A memória, a visão, as mãos, que mais?
Um amigo meu hipocondríaco, advogado hoje reformado, teve em tempos uma cliente que, numa fase avançada de um cancro, o chamou ao Instituto Português de Oncologia para tratar do testamento. Ambos precisavam de uma certa privacidade para conversar, mas o hospital só lhes arranjou um cantinho ao lado de uma sala onde um médico examinava uma criança, a quem fazia perguntas do tipo: Tens tosse? Quando tosses doem-te as costas? Quando corres, custa-te a respirar? Quando te cansas, dói-te o peito? E outras coisas mais ou menos normais. Ora, o meu amigo, assim que deixou o hospital, ligou-me a comunicar que tinha um cancro. Onde, perguntei? (Tinha estado com ele na véspera e ele não se tinha queixado de nada.) Respondeu-me que não sabia, mas que só podia ter cancro porque responderia afirmativamente a todas as perguntas que o médico fizera à criança que vira nessa manhã. Gozei-o... mas arrependi-me há uns dias quando recebi do SNS a notícia da campanha de sensibilização para a demência (link abaixo). Começa assim: «Perder a memória é da idade. E se não for?» Depois avança com os sinais a que devemos estar atentos e eu tenho mesmo todos... Logo eu, que preciso tanto da memória para trabalhar. A seguir vou para uma consulta de reumatologia porque tenho dores nas mãos (outro dos instrumentos com que conto absolutamente para editar livros, pois não me consegui ainda habituar às ferramentas digitais), e a médica vê as análises e diz-me que não tenho artrite reumatóide (graças a Deus), mas estou com o açúcar alto e tenho de ter cuidado, porque a diabetes é a principal causa de cegueira em Portugal (e eu, sem olhos, como vou ler e escrever?). Bem, de repente parece que estou hipocondríaca... Desculpem o desabafo, mas a velhice é mesmo tramada!
Ahahah! Bem-vinda à terceira idade... olhe, eu já preciso de ajuda para subir para o barco! E sim dói-me tudo, é a dita idade do condor: com dor aqui, com dor ali...
ResponderEliminarResultados da vida, de uma ou outra forma, e, consequências dela pelas mais variadas razões.
Não se preocupe... se aprendermos a ignorar esses achaques, a coisa vai. Garanto-lhe.
No ano passado, andei meses todo torto, com dificuldade de movimentos, dores lancinantes nos ombros, peito, braços, mãos e dedos - nem conseguia armar a espingarda de pesca submarina e tive de fazer um terceiro entalhe no arpão para me ajudar, além de mudar para elásticos mais fracos. Fui consultar um cubano que me explicou o que tinha, sem poder fazer exames por falta de meios, mas competente acertou e disse o que fazer quando fosse a Portugal. Quando fui a casa no Natal já com consulta marcada num especialista (graças a Deus tenho uma nora fisioterapeuta), foi-me diagnosticada uma cervicalgia. Explicaram-me que era para o resto da vida, resultado daquilo que eu adivinhava, sem cura mas sujeito a alívio que me desse algum conforto. Já estava habituado às dores, porém deram-me comprimidos e fiz tratamento e exercícios que de facto me ajudaram. Não houve o Natal habitual lá em casa, por manifesta impossibilidade física da minha parte, no entanto ainda arranjei força para ir às perdizes, lá no Torrão, onde sempre me espera o fantasma do meu amigo Torga cuja sombra entrevejo pelo meio das azinheiras e sobreiros. Levei o meu sobrinho como de costume por causa da cadela dele, que desta vez ia para me apoiar... foi uma vitória, o vício venceu a dor e as limitações físicas.
É assim, a vida é uma luta nossa, interior e contínua, não há que ter medo, aliás eu pretendo morrer doente, imaginem só o desperdício que seria morrer cheio de saúde!
Ah, pois nem sabe a sorte que tem! Já oiço dizer. Fala assim porque não sabe... Desenganem-se sei e muito bem, podem crer.
Uma vez, há muitos anos, fui ao antigo centro de saúde em Santarém, tratar de uma burocracite qualquer. Estava cheio dos que chamo "profissionais da doença", gente de meia-idade para a frente que sem ocupação útil dedicam o seu tempo a arrastar-se pelos centros de saúde, farmácias, urgências, e similares onde estão à vontade e conhecem toda a gente, como se fossem para o café. Conviver, no fundo. Chega uma mulher, notóriamente uma barroa, cinquentona, córada, forte e de bata vestida, carrapito na cabeça, mangas arregaçadas e ar decidido. Olha em volta e comenta: Híí tanta gente! Ist'a qui'horas é qu'vou ser atindida?
Comentários com ar sofredor, lamentosos: - Olhe eu estou aqui desde as 6 horas da manhã, vim para ter senha... aquela senhora já cá estava. Tudo com acenos resignados de quem conhece as agruras das voltas pela saúde, a via sacra da doença real ou imaginária que confere estatuto.
Mãos na cintura, desabrida, a nossa padeira de Alcanhões exclama alto e bom som: Ora, eu tenho lá tempo p'ra tar doente! Meia volta e sai porta fora, antes de ser contagiada pelo ambiente doentio da sala, onde se ficou a comentar: - É porque pode! Nem sabe a sorte que tem... olhem, eu...
Enfim. Não soçobremos às maleitas e nem às dores.
Votos se saúde e ânimo em caso contrário, cá desde a Cidade Morena, onde adoecer é quase igual a morte certa...