Excerto da Quinzena
Este saiu excepcionalmente longo (não vou repetir este tamanho) mas é só porque a história merece. Boa leitura.
Depois da conversa sobre os gira-discos e os seus diferentes méritos, o senhor Jo pediu a Suzanne que lhe abrisse a porta da casa de banho para poder vê-la toda nua, a troco do que lhe prometeu o último modelo de La Voix de Son Maître e discos ainda por cima, as últimas novidades de Paris. De facto, enquanto Suzanne tomava duche, bateu discretamente à porta da casa de banho.
– Abra – disse o senhor Jo muito baixinho. – Não lhe toco, não me mexerei, vou só olhar para si, abra.
Suzanne imobilizou-se e fitou a porta da casa de banho mergulhada na penumbra e por trás da qual estava o senhor Jo. Ainda nenhum homem a tinha visto completamente nua, salvo Joseph, que às vezes entrava para lavar os pés quando ela estava a tomar banho. Mas, como isso nunca deixara de acontecer desde crianças pequenas, não contava. […]
– É só o tempo de a ver – suspirou o senhor Jo. – Joseph e a sua mãe estão do outro lado. Suplico-lhe.
– Não quero – respondeu debilmente Suzanne.
[…] A recusa tinha-lhe saído maquinalmente. Tinha sido Não. Imediatamente, não imperiosamente. Mas o senhor Jo continuava a suplicar, enquanto esse não se invertia lentamente e Suzanne, inerte, emparedada, se deixava convencer. Ele ardia de desejo de a ver. […] E o que ali estava não fora feito para ser escondido mas, pelo contrário, para ser visto e fazer o seu caminho através do mundo, o mundo a que pertencia, apesar de tudo, aquele ali, aquele senhor Jo. Mas foi só quando estava quase a abrir a porta da sala escura para que o olhar do senhor Jo penetrasse e a luz enfim se fizesse sobre este mistério que ele falou do gira-discos.
– Amanhã terá o seu gira-discos – disse. – Amanhã mesmo. Um magnífico La Voix de Son Maître. Minha Suzanne querida, abra por um segundo e terá o seu gira-discos.
Foi assim que, no momento em que ia abrir e dar a ver-se ao mundo, o mundo a prostituiu. Já com a mão no fecho da porta, suspendeu o gesto.
Marguerite Duras, Uma Barragem contra o Pacífico, trad. Carlos Leite
Bom dia com alegria e pandemia
ResponderEliminarMuito belo o excerto trazido pela nossa anfitriã.
Para a troca, proponho o seguinte:
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"Na época do capitalismo artístico avançado, os indivíduos, incluindo os que fazem parte das classes mais altas, consomem regularmente e em altas doses bens culturais que eles consideram regressivos e angustiantes, Agora, o que mais vemos não é sempre o que nos inspira respeito. A explicação do fenómeno é dada pelos próprios consumidores que, sobre estes programas, declaram escolhê-los para descomprimir, relaxar depois de um dia de trabalho "stressante" e extenuante.
O divertimento, a descontração, o descanso tornaram-se nas grandes molas de consumo cultural: o sucesso das comédias, na forma ecumenicamente mais popular, mostra-o bem.
A cultura clássica tinha a ambição de formar, educar, elevar o homem: agora pedimos á cultura exactamente o contrário, que nos "esvazie a cabeça". "
Gilles Lipovetsky - O capitalismo estético na era da globalização - edições 70
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Saúde e boas leituras
cp
O meu contributo:
ResponderEliminar«Durante nove anos, Blimunda procurou Baltasar. Conheceu todos os caminhos do pó e da lama, a branda areia, a pedra aguda, tantas vezes a geada rangente e assassina, dois nevões de que só saiu viva porque ainda não queria morrer. Tisnou-se de sol como um ramo de árvore retirado do lume antes de lhe chegar a hora das cinzas (...). Onde chegava, perguntava se tinham visto por ali um homem com estes e aqueles sinais, a mão esquerda de menos, e alto como um soldado da guarda real, barba toda grisalha, mas se entretanto a rapou, é uma cara que não se esquece, pelo menos não a esqueci eu (...). Julgavam-na doida, mas, se ela se deixava ficar por ali uns tempos, viam-na tão sensata em todas as mais palavras e acções que duvidavam da primeira suspeita de pouco siso. Por fim já era conhecida de terra em terra, a pontos de não raro a preceder o nome de Voadora.»
