Tu cá, tu lá

Lembro-me perfeitamente, numa altura em que o meu pai viveu em Madrid durante a minha adolescência, de se comentar por lá que as pessoas tinham passado a tratar-se por tu, independentemente da diferença de idades ou do estatuto; que, embora num café ou restaurante, clientes e funcionários continuassem a manter alguma distância, os alunos tratavam por tu os professores e o mesmo acontecia entre desconhecidos (ao Manel, num comboio, o companheiro de compartimento apresentou-se-lhe e perguntou: «Y tu quien eres?»). É verdade que os Portugueses são mais formais, mas que em certos âmbitos isso se está a perder. Encomendei numa livraria física um romance que queria oferecer a uma das minhas sobrinhas (apesar de ser recente, não havia nem um para amostra...) e recebi no dia seguinte um e-mail a dizer: «Temos boas notícias! O teu livro chegou. Podes levantá-lo no balcão das encomendas», etc., etc., etc. O livro que pedi não era nada juvenil, por isso só me ocorre pensar que estamos a adoptar cada vez mais o «you» e que um dia destes ainda nos vamos tratar todos por tu, como aqui ao lado... ou a falar inglês.

Comentários

  1. É bem capaz de ter razão. Mas, tradicional como sou, ainda fico a olhar para essas mensagens como se não me sejam dirigidas. Estranho-as. Pode que aconteça como no caso da coca-cola:).

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  2. António Luiz Pacheco5 de dezembro de 2024 às 01:24

    Não sei é influência do inglês que só tem o "you", se é dos espanhóis que tuteiam muito e sempre me lembro de o fazerem. Como sempre me dei muito com eles não estranhava, não noto que em Portugal esteja a ser a tónica, mas há já algum tempo que percebo o tratamento por tu nas mensagens publicitárias - creio que as julgarão mais directas ou criar uma proximidade cúmplice - e também nalguns e-mails comerciais.
    O tutear alguém obedece, ou obedecia, a regras bem definidas e uma delas era ter em conta a idade.
    É complexo, sim. Mas muita coisa tem mudado!
    Recordo-me do meu amigo José Joaquim Jordão, quem depois de muitos anos de afastamento e reencontrados através do facebook num grupo de pesca submarina, me convidou a ir passar uma semana de pesca nas rias baixas (Galiza), na sua casa. O grupo era composto por nós dois e os seus 3 filhos, com quem a despeito da diferença de idade de 30 anos estabeleci uma relação de camaradagem na partilha da paixão pela pesca e que bastante aprenderam nessa e noutras jornadas que depois partilhámos. O JJ Jordáo dizia-me: eles tratam-te por tu, mas não te respeitam menos por isso!

    Saudações humanas e saudáveis cá da Cidade Morena, pós-Biden!

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  3. Quando recebo uma comunicação desse teor recuso-a enquanto digo para mim mesmo: mas estes tipos conhecem-me de algum lado?

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  4. Serão mesmo as pessoas que decidem, ou será a nova regra do marketing que pensa que assim ficamos todos mais íntimos?
    Da mesma forma quando somos contactados por telefone, vem o tratamento pelo nome e não pelo apelido.
    Estou farto destes "tempos modernos"...

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  5. Realmente, o respeito vai muito para além das palavras...mas não será fácil assumir tal mudança...
    Beijinhos

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  6. Tem razão. Há anos que, pelo menos quando estou ao telefone a ouvir alguém que não seja um amigo ou conhecido , sou tratada por senhora Maria...

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  7. E acho muito bem! Senhores é no céu e você é entre burgueses. Eu trato toda a gente por tu. Quando um médico me disse para não o tratar assim, respondi-lhe: 'Peço desculpa, estava a pôr-te ao meu nível'. Detesto o formalismo português.

