20 anos

Sou bombardeada com a má notícia de que, em matéria de conhecimentos e desempenho em Leitura e Matemática, os nossos alunos do 9.º ano regrediram vinte anos. É um dos temas de abertura do noticiário da TSF de há uns dias, que venho a ouvir no carro, e consola-se o jornalista, sei lá porquê, com o facto de estarmos apesar de tudo acima da Espanha e não sermos os piores dos piores. A seguir, as notificações do El País, que recebo no telemóvel a toda a hora, abrem justamente com a mesma terrível verdade sobre os jovens espanhóis de 15 anos; e logo a seguir a minha amiga Anick, que foi professora primária durante toda a vida no Liceu Francês em Lisboa, manda-me um link para a mesma triste conclusão que reportam todos os jornais em França. Meu Deus, vinte anos? Regredimos vinte anos?! Faço a pergunta com sinais de surpresa, mas não estou pasmada. Já há anos que tenho vindo a falar disto, da forma como o digital e os ecrãs fizeram com que os mais jovens deixassem de ter concentração ou fizessem qualquer esforço para ler qualquer coisa que não tenha bonecos ou vá além das cinco linhas. E o tempo que estão ao telemóvel é excessivo, pior ainda porque acontece desde os dois ou três anos (para ficarem sossegados, os pais dão-lhe para a mão os próprios telefones e depois nunca mais lhos vão conseguir tirar). Todos os estudos são unânimes em apontar como principal razão para esta regressão a falta de leitura. Como se nós, aqui neste blogue, não o soubéssemos há anos. Só com os livros e a leitura séria vamos poder corrigir a situação. Os suecos já começaram a emendar a mão. Vamos ser os últimos a fazer o mesmo?

Comentários

  1. Não sei e nem consigo entender como se pode avaliar o anunciado retrocesso...
    Também não me dou conta disso de forma directa, confesso, porque não contacto muito com a juventude, salvo os meus sobrinhos netos, um com 16 e outra com 20 (já na universidade) e ambos vivendo curiosamente em Espanha. Estes não me revelam nada disso e a minha neta tem 3 anos, adora a "patrulha pata" que só na semana passada descobri o que é, ainda não lê, porém adora pintar e "desenhar".
    No entanto acredito que sim, que seja real e olhando à volta, ainda ontem à noite enquanto aguardávamos a chegada das malas, eu e minha mulher nos rimos com um garotinho que mal se aguentava em pé, mas já sabia passar o dedo no ecrã do telemóvel da mãe, para mudar a imagem. A mãe deu-lhe o telemóvel enquanto esperava a mala para o distrair... típico!
    Como reverter a situação? Não sei... parece-me que na nossa sociedade contemporânea isso nem seja prioridade para governos, políticos, instituições e muito menos as pessoas!
    Penso que há um real e premeditado desvio das atenções e preocupações da sociedade daquilo que importa, como são a educação e a literacia, para temas que sendo eventualmente importantes distraiam as pessoas desses temas, o que bem sabemos servem para moldar pensamentos e idéias que interessam a quem governa: o aquecimento global, a integração cultural, o "free palestine", essas as grandes preocupações, entre outras que até roçam a imbecilidade, que distraem e formatam as pessoas que se julgam humanizadas (até passeiam cães em carrinhos de bébé) e sobretudo esclarecidas, mas são cada vez mais ignorantes... isso de serem desumanizadas, intolerantes e ignorantes eu apercebo-me no meu dia a dia.
    O que se passa entre nós, naquilo que nos toca directamente, a poucos interessa.
    E parece que é assim por toda a Europa, as pessoas sobretudo mais jovens, mal sabem ler, escrevem mal, porém estão empenhadas em libertar a palestina e acabar com o uso de combustíveis fósseis, e claro, estão assim distraídas da má governação que grassa nos países ditos desenvolvidos, para satisfação dos governos e grandes interesses financeiros ou geo-políticos.
    Ler? Acabar com a leitura, limitá-la, proibir livros ou até queimá-los, eu diria que é um velho sonho que vem dos tempos da Santa Inquisição e se manteve no Islão, atravessou os regimes fascistas e comunistas, sendo transversal a todos os políticos que sabem que ler liberta a mente e torna as pessoas esclarecidas, o que não interessa mesmo nada a quem pretende moldar e manipular - que são TODOS!
    Quer ser revolucionário? Quer ser diferente? Quer ser livre? Quer pensar por si? LEIA!

    Saudações revolucionárias cá da Cidade Morena!

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  2. Obrigada por esta reflexão. Como mãe de três crianças, esta é uma questão sobre a qual tenho reflectido muito. Consigo elencar muitas razões que podem estar por trás deste fenómeno. Mas para não ser exaustiva, cinjo-me à grande conclusão a que chego, no que toca ao que podemos fazer para estimular as nossas crianças a ler, ou melhor, fazer da leitura um acto que parta deles, porque gostam de o fazer.
    A fórmula é sermos activistas. Começar por dar o exemplo, lendo.
    Ao mesmo tempo, acompanhar a leitura deles, envolvendo-nos nas histórias, fazendo intersecções com a nossa vivência do mundo.
    Depois, encontrar grupos de pais e filhos que tenham também esta preocupação. Dou-vos o exemplo da Biblioteca de São Brás de Alportel, um concelho serrano algarvio, onde acontece mensalmente o clube de leitura (im)possível para pais. As mães reúnem-se para falar dos livros que leram naquele mês, enquanto os filhos estão a realizar uma actividade relacionada com a leitura dinamizada pela biblioteca. É uma forma excelente para criar uma relação frutífera com a grande casa da leitura que é a biblioteca, conhecer pessoas que partilham do mesmo gosto e, sobretudo, falar sobre livros.
    Estão convidados a aparecer, é gratuito! O próximo será dia 26 de Setembro, 16h.

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