Chorar de amor
A escritora Angela Carter referiu-se ao romance Junto à Grand Central Station Sentei-Me e Chorei, de Elizabeth Smart, dizendo que era «como se Madame Bovary tivesse sido atingido por um raio». Achei igualmente curioso que outras escritoras, como Joyce Carol Oates ou Tony Morrison, elogiassem a linguagem de Smart, que é realmente o que torna o seu livro marcante. Fiquei, aliás, aliviada por ler o posfácio, muitíssimo esclarecedor, a contextualizar o livro, e de saber que Elizabeth Smart, nascida em 1913, foi companheira de surrealistas, pois isso até certo ponto serve para enquadrar este jorro de palavras visceral num certo período literário e entender melhor os excessos. Não posso, contudo, deixar de dizer que o romance é tudo o que eu diria hoje a um autor que não fizesse, pois a permanente metaforização e as frases completamente elípticas como «As prostitutas têm olhos que galopam como ratos à volta de restaurantes salpicados de prospectos fortuitos» resultariam realmente estranhas e praticamente ilegíveis aos leitores deste tempo, embora sejam obviamente compreensíveis não só numa literatura influenciada pelo surrealismo, mas sobretudo numa literatura conduzida pela droga do amor, um amor completamente obsessivo: Elizabeth Smart apaixonou-se por um poeta (George Barker) logo que o leu numa livraria e procurou-o por três anos até Lawrence Durrell (sim, o do Quarteto de Alexandria) lhe ter arranjado um contacto, após o que se tornou sua amante (o poeta era casado e a mulher nunca lhe deu o divórcio), vindo a ter quatro filhos dele, que sustentou absolutamente sozinha. Junto à Grand Central Station Sentei-Me e Chorei é uma leitura que nem todos apreciarão pela estranheza, mas valerá sempre a pena tomar-lhe o pulso.

Pelo seu comentário se depreende que nem sempre os Editores têm a fórmula para um livro ser ou não do agrado do público, e, sinceramente tenho lido obras, últimamente, contemporâneas que ainda mais me fazem disso desconfiar... algumas parecendo notóriamente que são "mainstream" e notem que não é a primeira vez que leio o que diz quanto ao trabalho do escritor. Há de facto que ter em conta o enquadramento temporal e até social, sociológico, daquilo que foi escrito.
ResponderEliminarMas é uma boa nota em minha opinião, serve para reflectir e ajudar a entender.
Ainda sobre o título do post, foi com profundo pesar que soube do passamento do poeta, músico e cantor, Jorge Palma, autor de algumas das mais belas canções da língua Portuguesa, pessoa que eu bastante admiro e me inspirou até.
Saudações entristecidas cá da Cidade Morena, as Estrelas do Mar estão de luto.
https://www.bing.com/videos/riverview/relatedvideo?q=Estrela+do+mar+Jorge+Palma+youtube&mid=D5D30CDB2A023F814A8BD5D30CDB2A023F814A8B&churl=https%3a%2f%2fwww.youtube.com%2fchannel%2fUCrQ_j5rIcU-Vp5uCoE4hb3A&mcid=7D2A35890A4D4B7E899B8CFA1F931965&FORM=VIRE
Nossa, eu uso tantas metáforas em meus textos literários, a senhora me puxaria as orelhas (do livro). Deve realmente ficar muito cansativo :)
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