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  8. António Luiz Pacheco5 de dezembro de 2024 às 07:20

    Faz parte da formação que recebem, normalmente e quase sempre por formadores brasileiros, essa de tratar o sr. João Silva por sr. João, para "aproximar".
    O que estes formadores não ensinam é que os formalismos são formas de mostrar respeito entre as pessoas que devem ser observados para que haja um bom ambiente. Havendo-o, logo se parte para a informalidade, e, não é quebrando-o logo à partida que se obtém esse ambiente confortável entre pessoas que não se conhecem. Se não houver esse ambiente ou se quiserem, empatia, a formalidade mantém-se, o que é indicador de que algo não correu de feição, podendo o observador atento corrigir o que tenha provocado isso e fazer evoluir no sentido desejado.
    As relações humanas são algo de complexo e muito interessante por sinal.
    Como em tudo, saltar degraus na escada nem sempre resulta bem, pode tropeçar-se ou dar um trambolhão, uma canelada...
    Assumo que sou praticante e adepto do formalismo, repito, como forma de se estabelecer uma ponte entre as pessoas. Depois deixo-o cair, embora mantenha certos princípios que entendo como educação e civilidade, segundo o código em que fui educado e vejo em muitas outras pessoas. Ao contrário do que possam pensar alguns, isso não nos afasta, pelo contrário,aproxima-nos!

    Saudar quando termino a minha missiva ou comentário, é outra formalidade que não dispenso como já terão percebido.

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  9. António Luiz Pacheco5 de dezembro de 2024 às 07:36

    O caro e extraordinário João, está no seu direito, evidentemente.
    De detestar o formalismo português, que desconheço seja portanto exclusivo dos portugueses. No entanto não me parece que os portugueses sejam excessivamente formais quando comparados com outros povos. Pelo contrário, tendemos precisamente a ser menos formais e criamos rápidamente, empatia com todos (ou quase todos).

    A informalidade é por vezes formal, notem. Em África por exemplo, certas formalidades constituem uma falta de saber estar e dou um exemplo:
    - Uma vez fomos com um grupo grande para a Equimina, as senhoras abriram expuseram os seus quitutes para todos se servirem, aqui é assim e não há um convite formal para alguém se servir. A minha mulher levantou-se cedo, viu o estendal de vitualhas pelos móveis da casa de jantar, mas não tocou em nada... desconhecedora da norma, agiu em conformidade com o que foi ensinada e que é não tocar naquilo que é dos outros sem indicação para tal. Resultado, a líder das senhoras, a D. Fatinha - aliás uma boa amiga - julgou que não lhe agradavam e ficou preocupada vindo perguntar-me o que ela queria para o pequeno-almoço. Mal-entendido, logo desfeito pela explicação do desconhecimento de como as coisas funcionavam.

    A ter isto em muito conta, digo eu, saudando formalmente cá da Cidade Morena!

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  10. Lamento não o ter saudado, António Luiz Pacheco... O que aqui deixei foi um simples desabafo e sou bem mais tímida do que pareço quando me dirijo a alguém que não conheço...

    Desejo-lhe uma feliz tarde

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  11. Não será a primeira vez que pergunto a um agente da psp/gnr se na escola por onde passou não lhe ensinaram que não se deve tratar alguém por “você”

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  12. Ora vejam só!
    Considerar insultuoso tratar alguém por você!!!
    Ele há cada uma!

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  13. Fui assim ensinado: você é estrebaria. Registe (tanta gente a ler e tantos amantes de livros…)

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  14. Meu caro, não se admire. Já aqui vi adeptos de tortura de animais, vulgo touradas, e ninguém se incomodou!

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  15. Cada um comporta-se como entende, pode tratar por senhor, por tu ou por você etc . Eu, por exemplo, ainda sou mais informal e trato toda a gente por Senhor Barda-Merda.

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  16. Não é insultuoso mas é indelicado.

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  17. Oh! Santa ignorância!
    Você é abreviatura de Vossa Mercê!
    Indelicado tratar alguém por Vossa Mercê?!!!!!

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  18. Você, caro anónimo, é agente da psp/gnr?

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  19. Está enganado, não é uma abreviatura mas antes uma corruptela

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  20. "Indelicado tratar alguém por Vossa Mercê?!!!!!"
    Por Vossa Mercê não seria indelicado. Seria uma maneira arcaica de tratar para despertar o riso. Já você é considerado indelicado por muitos falantes do português. Mesmo muitos.

