Literatura urbana
Disse recentemente numa entrevista que as literaturas portuguesa e brasileira actuais têm muito pouco em comum – e que os escritores mais jovens do Brasil tendem a falar do quotidiano violento e da vida nas cidades, enquanto – abreviando, claro – os seus congéneres portugueses não raro recuam a outros tempos e centram a acção dos seus livros no meio rural. Acabo, porém, de lançar um romance, A Vida Passou por Aqui, que constitui uma boa excepção. Quem o assina é o jornalista do Público Luís Francisco, que constrói na cidade de Lisboa e arredores uma história que reúne muitas personagens maravilhosamente distinguíveis nas suas vozes e cujos laços mais ou menos apertados vamos compreendendo à medida que as páginas avançam e os nós afrouxam. Um motorista de táxi, uma empregada doméstica, um jovem arquitecto, a telefonista da Radiotáxis, um toxicodependente, uma falsa universitária e muitas outras figuras deambulam pelo romance aparentemente sós, mas estão irremediavelmente ligadas por um destino comum – e a atitude de cada uma influenciará decisivamente o futuro de todas. Com uma montagem irrepreensível, esta é uma boa estreia na ficção de alguém que se dedica a escrever diariamente sobre a realidade.
Imagino que o sucesso de A Cidade de Deus e BOPE tenha transmitido, aos escritores Brasileiros, a mensagem de que esse seria o caminho para a internacionalização. Já nós olhamos para os exemplos de sucesso de escritores do passado Português. Não há muito a dizer sobre isso. Prefiro falar de histórias com excesso de relações cruzadas, oh what a tangled web we weave! Aqui há uns anos, toda a gente delirou com o filme Colisão que inclusive chegou a ganhar o Óscar de melhor filme. A história trata de racismo e mais não sei o quê. O problema é que criam vinte personagens, atiram aquilo tudo para dentro de uma improvável tombola de monocromatismo existencial, temperam com uma vizinhança ridiculamente coincidente e acham que criaram uma grande história. Na vida real já é difícil arranjarmos quatro pessoas que pertençam a uma tal teia de coincidências, quanto mais vinte... posso estar a ser parvo, mas esse tipo de história macaca irrita-me profundamente.
ResponderEliminarPor mim, fica desculpada alguma parvoíce por troca da manutenção da assinalável vivacidade dos escritos. Força, Courinha !...
EliminarCuriosamente, o livro que estou a ler intitula-se "Outra Vida" e é de um jovem autor brasileiro: Rodrigo Lacerda. E é urbano, sim. Nunca tinha pensado nessa diferença mas, agora que fala nisso, tendo a concordar consigo. O que não é, certamente, desprimor para nenhuma das partes. Qualquer que seja o contexto de um romance ele pode ser excelente ou uma grande porcaria. Tudo depende do talento de quem o escreve...:)
ResponderEliminarPor sinal, estou a gostar bastante do "Outra Vida", apesar ( se calhar, por isso mesmo...) da enorme ansiedade que cria.
E fiquei curiosa sobre esse livro que fala. Prometo, ainda hoje, espreitá-lo, com atenção, na livraria.
Interessante, leio e releio este comentário, o que prende a reflexão - a questão do talento, citada pela estimada ana b. Aos que perseguem escrever, as vezes ocorrem injustiças, há bons escritos, outros nem tanto e disputam por reféns no meandro da complexa e frágil sociedade, que também desafia continuidade. Talvez, sintoma de quão a cultura envelheça e é assim, para a história. Devendo estar alerta o que é sintomático a não cobrar-se resultado, pois representaria castrar a criatividade.
EliminarMuito bem definido o cenário de um Brasil violento em grandes centros, porém emprestada cultura norte-americana, exemplifica o que são regras de mercado que amealham para o consumo, assedio e pressão. O fluxo de títulos estadunidenses no Brasil impressiona. Dia desses em uma livraria, já de bastar o nome Book Store, a competitiva em torno das letras, descrevia a impressão de estar em Times Square, porém, a humilde livraria em parcos títulos nacionais salvara um Humberto Eco para defender alguma citação européia...
