Ler, escrever, ler e reescrever
Rui Zink é, além de escritor, professor universitário – e passam pelas suas mãos muitos estudantes que querem fazer carreira na edição (a Madalena, meu braço-direito cada vez mais indispensável, foi sua aluna de mestrado). E, apesar de ter uma imagem pública que se associa facilmente à paródia, à irreverência e à má-língua, diz coisas muito sérias que devem ser tomadas em conta sobretudo por quem escreve e deseja ver os seus textos publicados. Recentemente, deu uma entrevista muito interessante à revista Maxim (e eu que pensava, passe o preconceito, que estas revistas não tinham nada que ler) em que se colocava na tradição dos escritores portugueses que são simultaneamente criativos e críticos e que, portanto, fazem primeiro a parte criativa e a seguir são críticos de si mesmos, ou seja: escrevem, lêem e... reescrevem, pois claro! Provavelmente, para a maioria dos leitores, este percurso seria o normal, mas a verdade é que a ânsia de ver a obra nos escaparates e um certo amadorismo ou inexperiência impedem, frequentemente, o distanciamento necessário à autocrítica e à reescrita de textos que só lucrariam com esse segundo olhar atento e impiedoso e as consequentes tesouradas. Outra boa tirada de Zink: para escrever, é preciso ler muito primeiro. Totalmente de acordo.
a derradeira citação é, creio eu, de concordância unânime; mas até que ponto o facto de se ler muito antes de escrever influenciará inexoravelmente o modo como se escreve?
ResponderEliminarApesar de este post não ter nada que se possa relacionar com a minha pessoa, acho-o muito curioso! Na verdade, e só porque ALGUÉM me obrigou, estou a rever o meu segundo livro, sem ter alterado, até meio, uma única palavra. Não digo que esteja relacionado com o facto de ser um magnífico escritor, mas antes com um estranho fenómeno de usurpação temporal. Quando comecei a rever o meu primeiro livro experimentei uma inesperada sensação, as personagens já não me pertenciam, as suas vidas tornaram-se-me desconhecidas. Tentei editar existências que se haviam tornado reais, falhei. Um dia, em conversa com o meu psiquiatra, tomei consciência de outro factor que reconheço ter um enorme impacto na questão que trato. O ser humano muda a uma velocidade alucinante, simplesmente como coabitamos connosco próprios temos dificuldade em aperceber-mo-nos da verdadeira dimensão das mudanças, assim, não era o meu livro que revia, mas o de um outro rapaz, mais novo, menos sabedor e com mais cabelo.
ResponderEliminarMeu caro João Courinha , sou tentado a concordar com o seu psiquiatra (que deve dar em maluco consigo - ahahah !)!
EliminarCreio que o facto de você ser um escritor bastante jovem (o que não é de forma alguma impedimento ou desvantagem) tem essa consequência, entre outras eventuais.
Você ainda não está maduro, está em processo de... e por isso vai mudar ainda e muito a sua forma de ver as coisas... acredite em mim que já vou sendo velho e sei.
Mas suponho que seja o normal, é o seu retrato enquanto jovem.
Claro! Mas numa sociedade do imediatismo, da gratuidade (gratuitidade??) do facilitismo quem é que se está para dar tempo, quem é que se maça com auto-crítica? Muito poucos, com certeza...
ResponderEliminarEntão a américa assusta, também divergindo suas santas realidades.
ResponderEliminarOutro dia em ônibus circular em que a simplicidade da pátria assustou-me, por cheio de gringos. Eram traços, talvez da província de Misiones ou Néuquem na Argentina. Entre adultos, crianças criadas a sombra andina, traziam atados ao cabelo um cordão de miçangas desvencilhando a lamber os ombros, estes humildes faziam exibir o adereço como pertence de maior valor, girando a cabeça em sua sorte ao número maior de miçangas. Por mães as de abandono e gorda ninhada, suavam batendo língua a conter os extraviados que na algazarra cruzavam o suspense ao desconforto dos passageiros, e estas de tão bobas nem observavam que por metro quadrado a charruada estendia-se, sendo impossível da reflexão pela quantidade de anducos. Desta solidão nunca estive tão só, velando pelas mães da pouca sabedoria e pelas crianças de inocente futuro.
