Crónica e luto
Hoje é dia de crónica, e aqui vai o link:
https://www.dn.pt/edicao-do-dia/28-mar-2020/preparem-se-11990726.html
Nos últimos dias morreram dois escritores que tive o prazer de conhecer pessoalmente (e, claro, de ler): o brasileiro Rubem Fonseca e o chileno Luis Sepúlveda. A primeira morte não teve que ver com o vírus (Rubem tinha 90 e tal anos, chegou a a sua hora), mas a segunda, sim, e foi penosa em todos os sentidos porque a doença se arrastou muito tempo e não houve salvação. Além da perda, se já temos medo de ser afectados não conhecendo ninguém com o vírus, torna-se ainda mais difícil quando ele passa a ter nomes próximos e a levar-nos amigos. Mas, diante da morte, resta-nos fazer o luto, que também se faz não deixando morrer quem partiu. Assim, hoje sugiro livros destes dois escritores, os primeiros que li de cada um deles (não necessariamente os melhores, atenção): O Buraco na Parede, de Rubem Fonseca; Mundo do Fim do Mundo, do nosso Lucho. Que ambos descansem em paz.
Confesso nunca ter lido nada de Ruben Fonseca... nunca me despertou a vontade de o ler, e, recordo de ter visto várias vezes livros seus expostos na livraria onde mais vou (Bertrand - Santarém), porém havia sempre outros que se sobrepunham e nunca levei nenhum dos dele.
ResponderEliminarJá de Luis Sepúlveda, sim, li vários pois me interessa bastante as gentes e os lugares sobre os quais escreveu. Devo dizer que gostei, se bem que nem por isso do gato e da gaivota, mas sim do velho dos romances, do do fim do Mundo, do expresso, Terra do Fogo... sobretudo as viagens e as gentes, repito.
Volto a dizer que penso que o escritor não morre, fica nos seus livros, indelévelmente, ganha através deles a eternidade.
Saudações , saúde, apetite e fim de semana tranquilo são os meus votos cá da Cidade Morena!
PS - Graças às muitas sugestões e conversas aqui tidas, certamente que há coisas para ler, ou em casa, nas prateleiras, ou vão investigar o Google serve para isso.
Como o António gosta de biografias, experimente ler o "José". É um livro pequeno onde ele, José Rubem Fonseca, conta a sua história de descendente de emigrantes portugueses.
EliminarTem passagens extraordinárias, ele escreve muito bem; contudo, não posso garantir que vá gostar, é apenas uma sugestão.
🌻
Maria
Uma excelente sugestão!
EliminarPorque assim terei mesmo um motivo para ler este autor... muito obrigado, pois de uma assentada me dá dois argumentos irrecusáveis!
Muito obrigado pela sua atenção!
Quanto à crónica... não sei se sou ratinho, se ratão ou mosca da fruta, mas sendo embora sociável, tendo para ser um Ortigão, para o eremita!
ResponderEliminarTalvez por ter sido criado numa quinta, onde nem por isso tinha companheiros da minha idade e me habituei a brincar sózinho, explorando a biblioteca. Não me creio um solitário, mas prefiro caçar sózinho com o meu cão, do que "em linha", a pesca submarina é por definição um desporto solitário e os praticantes reconhecidamente individualistas, a minha actividade profissional foi muitas vezes feita sózinho, mas funciono bem em equipa - sobretudo sendo eu a dirigir - e nestes últimos anos, o isolamento, o afastamento dos meus e do que era o meu Mundo, também me ensinou muitas coisas, mas se resisto bem é porque já tinha essa tendência e fui assim formado, é um facto.
Hoje, nas novas gerações depende-se demasiado una dos outros, ao ponto de o telemóvel se ter tornado um vício insuportável expresso no afã de se estar sempre "on line" a partilhar tudo o que se faz ou vê!
No fundo há desequilíbrio mental nisso, penso eu... nem tanto eremita nem tanto rei da festa!