José Saramago, 'Memorial do Convento'
Bom dia. Obrigada pelas partilhas! Boas leituras!
O comentário anterior, que ficou anónimo, é meu. :)
EliminarComecei a ler estas páginas à boleia de uma sugestão das Horas Extraordinárias. Não me arrependi: conhecer Jon Fosse foi o que melhor me aconteceu nos últimos tempos; pela poética da prosa, pela originalidade do estilo e pela qualidade das digressões, vale muito a pena. Para mim, este é - utilizando a linguagem da Rosário - um livro com "L" grande. Ora vejam, neste bocadinho:
ResponderEliminar«[...] um espírito de Deus, que está em tudo, e transforma tudo em mais que um nada, lhe dá significado, e cor, e essa, pensa Olai, é a razão pela qual a palavra e o espírito de Deus estão em tudo, as coisas são mesmo assim, tem a certeza disso, pensa Olai, mas a vontade de Satanás também opera, tem disso igual certeza, e se um tem mais presença do que o outro, não, disso não tem de todo a mesma certeza, pensa Olai, porque eles guerreiam entre si, guerreiam para ver qual dos dois será o mais forte, e provavelmente o mesmo terá acontecido quando o mundo foi criado também, pensa Olai, que Deus criou o mundo e dele fez um lugar bom e que Ele é omnipotente e omnisciente como têm por hábito dizer os devotos, não, ele nunca acreditou inteiramente nisso, mas que Deus existe, não, não há nenhuma dúvida quanto a isso, porque Deus existe de facto, mas muito, muito longe e muito, muito perto, pois Ele está em todos, e que a distância entre o Deus longínquo e não omnipotente e cada ser humano não omnipotente diminuiu quando Deus se fez humano e viveu entre nós, quando Jesus andou na terra, não, disso ele também nunca duvidou, mas que Deus tudo rege e tudo decide e que só por vontade de Deus tudo acontece, não, nisso ele não acredita, tão certo como ele ser Olai e ser pescador e estar casado Marta e ser filho de Johannes e agora, a qualquer momento, vir a ser pai de um rapazinho que, como o pai, se chamará Johannes. Existe um Deus, sim, pensa Olai. Mas está longe, e está muito perto. E não é omnisciente nem omnipotente. E não cabe a esse Deus a regência exclusiva do mundo e da humanidade, sim, bem.»
Jon Fosse, Manhã e Noite, trad. Manuel Alberto Vieira, Cavalo de Ferro, 2020
(Obrigado pela sugestão, Rosário!)
Guilherme Henriques
"(...) hoje morreu-me a minha terra, hoje tornei-me um desterrado, vivemos na certeza de que as terras não morrem, vivemos na certeza de que a terra onde enterramos os nossos mortos será nossa para sempre e que também nunca faltará aos nosos filhos a terra onde os fizemos nascer, vivemos nessa certeza porque nunca pensamos que a terra pode morrerer-nos, mas hoje morreu-me a minha terra, hoje morreram os meus mortos e os meus filhos perderam a terra onde os fiz nascer, os meus filhos desterrados como eu. O Pacaça cala-se e começa a falar o Belchior, estou de luto pela terra onde fui gente, antes de ir para lá era uma barriga inchada de fome e uma cabeça cheia de piolhos."
ResponderEliminarDulce Maria Cardoso, O Retorno.
