Excerto da Quinzena
Levava consigo para as árvores todos os livros que fugiam à conduta daquilo que então se podia esperar de uma futura mulher. Ainda era só menina, pensava. Nos verões era mais fácil esconder estes livros da família. Como não chovia, deixava-os pendurados como frutos sob os ramos e sonhava com uma árvore real que amadurecesse as histórias. Semeava palavras e delas crescia a natureza das cabeças. Que bom seria ter a liberdade de plantar pensamentos. Maria Teresa sonhava com essa possibilidade tão remota de liberdade. Liberdade das meias esticadas até ao joelho e das cuecas que lhe faziam comichão. Liberdade suja e sem horas. Mas rapidamente ouvia as vozes que a traziam de volta à prisão dos dias.
«Maria Teresa, vai tomar banho, que hoje vem cá jantar o senhor padre!» E, assim, deixava as histórias a pernoitar nas árvores para enfrentar aquela realidade menos aventureira e esperançosa.
Sara Duarte Brandão, Quem Tem Medo dos Santos da Casa,
Prémio Literário Cidade de Almada 2023
Each candidate was given five minutes to address such questions as, What is (or would be) your policy in Central America? His opposite number was then given one minute for a rebuttal. In such circumstances, complexity, documentation and logic can play no role, and, indeed, on several occasions syntax itself was abandoned entirely. It is no matter. The men were less concerned with giving arguments than with "giving off" impressions, which is what television does best. Post-debate commentary largely avoided any evaluation of the candidates' ideas, since there were none to evaluate. Instead, the debates were conceived as boxing matches, the relevant question being, Who KO'd whom? The answer was determined by the "style" of the men—how they looked, fixed their gaze, smiled, and delivered one-liners.
ResponderEliminarNeil Postman, Amusing Ourselves to Death - Public Discourse in the Age of Show Busines
(disponível online em https://ia600101.us.archive.org/27/items/Various_PDFs/NeilPostman-AmusingOurselvesToDeath.pdf)
Sobre o autor: https://neilpostman.org/
Boas Leituras e Boa Sorte
Bouças iluminadas pelo corte branco das saibreiras, grandes furnas de granito sarapintado, em que a franja das acácias punha um polvilho de oiro. Caminhos abertos pela patada do boi amarelo que sai na tarde esvaída já de sol, para beber nas presas. E os terrenos ocupados por casas, algumas ainda colmadas, outras pintada dum rosa estridente ou verde aberto, ao gosto dos novos pequenos burgueses. À face da estrada nacional havia muitas maisons, com azulejo a meio corpo e varandas como prateleiras que vão receber a sua mercadoria. Mas no vale só se construíam as moradias de Verão de algum pacato doutor que ama literariamente o típico e faz sacrifícios para cumprir o seu fim-de-semana, em família, pagando contas e recebendo os amigos. Ou então eram as casas extraordinárias dos mestres de obras, com escadas como cascatas congeladas e um arranjo sinistro de vasos de cimento. Havia as que tinham piscina e um bar dentro duma vasilha de cinco almudes; coisas sintomáticas duma civilização subtraída ao barroco pela porta das traseiras.
ResponderEliminarAgustín Bessa-Luís - O Mosteiro
"O reencontro exerceu sobre ele uma tal fascinação que o surpreendeu. Ninguém ali o conhecia já, a não ser o abade, ninguém sabia quem ele era; as pessoas que ali moravam, tanto frades como leigos, viviam integrados numa ordem estável, todos tinham as suas obrigações e ninguém o incomodava. Mas conheciam-no as árvores da cerca, conheciam-no os portais e as janelas, conheciam-no a azenha e a nora, as lajes dos corredores, as roseiras despidas de folhas do claustro, os ninhos de cegonha nos telhados do celeiro e do refeitório. De todos os recantos se desprendia o aroma doce e nostálgico do seu passado, dos anos da sua adolescência; a emoção levava-o a redescobrir tudo, a recuperar todos os sons que ouvira no passado, os sinos das trindades e as badaladas dominicais, o murmúrio escuro do ribeiro da azenha no seu estreito leito limitado por muros musgosos, o ressoar das sandálias nas lajes de pedra, o tilintar vespertino do molho de chaves, quando o irmão porteiro ia fazer a sua ronda. Junto às goteiras de pedra por onde escorria a água da chuva do telhado do refeitório dos laicos cresciam ainda as mesmas ervinhas, os gerânios silvestres e a tanchagem, e a velha macieira no quintal junto à oficina do ferreiro ainda estendia os seus longos ramos retorcidos. Mas, mais do que tudo, comovia o escutar o toque da sineta da escola e ver, à hora do recreio, o tropel barulhento dos alunos do convento descendo as escadas e espalhando-se pelo pátio. Como eram novinhos os rostos daqueles miúdos, como eram lindos e tolos – teria ele sido também alguma vez assim, tão jovem, tão estouvado, tão engraçado e infantil?"
ResponderEliminarHerman Hesse, Narciso e Goldmund,
Interessante o texto de Sara Duarte Brandão. Leio, quase finalizando, AS LUZES DE LEONOR de Maria Teresa Horta, prémio D. Dinis 2011. Fosse este o único livro da autora, bastaria para a consagrar.
ResponderEliminarBelíssimo pedaço da Agustina. A última frase é simplesmente extraordinária, define uma grande escritora e lembra-me a Yourcenar. Obrigado pela partilha.
ResponderEliminar?????????
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