Memória e a falta dela
Publiquei há muito um pequeno ensaio sobre a memória, de um professor de Oxford, que dizia que o nosso declínio começa quando nos falta o nome para a coisa; à mesa, por exemplo, pedimos que nos passem o... Pois, o sal, mas não nos lembramos da palavra. Acontece-me nos últimos tempos ficar muito triste por não me lembrar de um livro que li recentemente (embora me aconteça mais com filmes); ter, claro, uma ideia do argumento, mas ainda assim vaga, e já não saber o nome das personagens; de tal modo que por vezes tenho medo de falar desse livro de forma truncada, não vá o meu interlocutor achar que li apenas a sinopse ou as críticas, e não a obra. Já ouvi dizer que a leitura previne ou atrasa a doença de Alzheimer – Deus queira que sim, porque, com a minha profissão, estarei então imune; e, no entanto, não só me faltam os nomes para as coisas há já vários anos (e dos nomes para as pessoas nem é bom falar) como, mais recentemente, esqueço com grande facilidade o que leio, quiçá por ler demais (sim, todos esses livros que acabo por rejeitar e nem publico). Fico, pois, com pena de não ter lido todos aqueles livros importantes que devemos ler antes de morrer naquela idade em que nunca me faltava o nome para a coisa, pois, por mais que tente agora deitar-lhes a mão e lê-los numas férias, a verdade é que sei que não os reterei como seria desejável. E, por falar em férias, na semana que vem não andarei por aqui, lamento. Vou tentar apanhar sol por uns dias longe de Lisboa. E ler, claro. Vamos lá ver, se no regresso, recordo o suficiente para vos contar. Até dia 6!
Bom dia a todos. Exclente destacar este tema a profissão do conceito (diga-se) obedece ajustar boa memória.
ResponderEliminarCom relação a Universidade de 'Oxford' ele destacá-la o prestígio a cátedra.
Bom descanso boa estadia e leituras.
Mas é um facto que esquecemos a maior parte do que lemos.
ResponderEliminarCom frequência volto a reler livros pensando que ainda não os tinha lido, ainda recentemente me aconteceu com MAZAGRAN do excelente J. Rentes de Carvalho.
Às vezes bastam um/dois meses para me esquecer quase totalmente do conteúdo de um livro lido.
Contudo, há cenas de livros que são inesquecíveis, nomeadamente cenas registadas em livros como A LESTE DO PARAÍSO (estou a ver o cágado a descer do passeio para a estrada) e A BATALHA INCERTA do John Steinbeck (em que estou a ver o velho Dan-apanhador de fruta, a dar uma tremenda queda da escada avariada); A FILHA DO COVEIRO da Joyce Carol Oates (aquela estrada infindável por onde se deslocava Rebecca , a filha do coveiro, quando ia para a fábrica), o perfil atlético e os olhos suecos do sueco da PASTORAL AMERICANA do Philip Roth , as descrições tão reais do que são afinal certos aspectos da vida, no excelente diário que é CONTA CORRENTE do Vergílio Ferreira...
Se me permite, a cena com o cágado está no "As Vinhas da Ira" e não no "A Leste do Paraíso". Não julgue que corrijo com algum prazer em apoucar, acho um engano perfeitamente normal, eu próprio me esqueço de livros, personagens e autores com frequência, e, quando os lembro, não é raro misturá-los.
EliminarMelhores cumprimentos,
João.
Obrigado João. Fez bem porque já foi há tantos, tantos anos (era uma criança) que li estes livros do Steinbeck que estava convencido que era em A LESTE DO PARAÍSO.
EliminarLá está o que lemos é das coisas que se esquecem com mais facilidade.
E agradeço-lhe sinceramente a forma gentil e educada como abordou a situação (eu não conseguiria semelhante tal...lá está estamos sempre a aprender, sempre, sempre)!
Realmente cada pessoa que conheço, sabe (neste caso ensina-me) pelo menos uma coisa que desconheço!
Eu é que agradeço os comentários que o ASeverino e todos os demais "extraordinários" aqui deixam todos os dias.
EliminarAbraço,
João.
também me acontece com mais frequência que desejava, nos últimos tempos.
ResponderEliminarOs cinquenta enchem-nos de "prendas"...
Até nomes de pessoas conhecidas me fogem...
ÀS vezes meio a brincar pergunto aos meus botões: «Será que tenho esforçado demasiado a memória?»
Nicotina - única droga que impede o aparecimento de Alzheimer.
ResponderEliminarNestes tempos pós nicotina, lembremos só alguns daqueles que, na 1ª metade do século XX, tanto nos deram com a ajuda da nicotina:
Freud,
Einstein,
Joyce,
Pessoa,
Stravinsky
Picasso
A 2ª metade do século XX, a da destabaquisação, deu-nos algum criador ao mesmo nível?