Minha Querida e Hermética Cláudia
EliminarCuriosa imagem essa da sua viagem misturada
entre os anducos , se bem que julgue o gringo era você mesma... e que justamente por essa condição se sentiu sózinha , mas não devia ter-se sentido naufragada afinal... e pelo que percebi diria que partilho da sua experiência e sei bem
aquilo que experimentou...
Relatei há meses a um grupo de amigos muito restricto (entre eles a nossa Extraordinária Hospedeira) uma viagem em machibombo de
6 horas pelos caminhos inenarráveis da África.
No entanto a observação que fiz foi algo diferente da sua, pois como sendo diferente da minha amiga, não me senti atingido pelas
mesmas impressões. O que recolhi daquele banho foram sensações de que a humanidade é Extraordinário, e as minhas reflexões forma na compreensão de pessoas tão simples quanto complexas são as razões que as fazem ser ou movem.
Saudações deste lado do Atlântico
Oh, escrita dos escribas
Eliminarés caminho impiedoso
és de chão temeroso
que tropeçam os sem par
que cercania governante é a alma?
ribanceira que o mundo cala
querendo avançar perde a calma
da conquista auxiliar
fora a criação um fantasma
o íntimo espelho
o assenhorear no derradeiro
tenhas a gratidão do conselho
criar é espinheiro
sábia pátria é teu plasma.
Bom dia à Maria do Rosário! E tem toda a razão, uma vez mais!
ResponderEliminarContudo, há textos de pessoas que gostariam de ser o chamado "escritor" que nem que levem 1000 revisões e pós - leituras lá chegam!
É evidente que uma editora dita "normal" não os publica. Dirigem-se, então, para as de "vão de escada" e, ou pagando antes da edição ou pagando depois porque têm de ficar com os livros que não vendem, um por um a um preço "simbólico", conseguem ver a sua valente "obra" publicada!
Daí o cartoon: on ne lit plus aujourdhui, on écrit seulement!
Bolo rei seco e esfarelado
Sem dúvida que concordo com o que MRP diz ao reproduzir Rui Zink .
ResponderEliminar- O ler muito, para mim, é claro que influencia a escrita pois faz parte do ambiente cultural que molda a mente, entre outros, mas penso que é óbvio o ser determinante.
Como a qualidade dessa leitura! Não creio que consiga escrever como Eça quem só leia p.e . Rodrigues dos Santos...
Aceito a discussão, evidentemente, mas é esta a minha convicção e até prova em contrário!
Claro que não é condição sine qua non ! Além de ler muito, o escritor ideal deve ver muito, e viver muito. O que alguns alcançam em menos tempo, diria eu?
- Por outro lado o reler aquilo que se escreveu... também concordo e sinto que é absolutamente certo! O escritor, sobretudo o que se inicia, deve ler e reler, e dar a ler...
Mas aqui é que reside o busilis. . ou que a porca "troce" o rabo como se diz vulgarmente!
O escritor não pode vir obrigatóriamente nem de um mestrado nem de um curso superior de escrita! O escritor vem do Mundo e vem da vida, vem da sua inclinação ou inspiração, tem tanto de espontâneo quanto de trabalhado. O escritor antes de o ser foi um projecto... e é para este que temos de olhar, como para uma sementeira que se tem de preparar a terra, adubar, regar e ir fazendo cobertura, monda, sacha...
É que o escritor que se inicia, não tem quase nunca quem o aconselhe nesse sentido, quem o leia e oriente... por isso o candidato a escritor percorre sózinho , de olhos fechados e sem bengala o seu caminho.
