Crónica e luto

Hoje é dia de crónica, e aqui vai o link:


https://www.dn.pt/edicao-do-dia/28-mar-2020/preparem-se-11990726.html


Nos últimos dias morreram dois escritores que tive o prazer de conhecer pessoalmente (e, claro, de ler): o brasileiro Rubem Fonseca e o chileno Luis Sepúlveda. A primeira morte não teve que ver com o vírus (Rubem tinha 90 e tal anos, chegou a a sua hora), mas a segunda, sim, e foi penosa em todos os sentidos porque a doença se arrastou muito tempo e não houve salvação. Além da perda, se já temos medo de ser afectados não conhecendo ninguém com o vírus, torna-se ainda mais difícil quando ele passa a ter nomes próximos e a levar-nos amigos. Mas, diante da morte, resta-nos fazer o luto, que também se faz não deixando morrer quem partiu. Assim, hoje sugiro livros destes dois escritores,  os primeiros que li de cada um deles (não necessariamente os melhores, atenção): O Buraco na Parede, de Rubem Fonseca; Mundo do Fim do Mundo, do nosso Lucho. Que ambos descansem em paz.

Comentários

  1. António Luiz Pacheco17 de abril de 2020 às 01:21

    Confesso nunca ter lido nada de Ruben Fonseca... nunca me despertou a vontade de o ler, e, recordo de ter visto várias vezes livros seus expostos na livraria onde mais vou (Bertrand - Santarém), porém havia sempre outros que se sobrepunham e nunca levei nenhum dos dele.

    Já de Luis Sepúlveda, sim, li vários pois me interessa bastante as gentes e os lugares sobre os quais escreveu. Devo dizer que gostei, se bem que nem por isso do gato e da gaivota, mas sim do velho dos romances, do do fim do Mundo, do expresso, Terra do Fogo... sobretudo as viagens e as gentes, repito.

    Volto a dizer que penso que o escritor não morre, fica nos seus livros, indelévelmente, ganha através deles a eternidade.

    Saudações , saúde, apetite e fim de semana tranquilo são os meus votos cá da Cidade Morena!

    PS - Graças às muitas sugestões e conversas aqui tidas, certamente que há coisas para ler, ou em casa, nas prateleiras, ou vão investigar o Google serve para isso.

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    Respostas
    1. Como o António gosta de biografias, experimente ler o "José". É um livro pequeno onde ele, José Rubem Fonseca, conta a sua história de descendente de emigrantes portugueses.
      Tem passagens extraordinárias, ele escreve muito bem; contudo, não posso garantir que vá gostar, é apenas uma sugestão.
      🌻
      Maria

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    2. António Luiz Pacheco17 de abril de 2020 às 03:17

      Uma excelente sugestão!
      Porque assim terei mesmo um motivo para ler este autor... muito obrigado, pois de uma assentada me dá dois argumentos irrecusáveis!

      Muito obrigado pela sua atenção!

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  2. António Luiz Pacheco17 de abril de 2020 às 01:32

    Quanto à crónica... não sei se sou ratinho, se ratão ou mosca da fruta, mas sendo embora sociável, tendo para ser um Ortigão, para o eremita!
    Talvez por ter sido criado numa quinta, onde nem por isso tinha companheiros da minha idade e me habituei a brincar sózinho, explorando a biblioteca. Não me creio um solitário, mas prefiro caçar sózinho com o meu cão, do que "em linha", a pesca submarina é por definição um desporto solitário e os praticantes reconhecidamente individualistas, a minha actividade profissional foi muitas vezes feita sózinho, mas funciono bem em equipa - sobretudo sendo eu a dirigir - e nestes últimos anos, o isolamento, o afastamento dos meus e do que era o meu Mundo, também me ensinou muitas coisas, mas se resisto bem é porque já tinha essa tendência e fui assim formado, é um facto.
    Hoje, nas novas gerações depende-se demasiado una dos outros, ao ponto de o telemóvel se ter tornado um vício insuportável expresso no afã de se estar sempre "on line" a partilhar tudo o que se faz ou vê!
    No fundo há desequilíbrio mental nisso, penso eu... nem tanto eremita nem tanto rei da festa!

    Sem passado, não há futuro... e nem presente!

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  3. Não vou falar de obituário nem volto aqui com notícias sobre "de cujus" (nome empregue em Direito para se não nomear o falecido), evitando omissões e constrangimentos, pelo que vou apenas lembrar um livro sobre contos em que o cerne é a solidão. "Sozinho na Multidão", de vários autores como Miguel Real, Paulo Moreiras, José Fanha, Sílvia Alves e Ana Machado, entre outros, vem no seguimento da Crónica.
    Ainda quanto ao texto do DN, 17 anos em solidão não imposta, é obra! Sete anos já seria muito, dependendo da idade com que se começou esse "retiro", o que a Autora não explica.
    "Mundo do Fim do Mundo" é uma viagem até ao limite da terra do autor, a pretexto das baleias e de Moby Dick, tema que Sepúlveda levou a "História de uma Baleia Branca".
    Tenham um bom fim-de-semana... Em casa, de roupão enfiado e a chegarem à janela em bicos de pés!

