Excerto da Quinzena

Escolho as roupas que vou usar na montanha, e levamos tudo o que é necessário para poder trabalhar, evitando assim – na medida do possível – complicações. As plantas ficam. Já há algum tempo que, se uma morre, não tento substituí-la. Continuo a cuidar delas como sempre, claro, mas tenho consciência de que talvez haja alguma perda na minha ausência. […]


Há vários verões que nos organizamos assim, como se tivéssemos estabelecido um pacto sagrado desde o dia em que despertámos para este furor botânico: esta necessidade de cuidar e de nos rodearmos de vida e beleza.


Porque, quando este furor ataca, não há volta a dar. De repente, as plantas deixam de ser apenas decoração e tornam-se parte essencial da vida quotidiana. Transformam-se em algo que precisamos de compreender e de cuidar de um modo quase compulsivo. E, praticamente sem nos darmos conta, começamos a procurar mais informação, a ler sobre os seus ciclos e as suas necessidades. Cada nova planta abre uma porta para mais interesse, e essa curiosidade é insaciável. Nunca é suficiente. Queremos aprender a reconhecê-las, a intuir as suas necessidades só de olhá-las, a mantê-las não apenas vivas mas também no seu esplendor máximo.


Este afã de entesourar plantas e cuidar delas transforma-se numa busca constante. Estamos sempre a pensar em qual será a próxima aquisição, que recanto da casa se vai transformar num pequeno santuário verde. De modo instintivo, esse furor cresce, ramifica-se e invade todos os espaços disponíveis.


 


Laura Agustí, Furor Botânico, tradução de Ana Saragoça

Comentários

  1. Parece-me um livro muito chocho.
    Alguém que comente!

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  2. Viva!
    Nem por acaso... comprei este livro ontem! Li a sinopse e vi a capa fiquei logo motivada.
    Citação: "furor botânico: esta necessidade de cuidar e de nos rodearmos de vida e beleza." e não é tanto isto que precisamos de sentir e fazer nas nossas vidas com tantos massacres e maus tempos literalmente?
    Bom fim de semana!

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  3. Mas a lição mais importante da história da literatura é que a única garantia de sobrevivência é o uso continuado: um texto tem de se manter suficientemente relevante para ser traduzido, transcrito, transcodificado e lido por cada geração, para que possa persistir ao longo do tempo. É a educação, e não a tecnologia, que assegurará o futuro da literatura.


    excerto de O mundo da Escrita, de Martin Puchner (Temas e Debates)

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