Por isso acho que são injustas as afirmações do nosso estimado Bolo Rei... reparem digo injustas não digo que não são verdade! Mas a verdade nem sempre é justa!
Fica o desafio: O Caro Bolo Rei aceita ler e fazer a critica ao meu livro Largueza que foi editado por mim, pago por mim e revisto por mim, que sei ser um trabalho péssimo de edição por falta de quem me orientasse? Ou o Bolo Rei, arranja-me que o faça? E a proposta não é a de ler o que já foi editado (e moldado por outros sem que eu tenha tido grande responsabilidade nisso) e sim o texto original.
É que eu não arranjei quem me desse a mão e trilhei sózinho esse caminho! Não perdi dinheiro e vendi eu mesmo os 600 exemplares... claro que a obra é fraca na forma mas continuo a achar que é boa no conteúdo - e como não, pois quem o feio ama...
Mas a injustiça daquilo que diz é para mim tão desadequada quanto acertadas as anteriores afirmações.
Aceita o desafio? Olhe quem sabe se não vai revelar uma descoberta tardia da literatura de aventuras e do romance de fundo histórico...
Não acredita que as coisas acontecem por uma razão? Eu sim...
Um abraço discordante mas que o estima.
Caro Amigo Luiz Pacheco
EliminarÉ preciso é ler, seja o Eça seja o 575 (JRSantos), seja A MARIA, é preciso é ler...
Quanto ao Rui Zink absolutamente admirável, um sentido de humor sensacional, uma ironia cortante e ao vivo ainda é melhor...
Zink é ácido;
ResponderEliminarZink é sagaz;
Zink é link (foi o primeiro autor nacional a ter um ebook disponível na internet);
Zink tem razão;
É preciso ler para escrever. Eu diria mais: quase que é preciso escrever para ler...
E é preciso mão dura no processo de reescrita...
Antes de mais, este comentário será, porventura, injusto e nem aqui deveria ser colocado. Não tem sequer nada a ver directamente com o post.
ResponderEliminarNa sexta-feira passada estive na Leitura do Bom Sucesso, no Porto. João Tordo foi lá fazer uma apresentação do seu livro “Anatomia dos Mártires”e conversar com quem apareceu. Fui lá por duas razões: Conhecer João Tordo e também porque presumi que a Maria do Rosário estivesse presente. Não esteve e não tenho quaisquer motivos para supor alguma responsabilidade da sua parte pela ausência. De resto, tanto a informação que a Leitura me enviou como o pequeno cartaz da Leya não anunciava a sua presença mas apenas a do escritor.
Chocou-me (e há muito poucas coisas que ainda me choquem) o completo desacompanhamento do João Tordo, no que naquele momento se me afigurou como o abandono pela sua editora. Que uma pequena editora não acompanhe um autor desconhecido, compreende-se pela escassez de meios. Que uma editora como a Leya não acompanhe um prémio Saramago, já me levanta sérias dúvidas sobre as políticas editoriais e economicistas. Pensar, depois, que a Portugal fechou, que os trabalhadores do grupo Bulhosa vão entrar em greve por atraso no pagamento de salários é um pouco mais assustador do que pensar apenas na crise.
Provavelmente os livros passarão a ser apenas produtos de supermercado e talvez fiquemos reduzidos àquilo que um grande crítico literário classifica (cito de memória) literatura de digestão rápida e evacuação ainda mais rápida.
Assim, o próprio esforço auto-crítico e crítico de Rui Zink se perde. E o que iremos ler no futuro? Talvez apenas os clássicos, alguns dos quais já se podem ir buscar à Internet de borla.
Repito, para que fique bem claro, este comentário não é uma crítica a Maria do Rosário Pedreira.