ResponderEliminarUma elite intelectual por duvidar, é facto. No entanto a maioria, o povo, quer muito ler, e responde um dedicado volume em compras (literatura) de Auto Ajuda, na certeza do amparo do digno “saber” defender-se.
Não conheço os contemporâneos brasileiros, por isso não digo nada, MAS aquilo que diz MRP parece fazer todo o sentido! Ao contrário do Courinha , acredito mais que os exemplos citados sejam mais um reflexo da citada violência.
ResponderEliminarNos portugueses... conheço meia-dúzia e não estou lá muito de acordo com a "ruralidade" da sua escrita. É uma falsa ou aparente ruralidade que até parece ficar bem, as pessoas têm de ter e ostentar raízes, de dizer donde vêm.
Há referências sim, mas imaginadas, repescadas das férias nos avós... nenhum deles nos fala de uma ruralidade actual porque a não conhecem e nem fazem idéia de como se vive em Moura, Amareleja, Medrões , Nelas, Porto da Raiva, Candemil ou S. João da Pesqueira. Tão pouco sabem o que se pensa ou como se vive aí!
Compõem apenas quadros entrevistos nalgum fim de semana ali passado e como imaginam que será ou seria com eles.
Os próprios jovens oriundos dali, o que fazem é virar costas e fugir dessa ruralidade, querem mostrar que já se abriram e conhecem o outro Mundo, não resistindo a escrever sobre ele.
Conhecem algum romance, recente, passado numa pequena vila ou cidade do interior? Que nos fale do dia-a-dia e das relações? Daquilo que as pessoas sentem e anseiam?
Se houver, é uma daquelas edições com editoras secundárias e pagas pelo próprio, que não circulam a não ser entre amigos... pois nem sequer as editoras de vulto os aceitarão, andam à procura de outras coisas consoante a onda do momento, e os livreiros querem best-sellers pré garantidos!
Quanto a este, fiquei com as orelhas no ar, pois gosto de uma boa história COM e SOBRE pessoas seja na Amadora ou na China...
Apesar de tudo a nossa ruralidade está a pouco mais de meia hora de caminho, mesmo se medidos a partir do Terreiro do Paço para o mais empedernido dos lisboetas. Já no Brasil, para encontrar lavoura arcaica partindo da Avenida Paulista ou do Flamengo...
EliminarPermita-me discordar meu Caro Paulo Oliveira.
EliminarA distância à nossa ruralidade, entendo eu que não pode ser medida assim, em meia-hora ...
Essa meia-hora é devida à proximidade física e aparente, como se barreiras não houvesse, mas há e muitas... geográficas, folclóricas, etc.
Multiplique a meia hora na função da nossa área por comparação ao Brasil, e verá que a distância aumenta muito mais. Mas sim, percebo o que quer dizer... ressalvando que tem a ver com o tamanho do país!
Depois a distância que separa o nosso Mundo rural do urbano, não depende do tempo em percorrer a distancia do acesso viário. É uma distância cultural e grande. Tem a noção disso?
Dessa aparente proximidade, da meia-hora que os separa, resultam sobretudo falsos rurais e falsos urbanos, compreende? É o que mais há.
Afinal uma perda de identidade, e pessoas infelizes, porque ou se é rural ou urbano.
Há que fazer a escolha.
Não digo isto porque advogue alguma forma de cisma, ou por sentimentos de hostilidade, não... apenas porque sei o que é uma e outra coisa.
O homem da aldeia na cidade, tirando talvez o autoproclamado Vitorino, é um personagem de teatro, tal como o contrário... não sou contra o teatro, mas acho que devemos acabar por ser o que somos e na pele em que nos sentirmos bem.
Eu já descobri a minha...
Um grande abraço!
Estimado Oliveira, Ariano Suassuna é da maior expressividade literária, e lavoura arcaica em termos de Brasil, significa regionalismo. Contrapartida as regiões do continental país concorrem leitores aos heróicos americanos, haja capacidade. Acertada é vossa opinião ditam regras os editores paulistas e cairocas.
