O passado que salva o presente

As histórias focadas nas relações entre mães e filhas são geralmente uma receita de sucesso, mas nem todas são tão interessantes como por vezes prometem. Pelo contrário, o livro que referi na passada semana (Ocupação da Mãe, de Paola d'Agostino) e este de que hoje vos falo, Ressuscitar Mamutes, de Silvana Tavano (vencedor do Prémio Oceanos em 2025), são exemplos bem-vindos e com bastante em comum. O último parte de uma premissa científica interessante, a de que, se os mamutes não tivessem sido extintos, muito provavelmente o degelo no Árctico e outras alterações climáticas com consequências devastadoras para a humanidade a que temos vindo a assistir poderiam ser evitados. Ressuscitar estes animais a partir do ADN de fósseis ou de qualquer outra maneira seria quiçá uma forma de salvação. Mas o livro, claro, não é sobre isto, mas sobre uma mãe (com a qual a filha, a autora, tem uma relação bastante difícil), que vai um dia fazer uma dessas cirurgias insignificantes, se sente mal pós-operatório e, em vinte minutos, perde a vida de forma completamente inesperada por causa da desvalorização dos enjoos por parte das enfermeiras da noite. Então, a autora ressuscita o seu mamute de uma belíssima maneira, que é literatura e é memória, um pouco ao estilo de Patti Smith, reinventando as recordações e os relatos que ouviu sobre a vida da mãe e sonhando com um futuro que talvez fosse, se pudesse ter sido. Livro culto, em que perpassam muitos outros autores e livros, alguns de ciência, Ressuscitar Mamutes é uma leitura fascinante.


 

 

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