Borges disponível
A Teorema e o Círculo de Leitores lançaram há anos umas Obras Completas de Jorge Luis Borges em quatro volumes cartonados, nada fáceis de encontrar nos tempos que correm. Tinham, além disso, o senão de serem pesadotes para os lermos na cama confortavelmente. Mas eis que um autor que deve estar sempre disponível para os leitores de todas as gerações está de regresso aos escaparates pela mão da Quetzal – e agora em pequenos livros leves e discretos que se podem meter na pasta e ler em viagem de comboio ou autocarro. Os primeiros títulos são O Livro da Areia, com tradução de António Slaber, e História da Eternidade, vertido para a nossa língua pelo competentíssimo José Colaço Barreiros. Mas crê-se que o resto venha aí de tantos em tantos meses para deliciar os que nunca cheiraram o escritor argentino e encantar de novo, pois claro, os seus admiradores de sempre.
Mau Maria! Outro post sobre um tema que desconheço! Isto assim não dá! Como tal, e sendo eu mais multifacetado do que uma pastilha elástica mastigada no bolso do Macgyver, falarei sobre "livros grandes e a sua leitura na cama", flagelo que assola o mundo desde tempos imemoriais. Na última feira do livro encontrei qualquer coisa que me atormentava o espírito há vários anos, uma obra que diminuía o meu status de individuo de extraordinária cultura, por não se encontrar entre aquelas que devorara, "O Orlando Furioso". Não um Orlando qualquer, mas furioso, traduzido para português e mantendo todas as caricias rítmicas que Ariosto nos pretendia prodigalizar. Fiquei tão contente quanto a autora da tradução deve ter ficado esgotada. Peguei no livro, terminei a cerveja de um litro, daquelas que vendem nas barraquinhas das bifanas e voei para casa. Chegado ao meu castelo, como bom adepto de anti-depressivos e ansioliticos, meti-me imediatamente na cama, iludido com a imponderabilidade do tomo. De barriga para cima, coloquei o livro no peito, só para este se me enterrar no esterno como um qualquer manual ígneo de arcaicos suplícios. "Raios partam este trambolho mal jeitoso!" vociferem numa voz arrastada, cortesia do meu companheiro Victan. Passava as páginas com temor, ouvia-as ranger de encontro ao lençol, num estrépito que ameaçava censurar a destemida lança de Reinaldo de Montalvão. Virei-me de lado, caiu aquela capa mais bonita que forra uma mais feia. A novos raios foi solicitado que partissem. Tirei a dita capa, pus um pé de fora por motivos de aclimatização e prossegui. Tudo correu bem enquanto lia a página que, naturalmente, se encontrava num plano perpendicular ao do meu colchão ortopédico que custou os olhos da cara. A página terminou e com ela o meu conforto. Duas opções se me apresentaram de forma inexorável, ou me virava para o outro lado, exercício que teria que ser repetido pelo menos oitocentas vezes, ou fazia uso dos meus franzinos bíceps para suspender, sem cabos, fios, ou jogos de espelhos, tão portentosa obra. Passei mais de uma hora neste lindo preparo, contorci-me, suei, praguejei e padeci de terríveis cãibras. Quando nada o fazia esperar, saída de algum confluxo de genialidade perdido no tempo, uma ideia brilhante aflorou-me o espírito, a resposta para o meu sofrimento de homem sequioso por boa literatura. Levantei-me da cama e fui para o sofá.
ResponderEliminarCom esta prosa estou quase tentada a ler o seu livro, isto é, se me garantir que o meu conforto na cama não se encontrará ameaçado...
EliminarIsabel
HAhahha, a prosa foi só porque não tinha nada para dizer! O meu livro é pequeno, tem só 220 páginas, acho que não lhe provoca nenhuma luxação!
EliminarIsabel, leia que vale a pena, acabei ontem de o ler e entusiasmei-me.
EliminarSim? então vou pôr na lista das minhas leituras (já são dois os livros que quero ler destes amigos "extraordinários", este e o do amigo Pacheco!).
EliminarObrigada Aseverino.
Isabel
AI, Ai, Ai!! Então a prosa é só porque não tem nada para dizer??!! e as 220 páginas ? não me diga que é uma espécie de "falam, falam mas não dizem nada!"
EliminarIsabel
Segundo o que está escrito na parte de trás do livro: "Frederico Garcia ou Existência Inacabada" conta a história de três amigos da província, das suas vidas, dos seus percursos distintos e fundamentalmente de três naturezas divergentes. Através dos olhos de Frederico podemos avaliar várias formas de percepcionar a existência de cada um, as suas tristezas, alegrias, objectivos, segredos, sonhos e vícios secretos.
EliminarA obra pretende ser uma experiência libertadora, pretende mostrar ao leitor que não está amarrado a absolutamente nada, que é dono das suas acções, dos seus mais íntimos devaneios, das suas ideais mais dementes.
O sr. Severino aqui do blog, impiedoso crítico, gostou do meu livro e a tia Rosário acha-o bastante versátil para equilibrar mesas de esguelha!
EliminarEu sabia que afinal tinha coisas para dizer!!! (tinha sido brincadeira obviamente), deixe-me dizer-lhe que já havia feito uma pesquisa no google para "espreitar" o seu livro...
EliminarBom fim-de-semana!
Isabel
O livro do João Courinha está na peugada doutros jovens escritores portugueses, tais como Afonso Cruz (Os livros que devoraram o meu pai), David Machado (Deixem falar as pedras), Rui Cardoso Martins (Deixem passar o homem invisível), sem esquecer o enorme Gonçalo M. Tavares (e o excelente Matteo perdeu o emprego), gostei muito dos livros que citei tal como gostei do livro do João Courinha, outro jovem escritor que só o segundo e terceiros livros poderão confirmar o primeiro, como diria Vergílio Ferreira.