EliminarEstimado Pacheco, é de minha modesta opinião, vos com seus sentidos para caça aplicados em um romance urbano, em nada surpreenderia por inflamar até o mais apagado ser, concorrendo pela ancestralidade da natureza humana que busca, destes contrastes viver, conviver e sobreviver, até porque diga-se do urbano, uma selva de pedra.
EliminarMinha Querida Amiga:
EliminarExtraordinárias palavras: "...ancestralidade da natureza humana que busca, destes contrastes viver, conviver e sobreviver, até porque diga-se do urbano, uma selva de pedra." (Sic.)
Uma vez mais a sua sabedoria vem ao de cima!
Faço-lhe uma vénia, não teatral, verdadeira!
E grato pelo seu voto de confiança no meu potencial de escrita.
Caríssimo António Luís Pacheco:
EliminarO Brasil tem jovens autores cheios de talento. Assim, de repente, recordo-me de, no último ano, ter descoberto uns 3 ou 4. E todos muito bons: a Carola Saavedra ( "Flores Azuis"; "Toda a terça") , o João Paulo Cuenca ("O unico final feliz para uma história de amor é um acidente"), o Ricardo Lacerda, de que falei, e, o Mario Sabino que escreveu o livro que mais gostei de ler no último ano: "O dia em que matei o meu pai". Adorei este livro! É simplesmente, soberbo!! Permita-me que o recomende. Tenho a certeza que não se vai arrepender. É excelente!!
E certamente que muitos outros existirão...
Grato pelas sugestões... João Paulo Cuenca é o único que conheço... vou-me aplicar!!!
EliminarMuito obrigado, Cláudia. Já estive até em Caruaru , mas não conhecia Suassuna, nem o seu Movimento Armorial. Agora já wikiconheço .
EliminarCostumo visitar este blog, mas deixar comentários é raro - infelizmente não tenho uma costela à Nuno Rogeiro que me permita conseguir comentar diariamente tudo o que aqui é «postado». Mas hoje não posso perder a oportundade de sugerir um autor português «não-rural»: Pedro Garcia Rosado. Experimentem!
ResponderEliminarParece interessante.
ResponderEliminar(...)
A literatura brasileira difere da nossa nesses aspectos "urbanos" porque eles convivem diariamente com violência. Se não é à porta de casa, é pela televisão, rádio, ou net.
Já cá em Portugal, um louco de Beja que mata três familiares, já nos choca demasiado.
Eu não estou a dizer que não é chocante, é chocante em qualquer parte do mundo, mas experimentem a realidade brasileira e depois digam qualquer coisa.
Já o filme Colisão, não falem mal desse filme, porque é das melhores coisinhas "urbanas" que assisti nos últimos anos. Uma história muito actual, real, interpretada por grandes actores e actrizes.
Estimado Lopes Saudade, se por diferença Ocidente e Oriente, diria que literatura é igual no mundo inteiro, pois nasce da necessidade humana e floresce por regras de domínio, no entanto são as tendências o melhor suporte para evidenciar a cultura de cada povo que oscila entre o sensasionalismo e a capacidade de superar esforços no sentido de manter as rédias firmes para educação.
Eliminarrédeas*
Eliminar"O escritor brasileiro tem que ouvir o Brasil."
ResponderEliminar(Jorge Amado)
Quanto a nós, acho que temos de ler o Luís Francisco antes de o julgar...
questao de vida ou de morte
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Categorias como rural e urbano não parecem hoje mais fazer sentido em Portugal. O mundo rural mesclou-se com a cidade. Não encontro hoje qualquer romance português que se ancore nesse tal mundo rural, ou melhor, esse mundo rural já não tem o sentido mítico que lhe pretendem dar. Assim à toa não se pode dizer que Myra de Maria Velho da Costa que se passa também em zonas rurais seja um romance rural, muito longe disso. Talvez quem melhor trabalhe o hibrido em que se transformou a provincia portuguesa seja o romance de H.G.Cancela, De Re RVSTICA. Mas não vejo em Gonçalo M.Tavares, em Jacinto Lucas Pires, em Rui Nunes, em Alexandre Andrade, em Teresa Veiga, em Pedro Paixão, em Lobo Antunes, na grande maioria da obra do Saramago, em Mário de Carvalho, em Mário Cláudio, ou mesmo num Rentes de Carvalho, e por aí fora, quase nenhuma relação com essa ruralidade arquetipica, que, como digo, já praticamente não existe. O mundo de Torga, de Aquilino ou de Redol já não faz parte deste mundo. Desapareceu. Foi esvaziado pela fuga para as cidades e trinchado por vias rápidas.