Reconheçamos benefícios culturais do tabaco !
A verdade é que sem tabaco, somos menos criativos, mas chegamos felicíssimos ao Alzheimer, como se a longevidade fosse tudo.
Seria tão gentil adepto(s) do fumo feito Artur Águas (neste assunto) deixar a verdade exaltar a própria virtude.
EliminarFoi por isso que desde os meus 26 anos (e nessa idade eu retinha muito mais informação que actualmente, que já tenho 45) habituei-me a fazer uma ficha para cada livro. Vou na 476. Não será muito, é verdade, mas são as minhas leituras. E por vezes gosto "de me passear pelas mesmas". Recuperar uma informação, o perfil de uma personagem... Nas fichas não pode faltar o local e o dia em que terminei a leitura nem a respectiva pontuação do livro, circunscrita entre o 1 e o 5. Enfim, são manias...
ResponderEliminarExcelente.
EliminarTambém eu passei a fazer o mesmo mas apenas a partir de 2014 quando, no início daquele ano, me ofereceram um caderno tipo Moleskine que (certamente todos deverão conhecer) a Bertrand tem à venda -é um PLANO DE LEITURA- muito interessante onde se registam os dados mais relevantes respeitantes a cada livro que se lê.
Também já vi o caderninho. Achei uma ideia muito boa, mas como eu já fazia as fichas... E é um exercício optimo, não acha?
EliminarSem dúvida!
EliminarPois eu faço esse exercício desde 2011, no meu blogue. Habituei-me a publicar uma opinião de cada livro que leio. As minha "fichas" são assim virtuais, ambora tenha alguns desses textos em Word. Mas, não estando imprimidos, continuam a ser virtuais.
EliminarUm exercício interessante, sem dúvida, mesmo que pouca gente leia o que publico, pois também o faço para mim. Já dei comigo a clicar aqui e ali, na lista das leituras do blogue, a reler esta ou aquela opinião, a recordar e a surpreender-me (sim, que muitas vezes me surpreende o que escrevi sobre determinado livro, lido há dois ou três anos).
Quanto à memória, sim, com o tempo ela falha-nos. De resto, nunca fui boa a fixar rostos e nomes. Quando dava aulas, tinha uma enorme dificuldade em decorar os nomes dos alunos. E, por vezes, tenho dificuldade em reconhecer pessoas na rua, característica muito ingrata, pois não cumprimentamos e passamos por malcriados.
Curiosamente, sempre fui melhor a decorar números. Quando ainda não se gravavam números de telefone nos respetivos aparelhos, eu decorava-os num ápice. Também datas e coisas assim. E fui-me logo dedicar às letras! Ele há coisas...
Foi no dia 15 de Janeiro do corrente ano que li: "Afonso Henriques - O Homem" ;)
Eliminar...E gostei!
Obrigada, Celeste :)
EliminarCara Celeste, foi uma execelente ideia, só comecei a faze-lo no inicio de ano transato! E bem me arrependo de não ter começado mais cedo!
ResponderEliminarEm primeiro lugar, utilizei as notas da minha página do FB para registar as minhas reflexões sobre o que ia lendo, depois passei para cadernos, também da Moleskine (gosto das cores) e este ano, iniciei um blogue, que serve apenas o propósito de registar as minhas reflexões sobre tudo o que vou lendo.
Não deixei, contudo, de continuar a registar em livro essas mesmas impressões.
Quanto à nossa memória, é verdade, demoro mais tempo a lembrar nomes de pessoas, de livros, de leituras.
Cá em casa existe uma competição saudável, no sentido de vermos quem se lembra primeiro de algum nome (entre mim e o meu marido, claro!)
Há que saber encarar, compensar e não desesperar...
E que belas conversas se têm à volta dos livros! Mesmo que seja na tentativa (muitas vezes vã) de deles se lembrar. Eu, é mais com o senhor meu pai. Foi com ele que aprendi primeiro o gosto pelos livros e pela leitura. Era de mão dada com ele, que bem pequenita, eu ia para o largo da igreja esperar a carrinha da Gulbenkian! E que festa que aquilo era! Entregar uns, levar outros... Nessa altura eu não apontava (logicamente) as minhas leituras. Mas sei tudo o que na altura li. E sabe porquê? Porque o meu pai apontava. Ele... também lia os meus livros.
EliminarIa aqui escrever qualquer coisa e, de repente, esqueceu-me o que era...
ResponderEliminar... ...
Ah! Já sei: era sobre aquilo da memória e da falta dela.
Pois: era para aconselhar aquele medicamento que o Dr... Ai, como é que ele se chama?... Dr...?
... ...
Bom: para o caso não interessa. O que interessa é que ele próprio, que já passou dos oitenta, diz que toma aquilo desde os quarenta e a memória dele está ali para as curvas.