«Leves e de um azul metálico, movidas por uma brisa contrária suave, quase imperceptível, as ondas do mar Adriático rolavam ao encontro da armada imperial, quando esta, tendo à esquerda as colinas rasas e cada vez mais próximas da costa calabresa, se dirigia para o porto de Brindisi e então, quando a solidão do mar cheia de sol, mas mesmo assim tão prenunciadora de morte, deu lugar à pacífica alegria da actividade humana, quando as águas, suavemente brilhantes com a proximidade da existência de homens e das suas casas, se povoaram de variadíssimos barcos, uns que também se dirigiam para o porto, outros que dali saíam, então, quando os barcos de pescadores com as suas velas castanhas estavam precisamente a sair dos pequenos molhes de todas as inúmeras aldeias e povoações ao longo da orla salpicada de branco, para se dirigirem à sua pesca nocturna, então a água ficou quase tão lisa como um espelho; como uma madrepérola, abrira-se por cima a concha do céu, anoitecia, e sentia-se o cheiro a lenha das lareiras, sempre que o vento trazia os sons da vida, uma martelada ou um grito, desde a costa até ao mar.»
ResponderEliminarHermann Broch, A Morte de Virgílio
(Tradução de Maria Adélia Silva Neto)
Suponho que é Melo, e não Neto (a tradutora).
EliminarSim, grato pela correcção.
Eliminar[...]
ResponderEliminar«Não falávamos muito, não tínhamos grande coisa a dizer. De resto, para que servem as palavras quando estamos de ideias fixas? Para nos insultarmos e nada mais.»
[...]
("Viagem ao fim da noite" - Louis-Ferdinand Céline)
[...]
«Miséria por miséria, antes a que não faz barulho de preferência à que é desvendada pelos jornais. A dos outros… a alheia.»
[...]
("Viagem ao fim da noite" - Louis-Ferdinand Céline)
ResponderEliminar«Naquele tempo, o deserto encontrava-se povoado por anacoretas.
Anatole France em «Thais», pág. 9, tradução de Manuel de Freitas, Edições Antígona.
Obrigado pela partilha. "Suzanne imobilizou-se e (...)". Fitou?
ResponderEliminarCorrigido, Obrigada.
Eliminar"- Coisa magnífica, a destruição de palavras. Claro, a grande quebra é nos verbos e nos adjectivos, mas há centenas de substantivos que podem ser dispensados. E não são só os sinónimos; há também os antónimos. Afinal de contas, qual a razão de ser de uma palavra que seja simplesmente o contrário de outra? Cada palavra contém em si própria o seu contrário. Olha, «bom», por exemplo. Se temos a palavra «bom», para que é que precisamos da palavra «mau»? «Imbom» faz o mesmo efeito. Melhor, até, porque é rigorosamente o oposto de «bom», coisa que «mau» não é. Ou ainda, se queremos a versão mais forte de «bom», que sentido faz termos toda uma série de palavras vagas e inúteis como «excelente», «esplêndido» ou outras que tais? «Extrabom» cobre perfeitamente este sentido; ou «duploextrabom», se se pretender um termo ainda mais forte. É claro, nós já usamos estas formas, mas na versão final da Novilíngua não haverá outras. No fim todo o conceito de bondade e maldade será abarcado apenas por seis palavras... que são, no fundo, uma única. Não vês a beleza disto, Winston?
ResponderEliminar(...)
- Não vês que a finalidade da novilíngua é precisamente restringir o campo do pensamento? Acabaremos por fazer com que o crimepensar seja literalmente impossível, pois não haverá palavras para o exprimir. Todos os conceitos de que possamos ter necessidade serão expressos, cada um deles, exclusivamente por uma palavra, de significação rigorosamente definida, sendo eliminados e votados ao esquecimento todos os seus sentidos subsidiários. Na Décima Primeira Edição já não estamos longe desse objectivo. Mas o processo continuará muito depois de tu e eu termos morrido. Ano após ano, cada vez menos palavras, e o alcance da consciência cada vez mais limitado. Mesmo hoje, como é evidente, não há motivo ou desculpa para se cometer um crimepensar. Simples questão de autodisciplina, de controlo da realidade. Mas no futuro nem mesmo isso será necessário. A Revolução ficará completa quando a língua for perfeita. A Novilíngua é o SOCING e o SOCING é a novilíngua - acrescentou com uma espécie de exaltação mística. - Já alguma vez pensaste, Winston, que no ano 2050, o mais tardar, não haverá um único ser humano capaz de entender uma conversa como a que estamos a ter agora?"
