Mensagens

O tempo

Imagem

Quando penso que comecei este blogue em Maio de 2010, quase nem acredito que passaram dezasseis anos num ápice. O pior mesmo de envelhecermos é, de repente, parecer que foi ontem e passarem dezasseis anos. Já para não falar daquelas alturas em que um filho de alguém que conhecemos parece ter nascido ontem e tem dez anos (aconteceu-me este fim-de-semana uma situação dessas). Bem, no livro que amanhã lançamos, uma obra infanto-juvenil de Marta d'Orey (texto) e Carolina Branco (ilustrações), intitulada O Relógio Estragado, o pequeno Jaime recebe um relógio que foi do avô e está verdadeiramente confuso porque os ponteiros parecem andar muito depressa quando brinca e muito devagar de cada vez que um adulto chato lhe prega uma seca. Será que o relógio que lhe calhou em herança está estragado? Venha descobrir mais logo, pelas palavras da Luísa Sobral, que fará a apresentação na Livraria Linha de Sombra, da Cinemateca de Lisboa. Apareça e peça um autógrafo às autoras!

 


 

Traições

Imagem

(Antes que me esqueça: hoje o Manel lança o seu novo livro de poesia. O Menino Que Via Passar Comboios, às 18h30 na Buchholz. Apareçam.)

Amanhã é o Dia Internacional da Tradução, e os tradutores, como sabemos, estão hoje realmente ameaçados. Por todo o lado se fazem já traduções, mesmo de livros literários, com recurso à Inteligência Artificial e, com o aperfeiçoamento tecnológico, é de crer que muitos profissionais de tradução e revisão deixem futuramente de poder trabalhar, substituídos por máquinas cada vez mais competentes e rápidas. Ouvi dizer que, na maioria dos casos em que companhias de teatro ou ópera estrangeiras vêm apresentar espectáculos a Portugal, as legendas traduzidas já são criadas por IA; e que, em boa parte dos festivais e reuniões internacionais (aquelas x-Summit que bem conhecemos), para a tradução das intervenções já não se recorre a gabinetes de intérpretes, até porque a aparelhagem é muito cara, mas a programas de IA que dão muitas calinadas e fazem até rir de vez em quando os espectadores. Enfim, para todos os efeitos, é preciso debater o assunto; por isso, amanhã haverá na Faculdade de Letras, em Lisboa, uma conversa com intervenientes das Universidades de Coimbra e Lisboa. Deixo a sugestão a quem queira estar presente. 

 


 

 

A ortografia

Fico ainda espantada com a quantidade de erros de ortografia que encontro em originais que me são enviados por pessoas que se dizem, ou querem ser, escritores. Há alguns erros recorrentes («eminente» por «iminente», por exemplo, ou «dispensa» por «despensa»), mas outros são de palmatória e difíceis de perdoar. Ora, é hoje mesmo, às 18h30, no El Corte Inglés de Gaia (para não ser tudo em Lisboa, porque acredito que haja muitos Extraordinários fora da capital), que será apresentado um livro sobre o qual tenho bastante curiosidade. Trata-se de 365 Dicas para não Dar Erros, de Rita Asseiceiro, que tem uma página chamada Meia Dúzia de Erros e ajuda os indecisos em questões muito necessárias (como a diferença entre há e à), mas também na pontuação, na acentuação ou na correcta conjugação dos verbos. Professores, estudantes, profissionais de comunicação e candidatos a escritores terão aqui decerto um bom guia para não passarem por ignorantes. Eu cá vou comprar.

