Porquê
reescrever as Aventuras de João Sem Medo,
de José Gomes Ferreira, em
2024?
Ou
como um preâmbulo se transforma na história que se quer contar
Num ano em que
quatro mil milhões de pessoas (aproximadamente metade do mundo) foram a votos
para escolher os seus governos e os seus representantes e no ano em que
Portugal celebrou o 50.º aniversário da Revolução dos Cravos, saltar muros,
partir muros ou até mesmo só falar com muros pareceu-me o gesto mais urgente
que poderia fazer para combater o isolamento, a injustiça, a falta de cuidado e
a calhordice que por aí anda a empatar dias que poderiam ser muito mais
inspiradores.
Num tempo em
que o mundo ocidental parece estar em luta com os seus próprios (e duplos) princípios,
tornando-se um lugar onde uma pequeníssima minoria sobrevive e enriquece à
custa do aprisionamento e tortura de uma
larga maioria, cultivar uma imaginação sem freio e uma persistente curiosidade
que desafiem o medo do desconhecido pode bem ser a única saída para uma
sociedade que, demasiadas vezes, condena as gerações mais jovens ao silêncio,
ao desprezo ou ao motim.
José Gomes
Ferreira escreveu o folhetim Aventuras de João Sem Medo, em
1933, para os seus filhos, na esperança de que nunca se tornassem num desses
adultos falsos que sujam o mundo e não acreditam na imaginação. Há mais de
90 anos, imaginem!, e, enquanto ele escrevia, iniciava-se, graças a um elevado
e promovido abstencionismo, considerado como voto de aprovação para uma nova
Constituição, o período do Estado Novo em Portugal ou, melhor dizendo, aquela
que foi a ditadura mais longa da Europa, liderada por um senhor que usava
sempre os mesmos sapatos, de seu nome Salazar. Esse quase meio século de
ditadura só terminaria a 25 de abril de 1974. Nesse mesmo ano de 1933, e num
país não muito distante deste onde José Gomes Ferreira morava e escrevia, o
Partido Nazi, presidido por um outro biltre de seu nome Adolf Hitler, obtinha
43,9% dos votos nas eleições parlamentares. Esse senhor, que só usava uniformes
de marca e que já era chanceler da Alemanha por essa altura, encarregou-se de
escorraçar todo e qualquer deputado da bancada comunista e social-democrata da
casa da democracia para logo promulgar,
sem impedimentos de maior, a Lei de Concessão de Plenos Poderes, iniciando
assim um dos períodos mais sombrios da história europeia, uma época em que se
queimaram pessoas e livros com o objetivo de eliminar uma parte da humanidade
e muitas das suas ideias, seguindo uma longa e tristíssima tradição que nos tem
acompanhado desde Alexandria à Idade Média.
Há 90 anos,
este pequeno país à beira-mar plantado, onde Josés Gomes Ferreiras escreviam e
Salazares mandavam, era um lugar isolado do resto do mundo, profundamente
triste consigo próprio e com muito mais fado do que destino. Por cá, ninguém
estrangeiro passava a não ser obrigado. Não havia muitas razões para cá vir.
Havia muito mais mar do que terra, e talvez por isso se sonhasse mais com o que
se passava lá longe e não se via do que com o que se poderia melhorar e estava
mesmo à mão de semear (um problema comum a lugares que promovem vistas curtas
enquanto só acreditam em horizontes desmedidos e inacessíveis, esquecendo-se
de que grandes descobertas podem estar atrás de pequeníssimas portas,
minúsculos esconderijos ou folheando folhetins semanais em jornais para os mais
novos). Em suma, não havia grande vontade de cá estar, mesmo de quem era daqui,
e chorava-se muito, lamentava-se muito, gemia-se muito, ao ponto de o queixume
se tornar uma estranha forma de vida. Todas as cidades e aldeias desta terra
afastada, que ainda era Europa mas não o sabia, tinham nomes específicos, como
Linda-a-Velha, Valezim, Monte Gordo ou Arrifana, mas poder-se-iam muito bem
chamar Chora-Que-Logo-Bebes, como a terra do herói das aventuras sem medo que
inspiraram este livro (e não só!).
Patrícia Portela, Manual para Andar Espantada por Existir, Grande Prémio de Romance e Novela da APE