George Orwell, 1984, Trad. Ana Luísa Faria, ed. Antígona
Muito bonito o trecho que escolheu, eu vou escolher um trecho do livro "a lua e as fogueiras" de Cesare Pavese.
ResponderEliminar(...) 'Ele folheava os livros, batia com eles para sacudir o mofo, mas só por os tocar um bocado as mãos ficavam-lhe geladas. Eram coisas dos avós, do pai do sor Matteo, que tinha estudado em Alba. Havia uns escritos em latim como o livro da missa, daqueles com mouros e feras, e foi assim que vi como era o elefante, o leão, a baleia. Alguns, Nuto tinha pegado neles e tinha-os levado para casa debaixo da camisola, "também", dizia ele, "ninguém lhes dá uso".
- Para que os queres? - perguntei eu. - Não compras já o jornal?
- São livros - disse ele -, lê - os o mais que possas. Serás sempre um desgraçado se não lês livros. '
(...)
Estou identificado como anónimo por isso identifico-me: Henrique Cheira
EliminarÉ desta que finalmente que vou ler Pavese.
EliminarPelo que percebi seria a citação tirada daquilo que andamos a ler, ou lemos recentemente, no sentido de interessar outrem nisso?
ResponderEliminarO que seleccionei, mais ou menos ao acaso mas simples, e, directo... aliás irrebatível:
"Sentou-se em frente do coronel que se mantinha fardado e atacava ruidosamente uns ovos mexidos com umas salsichas que ia pontuando com o pão escuro, de centeio.
Então continuas a comer?
É a melhor coisa da vida.
A melhor? Tens pouca imaginação.
Se tivesses passado fome as tuas prioridades eram outras."
"A assembleia foi-se desfazendo e os novos crentes iam passando por Francisco despedindo-se, de quem recebiam um toque com a mão direita no ombro, ou uma festa na cara, após o namasté. Muitos intocáveis eram assim tocados sob o olhar horrorizado do brâmane.
Sabe que alguns desses homens são intocáveis?
Ninguém é intocável, somos todos irmãos..."
IMPROVÁVEL - António Rocha Pinto
"É uma terra sombria. Não tem mais do que uma fábrica de algodão, casas de duas assoalhadas onde vivem os operários, alguns pessegueiros, a igreja com duas janelas de vitral e uma rua principal, feia, com apenas cem jardas de comprimento. Aos sábados, os rendeiros das quintas em redor vão até lá para um dia de conversa e compras. Nos outros dias está vazia e triste, como todos os lugares perdidos e distantes do mundo."
ResponderEliminar-este é o início do pequeno mas excelente livro "A balada do café triste" - Carson McCullers
"Havia uma razão profunda para o café ser tão enaltecido. E esta razão profunda tinha que ver com um determinado orgulho antes desconhecido. Para compreender este novo sentimento é preciso não esquecer o pouco valor que se atribui à vida humana. Muita gente dependia da fábrica, mas era rara a família que tinha o suficiente para comer e vestir. A vida pode tornar-se numa luta desordenada apenas porque se tem de obter aquilo que é necessário para manter as pessoas vivas. E o problema reside nisto: todas as coisas têm um valor, e é preciso dinheiro para as ter, pois é assim que o mundo funciona. Sabe-se quanto custa o fardo de algodão ou uma quarta de melaço. Mas a vida humana não tem preço: é-nos dada de graça e levam-na sem pagar nada. Quanto vale? A julgar pelo que nos rodeia, por vezes o seu valor é pouco ou nenhum. Muitas vezes esforçamo-nos sem descanso e as coisas não melhoram, e depois surge a sensação de que não se vale nada.
EliminarOra, o orgulho que o café despertou na povoação, teve um claro efeito em quase toda a gente, incluindo as crianças. Para ali se estar não era preciso pagar o jantar ou um quarto de whisky. Havia bebidas a níquel para quem não pudesse pagar mais e Miss Amélia vendia uma bebida, «Cherry Juice» cor-de-rosa e muito doce, a um penny o copo. Quase todos, com excepção do Reverendo T.M. Willin, passavam pelo café pelo menos uma vez por semana. As crianças adoram adormecer em casas diferentes das suas e comer à mesa dos vizinhos; em tais ocasiões, comportam-se sempre bem e sentem-se orgulhosas disso. As pessoas da terra sentiam o mesmo tipo de orgulho ao sentarem-se no café. Lavavam-se e limpavam a sola das botas antes de entrarem. Aí, pelo menos durante algum tempo, o amargo sentimento de não se valer nada neste mundo quase desaparecia."