Sem passado, não há futuro... e nem presente!
Não vou falar de obituário nem volto aqui com notícias sobre "de cujus" (nome empregue em Direito para se não nomear o falecido), evitando omissões e constrangimentos, pelo que vou apenas lembrar um livro sobre contos em que o cerne é a solidão. "Sozinho na Multidão", de vários autores como Miguel Real, Paulo Moreiras, José Fanha, Sílvia Alves e Ana Machado, entre outros, vem no seguimento da Crónica.
ResponderEliminarAinda quanto ao texto do DN, 17 anos em solidão não imposta, é obra! Sete anos já seria muito, dependendo da idade com que se começou esse "retiro", o que a Autora não explica.
"Mundo do Fim do Mundo" é uma viagem até ao limite da terra do autor, a pretexto das baleias e de Moby Dick, tema que Sepúlveda levou a "História de uma Baleia Branca".
Tenham um bom fim-de-semana... Em casa, de roupão enfiado e a chegarem à janela em bicos de pés!
Em dois dias a literatura perdeu dois escritores de eleição, que li e que gostava, é portanto um tempo de tristeza para quem como eu gosta de livros e de autores.
ResponderEliminarQuanto à solidão ela só é boa em doses qb.
Henrique Cheira
De Rubem Fonseca, tenho O caso Morel, que adquiri com a colecção Mil Folhas do Público e terei adquirido, mais recentemente, A grande Arte, seguindo o meu critério de compra, que normalmente implica a leitura de cinco a dez minutos, sentado, de vários extractos aleatórios ao longo do livro. Mas não, ainda não li Rubem Fonseca. Em Sepúlveda, o caso é bem diferente, a sua leitura trata-se de uma paixão antiga e arreigada. Não sei como, mas "O velho que lia romances de amor" caiu-me nas mãos, li-o e encantou-me de imediato. Daí para a frente, comprei tudo de Sepúlveda, então editado na colecção "pequenos prazeres" da ASA. Não sei se agora é aí editado. Diário de um Killer sentimental, Encontros de amor num país em guerra, Nome de toureiro, Patagónia Express, Mundo do fim do mundo, As rosas de Atacama. Estamos a falar de edições na década de 90, julgo. Eu conheço mal a vida do autor. Sei que foi um activista político e ambiental, pouco mais. Os livros que mais me marcaram porém, foram os três últimos, que pintam essas terras do sul, do sul americano, a Patagónia e a Terra do fogo, esses lugares mágicos, quase inóspitos. Lembro-me vagamente de uma descrição que ele faz num dos livros, duma taberna algures em Punta Arenas, associada aos pescadores locais e à sua vida de quase exploradores, nos mares impiedosos do Cabo Horn, onde o continente americano vê a Antártida. De As rosas de Atacama, lembro-me já vagamente, que seja uma compilação de crónicas, onde a que dá nome ao livro fala desse fenómeno quase milagroso e muito difícil de testemunhar in loco, que é o renascimento em condições metereológicas específicas desse horizonte rosado no deserto de Atacama. Julgo que há uma crónica do Fernando Alves (muito bonita, de resto, como é comum no radialista), na TSF dedicada às rosas de Atacama (é procurar nos arquivos podcast da TSF). A história da gaivota e do gato que a ensinou a voar é uma fábula muito bonita, até para adultos, que se passa num terraço de Hamburgo, cidade portuária, onde o autor terá vivido quando colaborou com a Greenpeace. Os piores contos dos Irmãos Grim, foi o último livro de Sepúlveda que comprei, mas ainda não li.
ResponderEliminarEu também gostava (e gosto) muito destes dois, embora fossem escritores muito diferentes.
ResponderEliminarRubem Fonseca: comecei em 2003 com o livro de contos Pequenas Criaturas, da Campo das Letras, logo seguido do #87 da Colecção Mil Folhas O Caso Morel.