EliminarOlha, olha! O sr. Severino a pôr-me no saco com pessoal de 42 anos! Mas que história vem a ser essa, eu não uso Revitalift de L'Oréal, isto é tudo juventude!!
EliminarO livro Frederico Garcia (parece inspirado no meu amigo Manuel Garcia dentro de quem também coexistem diversas "bestas") não sei a quem ou que se possa comparar!
EliminarHá o género urbano-depressivo, parece... será que ele vai criar o rural-depressivo ?
Quanto a mim é pouco espesso para equilibrar móveis, mas o bastante para desequilibrar sensibilidades! Porque fala de sensibilidades, e de coisas bonitas ou feias, boas e más mas que são sobretudo humanas vulgares, sem precisar nem de heroísmo e muito menos do anti-heroísmo que é tão caro a uma corrente contemporânea mas que me parece exibição auto flagelante de uma cobardia que incomoda quem assim escreve e que ao expô-la tenta livrar-se dela. Não é de todo o caso, neste livro há mais do que coragem ou valentia, generosidade! E fala de coisas que nos são próximas, que conhecemos de todos os dias, seja dos jornais seja daquilo que se passa à nossa volta na vida real, que podemos por isso sentir como as nossas mesmas, porque todos já passamos por sensações ou actos assim.
A história é no mínimo surpreendente na forma como se desenrola e decorre. É francamente bem construída e inesperada pela maturidade e as idéias que contém, apesar de se notar alguma imaturidade inicial que até fica bem e dá uma espécie de frescura, ou de outra forma faria dele um dramalhão pesado. O desenlace ainda é mais extraordinário... e no mínimo Hollywoodesco mas pela positiva.
Quanto a mim está muito bem escrito, por alguém que se exprime bem, com clareza, que sabe ver e descrever, num estilo muito vivo e com graça, apimentado, cru e finamente humorado, irónico... um estilo à Courinha , direi,
que se lê com prazer.
Não sou crítico e nem literato, repito e já o disse aqui uma data de vezes... mas sei o que leio e do que gosto, e já li o bastante incluindo obras tidas por de qualidade.
Só lamento que "As inexistências inacabadas" tenham sido editadas como o foram em vez de terem caído na mão de quem deviam... mais uma pérola que fica fechada na concha!
Estimo que alguns dos nosso companheiros extraordinários arrisquem e leiam... talvez lhes custe a entrar... porque de início parece assim como que uma história infantil... mas sigam e terão uma surpresa porque como os bons vinhos esta livro tem um excelente final de boca!
Saudações do campo!
Nem imagina o contente que fico! Eu gosto muito de escrever sobre emoções e natureza humana, a componente Hollywoodesca foi a forma que arranjei para tornar o livro mais inclusivo, ou seja, uma exposição pura e dura seria passível de aborrecer um grande número de leitores (provavelmente até o escritor!), mas assim apimentada já entretém sem distorcer a mensagem! Sinto-me realizado por lhe ter conseguido oferecer umas horas bem passadas!
EliminarSubscrevo tudo o que o A.L.Pacheco escreve (do campo), a única coisa de que não gostei no livro do Courinha (e já tive oportunidade de o referir ao autor, foram aquelas citações em Inglês e em Francês, talvez aqui se revele a tal imaturidade, penso eu).
EliminarPela exposição de MRP vale ressaltar que aqui no Brasil, algumas editoras adotaram redimensionar clássicos, oferecendo mais volumes, e que este passa a ser caminho, para novos leitores em não afugentá-los ao número de páginas. Contrapartida as universidades também, estão na febre de publicarem obras completas, que despertem a curiosidade ao estudo, pois a editora Unesp lançou a completa da chinesa Yu Xuanji. Interessante outra circunstância que assume o gosto popular brasileiro é o alfarrábio, inclusive de línguas estrangeiras, onde é possível encontrar o que dizem ser raridades.
ResponderEliminarO que toca da leitura na cama, seguramente não é hábito nativo, até pela característica tropical.
responde o chamado foco de mercado.
EliminarPor onde Borges ficou conhecido e respeitado? Universidades do sul do Brasil, tanto que da obra ainda teve o topete o sr. Paulo Coelho, publicar um livro bem fuleiro, diga-se do Aleph Borgeano. Se é popular é outra situação, li e ficou o sabor de mau gosto, nada comparavel à Borges.
EliminarAcrescento em reparar que Borges fora escritor muito premiado o que de facto o tornara conhecido, porém a difusão foi via sul, pois esta é uma característica brasileira na resitência de assimilar a cultura argentina. Reparando também, pela honestidade em dizer que li o Paulo, pois não deu para finalizar.
EliminarA Claudia é Brasileira? Deve-se estar bem aí, cá está um gelo desgraçado e chuva nada! Cumprimentos para esse lado do oceano.
EliminarFuleiro terá a ver com o novo acordo ortográfico? ou terá a ver com fulo?
EliminarCumprimentos Courinha, é tempo firme, calor de 32º na costa esmeralda.
EliminarCumprimentos ASeverino
EliminarO acordo ortográfico respondam vocês, afinal a língua portuguesa é vosso patrimônio.
Mas, Paulo Coelho acadêmico de letras brasileiras é nosso patrimônio e o livro Aleph é fulo.
Calma pessoal não briguem, afinal de contas somos todos pobres.
EliminarÓptima notícia. Adoro Borges, adoro mesmo!
ResponderEliminarUm grande escritor que ainda tinha uma costela portuguesa...