O espectáculo a fazer pela literatura
Calculo que saibam que o cineasta britânico Christopher Nolan tenha cometido a ousadia (sim, é mesmo preciso ter coragem para uma coisa destas) de realizar uma superprodução cinematográfica baseada na Odisseia, esse livro fundador da literatura ocidental, que é um longo e belo poema atribuído a Homero (amo particularmente as estrofes dedicadas a Atena de olhos garços na tradução de Frederico Lourenço). É um texto difícil, não só por ser todo em poesia (como Os Lusíadas), mas por de algum modo nos obrigar a estar em dia com a história da Guerra de Tróia e a mitologia grega. Nolan escolheu uma determinada tradução inglesa para se guiar, e a tradutora disse nas entrevistas que o filme era muito comercial e nada tinha que ver com o livro que traduzira. Mas, independentemente de ser um desses blockbusters que são grandes sucesso de bilheteira, e não estar nada mal feito (eu passei as três horas sentada sem me aborrecer a fazer comparações mentais com o que recordava do livro), a verdade é que a existência deste «produto» fez com que um enorme número de pessoas fossem comprar a Odisseia para ver se percebiam melhor aquela guerra de que o filme fala. Como existe uma versão do livro abreviada e simplificada para jovens, essa tem sido uma das mais procuradas pelos adultos, mas aqui o importante é que um livro com a importância da Odisseia esteja a ser lido por gente que nunca o leria se não tivesse sido por causa do filme, pelo que nos cabe agradecer ao senhor Nolan por isso. A obra está nos Top das livrarias em todo o mundo em 2026, o que é uma felicidade para quem lá costuma ver exclusivamente produtos de baixa categoria. É o espectáculo a fazer pela cultura.

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