Escrever sem rede

Imagem

Hoje vou para Ponta Delgada participar num festival literário no âmbito da Capital Portuguesa da Cultura. Terei três actividades diferentes, duas das quais acompanhada por pessoas de quem gosto muito. Para falar de poesia (e talvez ler também alguma coisa), estarei com a minha autora Leonor Sampaio da Silva, professora universitária de literatura; duas horas depois, para falar de prémios literários, partilharei a conversa com o muito querido escritor João de Melo. Tudo gente boa e promessa de tempo bem passado. Porém, na manhã de sábado, espera-me um desafio que me deixa bastante insegura: uma hora completa no Açoriano Oriental para escrever de improviso um texto, no género literário que decidir, de uma página ou duas (duvido que chegue a tanto), que mais tarde será publicado numa colectânea que incluirá também os textos dos meus vinte e tal confrades que estarão noutras partes da cidade a fazer o mesmo. Enfim, pedi uma salinha sem ruído no jornal porque me costumo dar mal com barulho à volta para escrever. E já estive a pensar um pouco no que pode ser o texto, mas, como estou cada vez com pior memória, vamos lá ver o que sai. A organização do evento (magnânima) vai dar-me 48 horas para rever. Haja clemência. 

 


 

Nova literatura do Brasil

Imagem

Conhecemos mal a nova literatura do Brasil (o contrário também é verdade), que, ainda por cima, fala português, embora nos últimos anos tenham sido dados à estampa em Portugal muitos mais escritores brasileiros do que há uma década, e alguns sejam muitíssimo lidos. Falo, por exemplo, da publicitária Carla Madeira, que se tornou um caso de sucesso com romances como Tudo É Rio; de Itamar Vieira Junior, que ganhou o Prémio LeYa e publicou comigo a Trilogia da Terra; de Tatiana Salem Levy, residente em Portugal há anos e autora de vários livros (A Chave da Casa é sublime);  de Sérgio Sant'anna, Conceição Evaristo, Aline Bei, Fernanda Torres, Marcelo Rubens Paiva (em parte por causa do filme Ainda Estou Aqui), Stênio Gardel ou, mais recentemente, Ana Maria Gonçalves (Um Defeito de Cor). Li há poucos meses duas novelas de Ana Paula Maia, uma delas intitulada Assim na Terra como embaixo da Terra, que achei muito interessantes, e gostei da voz desta autora que (não se riam) escreve como um verdadeiro homem e quase só tem homens como personagens nestes dois livros, que decorrem em cenários muito duros, sujos e iminentemente mortíferos, como uma cadeia a caminho de ficar desactivada apenas com um cozinheiro, um director sádico e uns cativos com pulseira no tornozelo que pensam que a respectiva perna explodirá se tentarem a fuga. A Manuscrito publicou o romance que referi acima em Portugal e é uma chapada na cara de quem lê, espelhando bem a violência de um país como é o Brasil. Mas, se tem bom estômago, recomendo. É de alguém que consegue transportar-nos completamente para outro universo, e essa é a melhor parte da literatura.

 


 

O burro que sabia escrever

Imagem

Quando voltei de férias, avisei que este mês vos iria bombardear com sessões de lançamento e debate à roda de livros, e não menti. Ora, hoje é o dia da apresentação do livro Fortunas e Adversidades de Luciano de Megera, Burro de muitos Amos, a última proeza que nasceu da pena de Paulo Moreiras, o mais pícaro dos autores portugueses que, graças a Deus, cultiva um género literário bastante desprezado em Portugal no presente século mas que já lhe valeu prémios e distinções, entre os quais o Prémio Pen Clube de Narrativa no ano que findou. Desta feita, em lugar de uma apresentação formal (que nem combina nada com o Paulo e os seus livros bestialmente divertidos), a sessão será uma conversa que tem tudo para ser boa entre o autor e o grande programador cultural Nuno Artur Silva. Gostaríamos mesmo que aparecesse para assistir a um diálogo inteligente sobre burros, tema muito caro a Paulo Moreiras. Até logo.