Ai, como é que se chama o medicamento?... Ando a tomá-lo há mais de um ano e, vá lá, pelo menos a coisa não piorou. Parece-me.
Só não me lembro da marca, mas isso é das tais coisas, que não sou médico para ter de me lembrar das marcas dos remédios...
... ...
É aquele da caixinha azul... Aquele que tomo de manhã e antes de jantar...
Chama-se...não sei quê terminado em ion ... tátátá ion ...
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Isto é do calor. Esta caloraça atira comigo abaixo. Não tenho memória de uma caloraça assim.
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E então o médico aconselhou-me também exercícios físico-respiratórios .
De manhã, enquanto espero que chegue água quente ao chuveiro, faço umas flexões e umas respirações tipo inspirar fundo pelo nariz/reter/expirar fundo pela boca. Ao longo do dia, mais ou menos de hora a hora, levanto-me da cadeira e vou ao ar-livre fumar um cigarro, esticar as pernas e inspirar/expirar umas poucas de vezes. E depois de jantar lá vou eu soltar os cães e fazer uns exercícios a puxar pelos músculos, esticar, contorcer, etc , sempre a inspirar/expirar.
Isto ajuda a limpar os pulmões, oxigena o sangue e complementa os efeitos do tal Sermion 35.
... ...
Mas eu não estava a tentar lembrar-me de não sei quê...?
Bem: não importa.
Dizia eu que o importante é contrariar o sedentarismo.
O problema é quando faz assim calor lá fora...
Está tão harmoniosa a sua escrita:)
EliminarAhahahah!
EliminarExtraordinário Joaquim Jordão
EliminarDesde aquele texto sobre o chefe sapo (há muito tempo) que tenho muito atenção no que escreve, e hoje mais uma vez gostei imenso.
Tenha cuidado com...com ...já sei...com o calor!
Isabel
Grato pela sua atenção.
EliminarMas deixe-me aproveitar para - antes que me esqueça - dizer que o problema é mesmo esse: o calor.
É que eu bem não me tenho esquecido de regar o pátio dos sapos todos os fins de tarde, mas o facto é que eles deixaram de aparecer desde que se instalou esta caloraça , que até de noite é incómoda.
Espero que não haja problemas de maior com eles.
É que eu bem vejo que a caloraça perturba a bicharada toda: os gatos, os cães, os sapos...
Nesta circunstâncias, eu fico acrescidamente perturbado - e depois tenho aquelas falhas de memória...
Que seja descanso autêntico. Apesar de ser leitora mais ou menos assídua, se a minha profissão fosse ler - boa profissão, sem dúvida - nas férias leria pouco. Talvez nada. E viva a diferença!
ResponderEliminarPor acaso também já dei comigo a pensar que deveria ter lido alguns livros na idade em que seria capaz de recordá-los por inteiro e por muito tempo. Mas calhou-me lê-los na velhice, o que é uma sorte. Mesmo que passada uma semana apenas uns restos a esvoaçar-me na cabeça.
Não façamos grande caso das partidas da memória. Pertencem. Temos de viver com elas. Os nomes que não vêm agora virão depois. Esse é o esquecimento normal, que faz parte do que agora somos. E não é Alzheimer.
Já o fiz na caixa de comentários de outro post, mas faço-o também aqui, por ser o mais recente: já está publicado o segundo texto sobre HH escrito pelo Álvaro da Horta no Sed Contra. Como o primeiro foi lido por algumas das pessoas que por aqui passam, fica a novidade:
ResponderEliminarhttp://www.sed5contra.blogspot.pt/2015/06/sed-contra-crianca-tolinha-2.html
Eis o primeiro parágrafo:
Diz-se algures, numa parte do mundo que só importaria saber qual era se alguma coisa importasse, que uma criança tolinha só dá em poeta se ao gugu dadá com que escreve o primeiro poema lhe responder quem lho ler com o gugu dadá de volta que o incentiva a escrever o segundo. Quando a criança tolinha que Herberto Helder é – e que o seja foi retrato que os pincéis do raciocínio deixaram pintado no primeiro texto – escreveu o seu primeiro poema, qualquer criança tolinha lhe terá dito, portanto, que continuasse a ser criança e a ser tolinho. Assim encorajado, deu pois em continuar. O segundo, o terceiro e o quarto poema devem ter excitado tanto as partes às crianças tolinhas a quem os deu a ler como o primeiro, pois não tardou que fosse aclamado por uma multidão delas. E em pouco tempo, por qualquer razão que estará escrita onde estiver escrito o mistério de tudo, tínhamos uma criança tolinha laureada e um meio literário de crianças tolinhas aos berros, pedindo mais poemas com que, humedecendo-as, pudessem dar lubrificação à berraria por que mantêm a fama.
Cumprimentos,
Francisco Lacerda
Bom post, adorei ler.
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