitor disse-me e fez-me ver a falta de um editor... por muitos erros na forma, na edição, na revisão, etc. Mas que não consegui perceber antes.
Por exemplo, capítulos muito extensos, uma das muitas coisas que um editor me teria apontado e eu aceitaria, aliás fácil de resolver...
Se calhar em vez de dois volumes tão grossos, seriam 3 ...
Etc.
Conclusão - tenho de admitir a falta que me fez um editor, e, foi pena que nenhum a sério se interessasse, mas isso já é outra questão e porque muito provávelmente o romance não tinha qualidade ou não se encaixava na bitola editorial da altura.
Saudações frustradas cá da Cidade Morena!
Brutal! (de bestial!): obrigada pela partilha!
ResponderEliminarPenso que neste caso se refere ao editor de vídeo e não de livros. No caso do vídeo, o editor é o responsável pela «montagem» do filme, em que tem de selecionar as cenas de milhares e milhares de horas de filme, escolher o momento de entrada de uma cena, o ângulo, a duração, etc. Mas algumas coisas do vídeo também fazem sentido para quem trabalha nos livros. :-)
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