Autores brutinhos
Conta-se muita coisa acerca dos autores, sobretudo dos que já morreram e não podem contradizer as histórias e lendas à sua volta. Custa a crer que quem escreve certos livros tão bonitos possa, por exemplo, escarrar num lenço diante dos alunos numa sala de aula, mas isto mesmo me contou o meu irmão que fazia um grande escritor já falecido, seu professor de liceu nos anos da Revolução. (Se não adivinharam de quem falo, dispenso-me de vos desmanchar o boneco.) Também me disse um amigo do Manel, que conheceu pessoalmente Torga nos seus tempos de Coimbra, que não sabia como conseguira ele escrever bonito como escreveu e engatar uma francesa, tão avaro e brutinho era. Pois eu só conto o que me contam, mas sei de uma história muito gira que mete José Régio e Aquilino Ribeiro e na qual o primeiro, pouco depois de ter publicado o seu romance autobiográfico A Velha Casa (título que muitos acharam levemente pomposo), foi à Livraria Betrand do Chiado, à porta da qual estava plantado o segundo, que era, nesse tempo, uma autoridade nas letras deste país. Parece que, ao ver chegar o poeta, que até era baixote ao pé dele, Aquilino lhe terá dado uma boa palmada nas costas e perguntado, irónico: «Ó Régio, afinal, a velha casa ou não casa?» História engraçada esta, sem dúvida, tal como a do escritor, menos famoso do que os anteriores, Mário Braga que, partilhando com o muito franco (e algo bruto) Joaquim Namorado a narração demorada de um episódio a que assistira, concluiu dizendo que aquilo dava um romance. Ao que Namorado imediatamente retorquiu: «Ai dar, dava, mas por favor não o escreva.»
podia-se escrever um livro de "má língua" (e muito humor) com todas essas histórias, que nunca sabemos onde começa a realidade e acaba a ficção. :)
ResponderEliminarIa o Cesário pela rua, passa um engraçadinho:
ResponderEliminar- Olá, Cesário Azul!
- Adeus, troca-tintas!
E na sequência de uma polémica entre Lobo Antunes e Vergílio Ferreira este assentou-lhe a seguinte canelada:
ResponderEliminar-"Há dias um sujeito patusco chamado Antunes (Lobo para assustar e António por falta de imaginação) dizia que entre nós certos intelectuais só conheciam Sartre e Malraux , mas não faziam ideia de quem fosse Nabokov . Que doçura cabotina..."
Não acredito que Ferreira não conhecesse Nabokov, mas suspeito que não teria apreço por ele. Nabokov, o estilo dele, cerebral mas cómico e deleitoso, nunca foi do agrado de escritores portugueses, secos e sisudos.
EliminarPorém é estranho que Lobo Antunes usasse esse escritor para mandar outros abaixo, ele que fala tão mal de Nabokov. Mas Lobo Antunes tem gostos muito inconstantes, tanto diz bem como insulta, como se não tivesse memória (ou pensasse que os leitores não a têm) ou como quem não quer saber de coerência.
Não referi mas refiro agora - Vergílio Ferreira sobre a questão acrescentou:Mas toda a gente leu a "LOLITA" pelo menos.
EliminarO trocadilho de Aquilino foi maravilhoso. Gosto sempre de ouvir anedotas sobre ele. O Régio, como os outros presencistas, criticavam-no por ser demasiado académico, formal e rígido. Para Régio ele escrevia "literatura livresca" por oposição à "literatura viva," por isso devia haver despique entre ambos.
ResponderEliminarClaro, o termo 'brutinho' o modo a ser civilizado.
ResponderEliminarQuanto a Lobo Antunes, continua máximo.