Carson McCullers, "Balada do Café Triste", trad. José M. Guardado Moreira, ed. Relógio D'Água
Ó LAC, a Carson McCullers era realmente uma grande grande escritora!
Eliminar"Depois, já com alguma confiança, Adrià confessou-lhe que Herr Romeu era mais aborrecido do que uma tarde de domingo e ele olhou-me com um daqueles olhares incisivos que, aos sessenta anos, ainda me angustia.
ResponderEliminar- O que é que disseste?
- Que Herr Romeu...
- Não; mais aborrecido do que quê?
- Não sei.
- Ai sabes, sabes.
- Do que uma tarde de domingo.
- Muito bem.
O pai tinha sempre razão. Fez um silêncio que mais parecia estar a guardar as minhas palavras no bolso, para a colecção. Depois de bem guardadas, retomou a conversa.
- Aborrecido, porquê?
- Passa o santo dia a obrigar-me a estudar declinações e desinências que já sei de cor e a fazer-me repetir este queijo de vaca é muito bom; onde o compraste? (...)
- E o que é que queres aprender?
- Não sei. Quero ler alguma história divertida. Quero ler Karl May em alemão.
- Muito bem, acho que tens razão.
Repito: muito bem, acho que tens razão. E esclareço melhor: foi a única vez na vida que me deu razão. Se eu fosse fetichista, teria emoldurado a frase, o dia e a hora do acontecimento. E teria tirado uma fotografia a preto e branco."
Jaume Cabré, eu confesso, Tinta da China, 2015. Trad. Mª João Teixeira Moreno
(sete prémios ; considerado uma obra prima quer em Espanha quer em França. Na minha modestíssima opinião, um romance sobre o mal, absolutamente extraordinário que se lê com imenso prazer e com avidez).
Mª de Fátima Candeias
Conversa na Catedral foi editado em 1969, teria Vargas Llosa 33 anos. Apesar da história se passar no Peru, numa época de ditadura, é para mim um livro onde cabe a vida toda, o mundo inteiro. Tem uma galeria de personagens fabulosa, que vai desde uma empregada de limpeza ao ministro mais poderoso. De todos temos os sonhos, os arrependimentos, os traumas. O livro tem um tom triste e melancólico, a prosa é magistral, o enredo anda para trás e para a frente, é polifónico, o texto tem ritmo, humor, amargura, está lá tudo. Não é de leitura fácil ou imediata, os diálogos aparecem muitas vezes pelo meio da narração, bem como os pensamentos das personagens. Este livro é descrito muitas vezes como uma conversa numa tasca entre duas pessoas, mas é muito mais que isso. Foi neste livro que vi, por várias vezes, uma coisa que considero magistral: há um diálogo onde é feita uma questão e a mesma é respondida no texto na linha imediatamente a seguir, que é já outro diálogo, entre outras personagens, noutro tempo e espaço. Enfim, um livro magistral, repleto de truques literários. O que eu levaria para a tal ilha deserta: Mario Vargas Llosa – Conversa na Catedral. Transcrevo o primeiro parágrafo.