Voltei a ele, já na Sextante, com O Seminarista, A Grande Arte, o José e tantos outros...
Estranhei a linguagem, depois entranhei: a qualidade e originalidade da escrita eram muito superiores a esse pormenor.
Sepúlveda: comecei com o Velho, depois li o Gato, e nunca mais deixei de o ler: fui sempre comprando e lendo.
Tenho alguns escritores assim, vão-me acompanhando ao longo da vida; agora restam-me as releituras...
Bom fim-de-semana.
🌻
Maria
Rubem Fonseca:
ResponderEliminarSó para o lembrar, com saudade:
https://youtu.be/QqjLOOs8h5k
Grato pelo esplêndido documento.
EliminarEmbora seja um lugar comum, não deixa de ser verdade, os bons livros imortalizam os seus autores. E Rubem e Luís irão continuar entre nós...
ResponderEliminarLi ambos, mas tinha mais afinidades com o Luís (escrevi sobre elas no meu "largo"...).
"O Velho que Lia Romances de Amor" está no "top 10" dos livros que mais gostei de ler...
O escritor Rubem Fonseca representa para além das letras, uma áurea entusiasta do contemporâneo. De olhar magnético o entendemos sob clareza salutar.
ResponderEliminarCom relação a crônica, amei.
Cláudia da Silva Tomazi
EL LABERINTO DE LA SOLEDAD
ResponderEliminarYuri viu que a Terra é azul e disse a Terra é azul.
Depois disso, ao ver que a folha era verde disse
a folha é verde, via que a água era transparente
e dizia a água é transparente via a chuva que caía
e dizia a chuva está caindo via que a noite surgia
e dizia lá vem a noite, por isso uns amigos diziam
que Yuri era só obviedades enquanto outros
atestavam que tolo se limitava a tautologias
e inimigos juravam que Yuri era um idiota
que se comovia mais que o esperado; chorava
nos museus, teatros, diante da televisão, alguém
varrendo a manhã, cafés vazios no fim da noite,
sacos de carvão; a neve caindo, dizia é branca
a neve e chorava; se estava triste, se alegre,
essa mágoa; mas ria se via um besouro dizia
um besouro e ria; vizinhos e cunhados decretaram:
o homem estava doido; mas sua mulher assegurava
que ele apenas voltara sentimental. O astronauta
lacrimoso sentia o peito tangido de amor total
ao ver as filhas brincando de passar anel
e de melancolia ao deparar com antigas fotos
de Klushino, não aquela dos livros, estufada
de pendões e medalhas, mas sua aldeia menina,
dos carpinteiros, das luas e lobisomens,
de seu tio Pavel, de sua mãe, do trem,
de seus primos, coisas assim, luvas velhas,
furadas, que servem somente para chorar.
Era constrangedor o modo como os olhos
de Yuri pareciam transpassar parede,
nas reuniões de trabalho, nas solenidades,
nas discussões das metas para o próximo ano
e no instante seguinte podiam se encher de água
e os dentes ficavam quase azuis de um sorriso
inexplicável; um velho general, ironicamente
ou não, afirmara em relatório oficial que Yuri
Gagarin vinha sofrendo de uma ternura
devastadora; sabe-se lá o que isso significava,
mas parecia que era exatamante isso, porque
o herói não voltou místico ou religioso, ficou
doce, e podia dizer eu amo você com a facilidade
de um pequeno-burguês, conforme sentença
do Partido a portas fechadas. Certo dia, contam,
caiu aos pés de Octavio Paz; descuidado tropeçara
de paixão pelas telas cubistas degeneradas de Picasso.
Médicos recomendaram vodka, férias, Marx,
barbitúricos; o pobre-diabo fez de tudo
para ser igual a todo mundo; mas,
quando aparecia apenas banal, logo dizia coisas
como a leveza é leve. Desde o início,
quiseram calá-lo; uma pena; Yuri voltou vivo
e não nos contou como é a morte.
Eucanãa Ferraz
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