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  21. Não és informal nem formal. És um merdas.

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  22. A propósito de o tratamento por tu poder ser considerado inapropriado, e poder ser substituído então, por você, convém manter o debate em nível elevado, certamente.

    Na Wikipédia em "https://pt.wiktionary.org/wiki/você" está em etimologia: “De vosmecê, que por sua vez adveio de vossemecê, sendo este vindo de vossa mercê, que por sua vez procede de vostra mercedenen”.
    E usa-se como substituto de ‘o senhor’ ou ‘a senhora’.
    Portanto nada ofensivo e muito menos estrebaria: significa Vossa Mercê, o senhor ou a senhora.

    No Ciberdúvidas em "https://ciberduvidas.iscte-iul.pt/artigos/rubricas/idioma/voce-e-estrebaria/4309" é referida a estrebaria e formas de tratamento ‘obrigatórias’ a magistrados em tribunal. Por favor não introduzir confusão.

    Você é bom português. No Brasil quase se não usa tu, mas apenas você. E lá bem como em Portugal sem preconceitos, bem como em África de língua oficial portuguesa não é ofensivo tratar alguém por você, seja quem for o falante.

    E está em Eça de Queirós. E Está em José Saramago, que foi premiado com Nobel ! Isso sim.

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  23. Acrescento que o tratamento por você entre pessoas desconhecidas (por exemplo um empregado de café ou a recepcionista de um hotel) faz uns certos arrepios em Lisboa, mas no Norte, ao que sei, é perfeitamente natural e não choca ninguém, mesmo entre classes sociais afastadas. Tudo é relativo.

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  24. "És um merdas."
    Como é que descobriu?

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  25. Premiado com o Nobel, porém não seria exemplo de urbanidade

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  26. .."vamos tratar todos por tu.." e tu (a Sra.) se importa?

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  27. sou desse momento, a mudança para o tu, acho que os avos foi quem mais sofreu.
    Quanto á resposta que recebeu, talvez seja resposta IA.
    Boas Festas

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  28. Deixem lá o tu e o você e tratem as pessoas pelos nomes.

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  29. O tratamento por "tu" é o que está a dar. E o próximo tratamento a introduzir-se vai ser o "ó pá". Vejam que até o Putin já desafiou o Trump no âmbito dessa terminologia, quando ontem lhe fez aquele desafio: "ó pá, desafio-te a ver qual de nós tem a piroca maior".
    (este Putin á tão infantil...)

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  30. A lingua castelhana é mais descontraída que a nossa, o mesmo se passa com a lingua brasileira.
    Trabalhei com muitos colegas espanhóis ao longo da minha vida profissional e mesmo no trabalho a relação era mais descontraída e menos formal.
    Mesmo em reuniões mais tensas a informalidade estava lá, sem que ficasse nada de desagradável por dizer.

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  31. Para concluir
    “vc é estrebaria, quando eu nasci vc já palha comia” 😹
    Passo a brincadeira e digo que o meu pai sempre me repreendia quando eu tratava alguém por vc e ainda hoje eu não trato ninguém por vc. No entanto tratava o meu pai e a minha mãe por tu desde que comecei a falar. Algumas pessoas ficavam escandalizadíssimas!
    Hoje em dia o tratamento por tu nos jovens é muito natural, sejam amigos, conhecidos ou mesmo desconhecidos como por exemplo os prestadores de serviços.
    Quando temos consultas ou exames e nos chamam pelo primeiro nome e o último apelido é complicado, ou seja, é mais uma mudança.
    A todos um Bom Natal e Boas Festas com tu ou vc🎄⭐️🎁🎉🎊🎉🥂

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  32. Pois é “primeiro estranha-se depois entranha-se”
    Bom Natal🎄

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  33. Não existe pesca submarina. Tratar por “tu” os peixes é estar no seu meio ambiente e caça los.

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  34. O J. e tu não és merda mas coisa ainda pior é ser um javardinho

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  35. Os gajos do norte são especiais ( tu para aqui tu para ali tu não queres uma passa )

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