 


 

 

Chorar de amor

Imagem

A escritora Angela Carter referiu-se ao romance Junto à Grand Central Station Sentei-Me e Chorei, de Elizabeth Smart, dizendo que era «como se Madame Bovary tivesse sido atingido por um raio». Achei igualmente curioso que outras escritoras, como Joyce Carol Oates ou Tony Morrison, elogiassem a linguagem de Smart, que é realmente o que torna o seu livro marcante. Fiquei, aliás, aliviada por ler o posfácio, muitíssimo esclarecedor, a contextualizar o livro, e de saber que Elizabeth Smart, nascida em 1913, foi companheira de surrealistas, pois isso até certo ponto serve para enquadrar este jorro de palavras visceral num certo período literário e entender melhor os excessos. Não posso, contudo, deixar de dizer que o romance é tudo o que eu diria hoje a um autor que não fizesse, pois a permanente metaforização e as frases completamente elípticas como «As prostitutas têm olhos que galopam como ratos à volta de restaurantes salpicados de prospectos fortuitos» resultariam realmente estranhas e praticamente ilegíveis aos leitores deste tempo, embora sejam obviamente compreensíveis não só numa literatura influenciada pelo surrealismo, mas sobretudo numa literatura conduzida pela droga do amor, um amor completamente obsessivo: Elizabeth Smart apaixonou-se por um poeta (George Barker) logo que o leu numa livraria e procurou-o por três anos até Lawrence Durrell (sim, o do Quarteto de Alexandria) lhe ter arranjado um contacto, após o que se tornou sua amante (o poeta era casado e a mulher nunca lhe deu o divórcio), vindo a ter quatro filhos dele, que sustentou absolutamente sozinha. Junto à Grand Central Station Sentei-Me e Chorei é uma leitura que nem todos apreciarão pela estranheza, mas valerá sempre a pena tomar-lhe o pulso.

 


 

 

Terroristas, refugiados e poesia para falar deles

Imagem

Hoje faço 67 anos (tantos!) e não andarei por aqui, mas deixo publicado o post porque quero que se organizem todos para a sessão que conduzirei amanhã na Livraria Buchholz com Carla Pais, a autora do romance vencedor do mais recente Prémio Leya, intitulado A Sombra das Árvores no Inverno. É um livro que fala das grandes diferenças sociais entre os países árabes e a Europa, das ainda maiores diferenças entre terroristas e migrantes e refugiados, de vidas abaladas desde a infância por guerras injustas (como algumas das que hoje vivemos, infelizmente, por causa de loucos como Trump, Putin, o Hamas ou Netanahyu). O livro pega em três famílias (uma francesa, outra do Mali e a última da Síria) e é a partir delas que, em vários tempos e locais, nos falará dos custos para os civis das guerras do terror e da xenofobia dos países ditos desenvolvidos. Carla Pais estava em Paris quando se deu o ataque à mão armada pelos radicais islâmicos numa discoteca onde estava a acontecer um concerto e não conseguiu obviamente ficar indiferente. Se escrever este romance foi a sua catarse, podemos descobri-lo amanhã, pelas 18h30, nesta sessão para que vos convido. Apareçam, a entrada é livre!

 


 

Excerto da quinzena

Imagem

 

Porquê reescrever as Aventuras de João Sem Medo,

de José Gomes Ferreira, em 2024?

Ou como um preâmbulo se transforma na história que se quer contar

 

 

Num ano em que quatro mil milhões de pes­soas (aproximadamente metade do mundo) foram a votos para escolher os seus governos e os seus representantes e no ano em que Portugal celebrou o 50.º aniversário da Revolução dos Cravos, sal­tar muros, partir muros ou até mesmo só falar com muros pareceu-me o gesto mais urgente que poderia fazer para combater o isolamento, a injustiça, a falta de cuidado e a calhordice que por aí anda a empatar dias que poderiam ser muito mais inspiradores.

Num tempo em que o mundo ocidental parece estar em luta com os seus próprios (e duplos) prin­cípios, tornando-se um lugar onde uma peque­níssima minoria sobrevive e enriquece à custa do  aprisionamento e tortura de uma larga maioria, cul­tivar uma imaginação sem freio e uma persistente curiosidade que desafiem o medo do desconhecido pode bem ser a única saída para uma sociedade que, demasiadas vezes, condena as gerações mais jovens ao silêncio, ao desprezo ou ao motim.