ResponderEliminarDiscordo muitíssimo meu caro J.U .
EliminarComo disse antes, o que mais há são falsos rurais e falsos urbanos... e nisso concordamos.
Mas, ainda há um Portugal rural, pode crer que sim. O que está é calado, pois não quer atrair as atenções, porque foi declarado obsoleto, e querem a todo o custo extingui-lo aqueles que quiseram e querem fazer de nós finlandeses ou alemães. O ICNB está para eles como a ASAE para as actividades tradicionais, para mão falar de comentadores de jornais e tv ...
Mas temo-nos mantido, pode crer! Ainda existem e julgo que com a dita crise, vão até crescer...
Os romances... pois julgo que os não há porque não são moda e talvez as editoras não estejam interessadas numa casa mourisca sem que esta encerre um mistério qualquer de que dependa a sobrevivência da raça humana, ou de umas pupilas que não sejam vermelhas de caninos salientes, e menos ainda numa menina dos canaviais que não seja altamente depressiva! Um agricultor robusto e bem disposto, castiço e amigo do copo e petisco é coisa que não vende e nem sequer é política e socialmente correcto!
Sei quiser apareça por aí que eu mostro-lhe uns quantos...
Um abraço cá do campo! Olhe amanhã vou fazer uma feijoada de cabeça de porco fumada e há vinho novo... se quiser...
A questão não era propriamente essa mas a de se subentender no post da Rosário Pedreira que a nossa literatura recente era dada para a ruralidade. Mas a nova ruralidade é vinha industrializada, turismo rural, etecetera e tal. Não que certos espécimes mais arcaicos estejam completamente extintos, mas mesmo esses vivendo humildemente assistem à telenovela e os mais abastados andam de jipe, usam a internete e frequentam a cidade mais próxima. Trata-se de um outro mundo rural, que já pouco tem a ver com uma certa imagem mítica do mesmo. A questão no romance ou na ficção nunca é o contexto, se é rural, urbano, um híbrido de ambos ou uma toca como em Kafka.
ResponderEliminarSim, compreendo agora melhor o que quis dizer.
EliminarE nesse contexto tenho de concordar!
O que não significa que o Mundo rural esteja extinto, mesmo o que anda de jipe ou porque anda de jipe... ou vai de férias a Varadero.
Não está... apenas se criou esse mito, que surgiu nos anos 80 com a adesão à UE e a tal tentativa de o matar, que rural=tosco/boçal etc.
E por puro desconhecimento... do meu tio trisavô José Rodrigues Cirne Pacheco, da Casa Cimeira que ainda hoje existe no Douro, tenho o seu Ulysses Nardin que ele comprou em Geneve, ou do meu tio-bisavô José de Pina Carvalho, de Portalegre que participou como expositor na Grande Feira Mundial de 1889, tenho a medalha que o comprova! Eram rurais...
Nos anos da modernização forçada que se iniciou no Cavaquismo e seguiu até Sócrates, quis-se sempre obliterar essa realidade... o rural é atraso! Não é! E nunca foi!
É isso que eu refiro.
Porém, para os literatos e gente da cultura, o rural continua a ser um estereotipo... hoje é o jipe, e é errado! Não é... embora pareça que é.
Porque podemos ser rurais e andar de Saab, ir na mesma à internet e frequentar este blog, ou falar com o vaqueiro por telemóvel (se houver rede, mas ele já sabe onde a tem...), sem que que a ruralidade se perca, porque ruralidade não é viver mal, ser atrasado e nem rude.
Acredite em mim, e não vá em clichés...
Um abraço cá do campo.