ResponderEliminar“Da porta de La Crónica, Santiago contempla a Avenida Tacna, sem amor: automóveis, edifícios desiguais e desbotados, esqueletos de anúncios luminosos a flutuar na neblina, o meio-dia cinzento. Em que altura se tinha fodido o Peru? Os ardinas vagueiam entre os veículos detidos pelo semáforo da Wilson, apregoando os jornais da tarde, e ele começa a andar, cabisbaixo, é escoltado por transeuntes que se dirigem, também, à Plaza San Martín. Ele era como o Peru, Zavalita, a certa altura, tinha-se fodido. Pensa: em que altura? De fronte do Hotel Grillón, um cão vem lamber-lhe os pés: põe-te a mexer, não vás estar raivoso. O Peru fodido, pensa, Carlitos fodido, todos fodidos. Pensa: não há solução. Vê uma enorme bicha na paragem dos colectivos para Miraflores, atravessa a praça e lá está Norwin, olá amigo, numa mesa do Bar Zela, senta-te Zavalita, segurando um pisco com ginger ale, engraxando os sapatos, a oferecer-lhe uma bebida. Não parece bêbado por enquanto e Santiago senta-se, faz sinal ao engraxador para lhe engraxar também os sapatos. Pronto, chefe, deixar-lhos-ia a brilhar como um espelho, chefe.”
Bom fim-de-semana a todos,
Rui Miguel Almeida
CONVERSA NA CATEDRAL -vai ser um dos próximos a ler.
Eliminar"E o pior é pensar onde havemos de arranjar forças para no dia seguinte continuar a fazer o que fizemos na véspera e ainda em tantos outros dias já passados, onde encontraremos forças para tantas diligências imbecis, para mil e um projectos que não conduzem a nada, para as tentativas de vencer uma acabrunhante necessidade, tentativas que acabam sempre por abortar, e tudo isso para nos capacitarmos uma vez mais de que o destino é imutável e que o melhor é conformarmo-nos em ter de cair todas as noites da muralha abaixo, sob a angústia desse dia seguinte, sempre mais instável e sórdido.
ResponderEliminarÉ talvez a idade que surge, traidora e nos ameaça com o pior. Já não existe dentro de cada um de nós música suficiente para fazer dançar a vida, aí está. Toda a juventude nos abandonou para ir morrer no fim do mundo, num silêncio de verdade. Para onde ir agora, pergunto, depois de não possuirmos em nós a soma bastante de delírio. A verdade é uma agonia sem fim. A verdade deste mundo é a morte. Precisamos escolher: mentir ou morrer. E eu nunca consegui matar-me."
Céline-Viagem ao Fim da Noite-Pág. 190-Ulisseia-Junho 1973
Difícil foi entre tantos livros lidos, escolher aquela frase ou trecho que nos encantou.
ResponderEliminarEntre Urbano Tavares Rodrigues e o seu "Exílio perturbado" e Rui Belo com o seu "Transporte no tempo" acabei por escolher um trecho do livro "O pão não cai do céu" de José Rodrigues Migueis.
"Chegado ao Barreiro, o estudante José Boleto tomou lugar quase à cabeceira do comboio, numa obscura carruagem de terceira que cheirava a suor, a urina, azeite queimado e fumo de carvão.
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Soltou a correia, abriu a janela e, de cotovelos no peitoril, ficou a observar a plataforma da estação, onde o negrume era ainda maior que na carruagem. "
Este é apenas um pequeno extracto de um livro que recomendo vivamente. De JRM recomendo tudo.
Boas leituras. Bom fim de semana.
O meu contributo de hoje, muito curto, mas que retrata bem o atual estado de espírito de muita gente: "(...) crescente número de pessoas ingressadas em estado de vida suspensa (...)". José Saramago, "As Intermitências da morte", Porto Editora, 7.° edição (pág. 29). Bom fim de semana e boas leituras. Susana
ResponderEliminarPorque escrevo? O meu dedo, como um estilete, desenha no ar um ponto de interrogação. Uma obsessão familiar de que me lembro desde criança quando me retirava das brincadeiras e do convívio com os amigos e me afastava das eventuais delícias do amor para ficar cercada por palavras e dominada por uma pulsação que me era externa.
ResponderEliminarPorque escrevemos?, pergunta em uníssono o grande coro de quem escreve.
Porque não nos podemos limitar a viver.
Patti Smith
(Devoção, pag. 125)
Tradução: Helder Moura Pereira
Edição Quetzal, 2019.
Poderia ter escolhido outro, hoje foi este.
Bom fds para todos!