José Gomes Ferreira escreveu o folhetim Aven­turas de João Sem Medo, em 1933, para os seus filhos, na esperança de que nunca se tornassem num des­ses adultos falsos que sujam o mundo e não acreditam na imaginação. Há mais de 90 anos, imaginem!, e, enquanto ele escrevia, iniciava-se, graças a um elevado e promovido abstencionismo, considerado como voto de aprovação para uma nova Consti­tuição, o período do Estado Novo em Portugal ou, melhor dizendo, aquela que foi a ditadura mais longa da Europa, liderada por um senhor que usava sempre os mesmos sapatos, de seu nome Salazar. Esse quase meio século de ditadura só terminaria a 25 de abril de 1974. Nesse mesmo ano de 1933, e num país não muito distante deste onde José Gomes Ferreira morava e escrevia, o Partido Nazi, presidido por um outro biltre de seu nome Adolf Hitler, obti­nha 43,9% dos votos nas eleições parlamentares. Esse senhor, que só usava uniformes de marca e que já era chanceler da Alemanha por essa altura, encar­regou-se de escorraçar todo e qualquer deputado da bancada comunista e social-democrata da casa da  democracia para logo promulgar, sem impedimen­tos de maior, a Lei de Concessão de Plenos Pode­res, iniciando assim um dos períodos mais sombrios da história europeia, uma época em que se quei­maram pessoas e livros com o objetivo de eliminar uma parte da humanidade e muitas das suas ideias, seguindo uma longa e tristíssima tradição que nos tem acompanhado desde Alexandria à Idade Média.

Há 90 anos, este pequeno país à beira-mar plantado, onde Josés Gomes Ferreiras escreviam e Salazares mandavam, era um lugar isolado do resto do mundo, profundamente triste consigo próprio e com muito mais fado do que destino. Por cá, nin­guém estrangeiro passava a não ser obrigado. Não havia muitas razões para cá vir. Havia muito mais mar do que terra, e talvez por isso se sonhasse mais com o que se passava lá longe e não se via do que com o que se poderia melhorar e estava mesmo à mão de semear (um problema comum a lugares que pro­movem vistas curtas enquanto só acreditam em horizontes desmedidos e inacessíveis, esquecendo­-se de que grandes descobertas podem estar atrás de pequeníssimas portas, minúsculos esconderijos ou folheando folhetins semanais em jornais para os mais novos). Em suma, não havia grande vontade de cá estar, mesmo de quem era daqui, e chorava­-se muito, lamentava-se muito, gemia-se muito, ao ponto de o queixume se tornar uma estranha forma de vida. Todas as cidades e aldeias desta terra afas­tada, que ainda era Europa mas não o sabia, tinham nomes específicos, como Linda-a-Velha, Valezim, Monte Gordo ou Arrifana, mas poder-se-iam muito bem chamar Chora-Que-Logo-Bebes, como a terra do herói das aventuras sem medo que inspiraram este livro (e não só!).

Patrícia Portela, Manual para Andar Espantada por Existir, Grande Prémio de Romance e Novela da APE 

 


 

Um livro corajoso

Imagem

Não são todas as mulheres que resolvem, à beira dos 60 anos, ir fazer uma viagem de um mês completamente sozinhas. Menos ainda se nunca viajaram senão em trabalho, fosse por falta de oportunidade (filhos para criar, profissão sem horários...), fosse até por falta de dinheiro (não poder estar sem trabalhar um mês inteiro por ser free-lancer e não ter essa benesse do subsídio de férias). Mas a Ana Saragoça esperou pacientemente a sua hora e conseguiu finalmente juntar tempo e dinheiro para visitar um dos países com que sempre sonhou: a Itália. Assim, depois de planeada a viagem, comprou mesmo o bilhete e... partiu. A Turista Invisível é um livro que conta essa viagem desde o primeiro minuto (com a mala cheia de coisas que talvez não sirvam para nada) até ao regresso: os hotéis tenebrosos, os sustos com o desaparecimento de documentos vitais, a invisibilidade por não ser uma adolescente loira e gira, uns cocktails para se vingar da solidão, enfim, é no fundo sobre tudo isto que a autora vai hoje falar na Fnac/Livraria Barata, em Lisboa, com a jornalista Maria João Martins. Vamos ouvi-las?