Nova literatura do Brasil

Conhecemos mal a nova literatura do Brasil (o contrário também é verdade), que, ainda por cima, fala português, embora nos últimos anos tenham sido dados à estampa em Portugal muitos mais escritores brasileiros do que há uma década, e alguns sejam muitíssimo lidos. Falo, por exemplo, da publicitária Carla Madeira, que se tornou um caso de sucesso com romances como Tudo É Rio; de Itamar Vieira Junior, que ganhou o Prémio LeYa e publicou comigo a Trilogia da Terra; de Tatiana Salem Levy, residente em Portugal há anos e autora de vários livros (A Chave da Casa é sublime);  de Sérgio Sant'anna, Conceição Evaristo, Aline Bei, Fernanda Torres, Marcelo Rubens Paiva (em parte por causa do filme Ainda Estou Aqui), Stênio Gardel ou, mais recentemente, Ana Maria Gonçalves (Um Defeito de Cor). Li há poucos meses duas novelas de Ana Paula Maia, uma delas intitulada Assim na Terra como embaixo da Terra, que achei muito interessantes, e gostei da voz desta autora que (não se riam) escreve como um verdadeiro homem e quase só tem homens como personagens nestes dois livros, que decorrem em cenários muito duros, sujos e iminentemente mortíferos, como uma cadeia a caminho de ficar desactivada apenas com um cozinheiro, um director sádico e uns cativos com pulseira no tornozelo que pensam que a respectiva perna explodirá se tentarem a fuga. A Manuscrito publicou o romance que referi acima em Portugal e é uma chapada na cara de quem lê, espelhando bem a violência de um país como é o Brasil. Mas, se tem bom estômago, recomendo. É de alguém que consegue transportar-nos completamente para outro universo, e essa é a melhor parte da literatura.

 


 

Comentários

  1. Contesto o "escrevem português"... não é bem assim. Na verdade nós portugueses que falamos a língua mãe é que entendemos "português-do-Brasil", o contrário não se verifica.
    Sem tirar qualquer mérito à excelente qualidade dos escritores brasileiros, de quem destaco o meu amigo Itamar, dentre os actuais que tenho lido e por quem nutro verdadeira afeição. Esta escritora de que se fala hoje aqui despertou-me a atenção e vou procurar esse romance tão logo possa, não porque me interesse particularmente o tema mas porque fiquei mesmo curioso com a resenha e a análise feita. Portanto objectivo alcançado nesse particular.
    Penso eu, se a alguém interessar, que os escritores americanos, em que incluo os Sul-americanos e portanto brasileiros, têm essa notável capacidade de ser realistas no que escrevem, de descrever crua e cabalmente a sua realidade, coisa que aos nossos contemporâneos falha também notávelmente, isto a despeito de os brasileiros romantizarem e parece compactuarem com a marginalidade, como nos habituámos a perceber nas elites da cultura brasileira. Parece que são todos "bons malandros" para usar o termo do nosso Mário Zambujal.

    Votos de uma boa malandragem, cá desde a Cidade Morena!

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  2. Itamar é um fenómeno da literatura que me agrada desde o primeiro livro da trilogia que assinalou. Conto seguir-lhe os passos literários se publicados em Portugal. E tem razão, conhecemos mal os novos escritores brasileiros. Dos referidos, e além de Itamar VJ apenas li "Tudo é rio" de Carla Madeira. Mas quem terá o tempo necessário para ler os novos escritores portugueses, mais os já consagrados, e mais os brasileiros que, serão por certo em maior número?! Alguém que trabalhe fora desse campo, tenha vida normal extra livros, seja mãe, pai, avô, avó a tempo e horas, não consegue. Do muito que existe, lamento por quem escreve e compreendo as inúmeras horas gastas a fazê-lo (mesmo por gosto, cansa), mas só alguns são comprados e esses são escrutinados, é precioso o tempo que lhes dedicamos e queremos que sejam os melhores, conceito que em escolha de livros é muito subjectivo.

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  3. Como sempre, ótimas indicações, Maria. Muito obrigada!

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