🌾
Maria
"Embora este lugar seja excelente para luas de mel, devo dizer que muitas vezes tenho pensado se não deveriam também experimentar usá-lo para divórcios -- quer os que estão em curso, quer os já consumados. Não há melhor pano de fundo para o dissipar de um enlevo; quer a razão esteja ou não do seu lado, nenhum egoísta consegue conservar por muito tempo o estrelato neste cenário de porcelana à beira da água cristalina, pois o cenário rouba-lhe a primazia"
ResponderEliminarMARCA DE ÁGUA Sobre Veneza JOSEPH BRODSKY
Obs:
Verdadeira declaração de amor a uma cidade
"O pessimismo tem pouca viabilidade como fórmula democrática. Os que choram o mal do mundo são isolados - não choram senão o próprio. (…) Quando vejo um gato ao sol lembra-me sempre do homem ao sol."
ResponderEliminarLivro do Desassossego por Bernardo Soares
«Querida. Veio-me hoje uma vontade enorme de te amar. E então pensei: vou-te escrever. Mas não te quero amar no tempo em que te lembro. Quero-te amar antes, muito antes. É quando o que é grande acontece. E não me digas diz lá porquê. Não sei. O que é grande acontece no eterno e o amor é assim, devias saber. Ama-se como se tem uma iluminação, deves ter ouvido. Ou se bate forte com a cabeça. Pelo menos comigo foi assim. Ou como quando se dá uma conjunção de astros no infinito deve vir nos livros. [...] Ponho-me a lembrar o que passou e o que me lembra é só a tua presença forte ao pé de mim. E depois acabou. [...] Na realidade foi tudo mais devagar. Mas tudo quanto foi acontecendo foi o modo circunstancial de haver agora eternidade acima dessa circunstância - expliquei-me?»
ResponderEliminar«Em Nome da Terra», de Vergílio Ferreira (Quetzal Editores, 2009)
(Parabéns pelo blog! Sou uma seguidora recente, mas assídua. Esta ideia do excerto da quinzena é fantástica! Obrigada.)
Boa noite,
ResponderEliminarEste excerto, que a ouvi ler em Dezembro, fez-me entrar no mundo de Marguerite Duras pela primeira vez. Obrigada por o ter aberto para mim. Tem sido uma viagem extraordinária.
Partilho um excerto de "O Amante" de Marguerite Duras:
"De vez em quando a minha mãe decreta: amanhã vamos ao fotógrafo.
Queixa-se do preço mas mesmo assim faz a despesa das fotografias de família. As fotografias, olhamo-las, não nos olhamos mas olhamos as fotografias, cada um separadamente, sem uma palavra de comentário, mas olhamo-las, vemo-nos. Vemos os outros membros da família um por um ou em conjunto. Revemo-nos quando éramos muito pequenos em fotografias antigas e olhamo-nos nas fotografias recentes. A separação ainda cresceu mais entre nós. Uma vez olhadas, as fotografias são arrumadas com a roupa branca nos armários. A minha mãe leva-nos a tirar fotografias para nos poder ver, ver se crescemos normalmente. Olha-nos longamente como outras mães, outros filhos. Compara as fotografias entre si, fala do crescimento de cada um. Ninguém lhe responde."
A lei é capa de ladrões sagazes e de infelizes tolos que lhe pedem proteção.
ResponderEliminarCamilo - Memórias do Cárcere
" Quando Março António julgava estar prestes a governar o mundo, quis
ResponderEliminardeslumbrar Cleópatra com um presente. Sabia que o ouro,as jóias ou os banquetes não conseguiriam acender uma luz de assombro nos olhos da sua amante, porque ela se tinha habituado a esbanjá- los diariamente. Certa vez, durante uma madrugada alcoólica, num gesto de ostentação provocatória, ela dissolveu uma pérola de tamanho fabuloso em vinagre e bebeu- a. Por isso, Marco António escolheu um presente do qual Cleópatra não poderia desdenhar com um ar aborrecido: pôs aos seus pés duzentos mil volumes para a Grande Biblioteca. Em Alexandria, os livros eram combustível para as paixões."
O Infinito num Junco, Irene Vallejo
Bfs
Teresa Biu
Tenho de dizer que os seus escritos são uma inspiração, sempre. Os seus e as transcrições que escolhe.
ResponderEliminarObrigado!