Percebo a sua preocupação, acredite. Mas, como calcula, se o editor acompanhasse todos os seus autores a todas as sessões, não teria tempo nem para ler, nem para editar livros. Em todo o caso, vou algumas vezes - e esta semana estarei com o João Tordo e outros autores em Leiria, por exemplo. O ideal seria haver uma pessoa que pudesse fazer este serviço específico, mas, apesar de estarmos a falar de um grupo editorial com muitos funcionários, a verdade é que provavelmente nenhuma outra pessoa, por força do seu próprio trabalho, leu o romance de João Tordo... No ano passado, estive por acaso com ele na livraria que refere - e o encontro foi muito agradável. Mas, no geral, o que quem lá vai quer é mesmo falar com o autor. Em todo o caso, fez bem em exprimir a sua preocupação, pois eu própria me bato por um acompanhamento mais digno e próximo. Obrigada.
EliminarNão sei se concorda comigo, mas os Portugueses em larga percentagem são pouco dados a leitura ou simplesmente não lêem nada. Há livros de todos géneros, uns de linguagem mais simples, outros de linguagem mais técnica e eu acho que culturalmente, ajuda muito ler, mas ler com qualidade. Seja Português ou estrangeiro, ler faz nós sonhar e aumenta o nosso nível de cultura. Quem não tem dinheiro para comprar livros, ir a uma biblioteca. Eu acho que o habito de leitura deve vir de trás (pais), desde pequenos começarem por pequenos livros e conforme a idade, ir aumentando. Nem que fosse um poucos, os pais deviam incentivar os filhos para o habito da leitura.
ResponderEliminarTenho sérias dúvidas se o hábito de ler vem de trás (dos pais) eu acho que vem do próprio indivíduo, da sua maneira de ser e estar, da sua curiosidade do que querer saber, terá, quanto muito, com a formação/educação que cada um teve (incentivado ou não pelo pais).
EliminarPara quando uma opinião que não seja um lugar comum? Desde que leio este blog espero por um pequeno raio de luz, algo diferente, algo que seja pessoal, profundo e conhecedor. Nada. Um longo bocejo. E uma grandíssima decepção.
ResponderEliminar"o senso comum não é tão comum assim" - voltaire.
EliminarMdR faz questão de nos lembrar disso diariamente. obrigado.
Para além de a citação não acrescentar nada à discussão, para lá do nome do autor, mas isso fica para quem liga a nomes, porque eu prefiro ideias. Do que falei foi de lugar comum e não de senso comum. Coisas bem diferentes, para bom entendedor.
Eliminarcompreendo que o seu lugar-comum diga respeito a "clichés"; o que tentei foi metamorfosear o sentido do termo para um outro seu familiar (um chavão acaba por ser do senso comum, "algo que não é diferente") de modo a seguir a forma, contrapondo o conteúdo. mas deixemo-nos de detalhes, também sou dos que não liga a nomes, caso contrário não teria respondido a um Anónimo.
Eliminarclichés e senso comum são coisas diferentes e uma não deriva noutra. Se uma é forma de pensar outra é repetir sem pensar (ou não, porque há sempre nuances).
EliminarAinda bem que não liga a nomes, porque eu seria sempre anónimo, mesmo que assinasse Luís Carvalho ou Chico da Cuf.
amenize-se caríssimo, e leia com calma. "clichés" foi uma associação a lugar-comum e não a senso comum.
EliminarCompletamente de acordo com o que o Rui Zink afirmou no que toca à revisão, à reescrita, às tesouradas, ao distanciamento, à autocrítica. Claro que há uma janela de tempo para se fazer isso, julgo eu. Porque como disseram aqui num post , nós somos várias pessoas ao longo da vida. E consequentemente o nosso trabalho irá assumir várias formas.
ResponderEliminarQuanto ao ler muito isso, confesso, faz-me um pouco de comichão. Quando alguém me diz: tens de ler mais. Eu não sou nenhum intelectual nem ando lá perto. Não sou nenhum leitor compulsivo. Ler mais? Por vezes as pessoas que proferem essas declarações nem sabem o que os outros já leram ou deixaram de ler.
Concordo consigo meu caro Mário Santos!
EliminarNão é ler muito, talvez ler bem, ler "certo"!
Um abraço