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  4. Em dois dias a literatura perdeu dois escritores de eleição, que li e que gostava, é portanto um tempo de tristeza para quem como eu gosta de livros e de autores.
    Quanto à solidão ela só é boa em doses qb.
    Henrique Cheira

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  5. De Rubem Fonseca, tenho O caso Morel, que adquiri com a colecção Mil Folhas do Público e terei adquirido, mais recentemente, A grande Arte, seguindo o meu critério de compra, que normalmente implica a leitura de cinco a dez minutos, sentado, de vários extractos aleatórios ao longo do livro. Mas não, ainda não li Rubem Fonseca. Em Sepúlveda, o caso é bem diferente, a sua leitura trata-se de uma paixão antiga e arreigada. Não sei como, mas "O velho que lia romances de amor" caiu-me nas mãos, li-o e encantou-me de imediato. Daí para a frente, comprei tudo de Sepúlveda, então editado na colecção "pequenos prazeres" da ASA. Não sei se agora é aí editado. Diário de um Killer sentimental, Encontros de amor num país em guerra, Nome de toureiro, Patagónia Express, Mundo do fim do mundo, As rosas de Atacama. Estamos a falar de edições na década de 90, julgo. Eu conheço mal a vida do autor. Sei que foi um activista político e ambiental, pouco mais. Os livros que mais me marcaram porém, foram os três últimos, que pintam essas terras do sul, do sul americano, a Patagónia e a Terra do fogo, esses lugares mágicos, quase inóspitos. Lembro-me vagamente de uma descrição que ele faz num dos livros, duma taberna algures em Punta Arenas, associada aos pescadores locais e à sua vida de quase exploradores, nos mares impiedosos do Cabo Horn, onde o continente americano vê a Antártida. De As rosas de Atacama, lembro-me já vagamente, que seja uma compilação de crónicas, onde a que dá nome ao livro fala desse fenómeno quase milagroso e muito difícil de testemunhar in loco, que é o renascimento em condições metereológicas específicas desse horizonte rosado no deserto de Atacama. Julgo que há uma crónica do Fernando Alves (muito bonita, de resto, como é comum no radialista), na TSF dedicada às rosas de Atacama (é procurar nos arquivos podcast da TSF). A história da gaivota e do gato que a ensinou a voar é uma fábula muito bonita, até para adultos, que se passa num terraço de Hamburgo, cidade portuária, onde o autor terá vivido quando colaborou com a Greenpeace. Os piores contos dos Irmãos Grim, foi o último livro de Sepúlveda que comprei, mas ainda não li.

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  6. Eu também gostava (e gosto) muito destes dois, embora fossem escritores muito diferentes.
    Rubem Fonseca: comecei em 2003 com o livro de contos Pequenas Criaturas, da Campo das Letras, logo seguido do #87 da Colecção Mil Folhas O Caso Morel.
    Voltei a ele, já na Sextante, com O Seminarista, A Grande Arte, o José e tantos outros...
    Estranhei a linguagem, depois entranhei: a qualidade e originalidade da escrita eram muito superiores a esse pormenor.

    Sepúlveda: comecei com o Velho, depois li o Gato, e nunca mais deixei de o ler: fui sempre comprando e lendo.
    Tenho alguns escritores assim, vão-me acompanhando ao longo da vida; agora restam-me as releituras...

    Bom fim-de-semana.
    🌻
    Maria

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  7. Embora seja um lugar comum, não deixa de ser verdade, os bons livros imortalizam os seus autores. E Rubem e Luís irão continuar entre nós...

    Li ambos, mas tinha mais afinidades com o Luís (escrevi sobre elas no meu "largo"...).

    "O Velho que Lia Romances de Amor" está no "top 10" dos livros que mais gostei de ler...

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  8. O escritor Rubem Fonseca representa para além das letras, uma áurea entusiasta do contemporâneo. De olhar magnético o entendemos sob clareza salutar.

    Com relação a crônica, amei.
    Cláudia da Silva Tomazi

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  9. EL LABERINTO DE LA SOLEDAD

    Yuri viu que a Terra é azul e disse a Terra é azul.
    Depois disso, ao ver que a folha era verde disse
    a folha é verde, via que a água era transparente
    e dizia a água é transparente via a chuva que caía
    e dizia a chuva está caindo via que a noite surgia
    e dizia lá vem a noite, por isso uns amigos diziam
    que Yuri era só obviedades enquanto outros
    atestavam que tolo se limitava a tautologias
    e inimigos juravam que Yuri era um idiota
    que se comovia mais que o esperado; chorava
    nos museus, teatros, diante da televisão, alguém
    varrendo a manhã, cafés vazios no fim da noite,
    sacos de carvão; a neve caindo, dizia é branca
    a neve e chorava; se estava triste, se alegre,
    essa mágoa; mas ria se via um besouro dizia
    um besouro e ria; vizinhos e cunhados decretaram:
    o homem estava doido; mas sua mulher assegurava
    que ele apenas voltara sentimental. O astronauta
    lacrimoso sentia o peito tangido de amor total
    ao ver as filhas brincando de passar anel
    e de melancolia ao deparar com antigas fotos
    de Klushino, não aquela dos livros, estufada
    de pendões e medalhas, mas sua aldeia menina,
    dos carpinteiros, das luas e lobisomens,
    de seu tio Pavel, de sua mãe, do trem,
    de seus primos, coisas assim, luvas velhas,
    furadas, que servem somente para chorar.
    Era constrangedor o modo como os olhos
    de Yuri pareciam transpassar parede,
    nas reuniões de trabalho, nas solenidades,
    nas discussões das metas para o próximo ano
    e no instante seguinte podiam se encher de água
    e os dentes ficavam quase azuis de um sorriso
    inexplicável; um velho general, ironicamente
    ou não, afirmara em relatório oficial que Yuri
    Gagarin vinha sofrendo de uma ternura
    devastadora; sabe-se lá o que isso significava,
    mas parecia que era exatamante isso, porque
    o herói não voltou místico ou religioso, ficou
    doce, e podia dizer eu amo você com a facilidade
    de um pequeno-burguês, conforme sentença
    do Partido a portas fechadas. Certo dia, contam,
    caiu aos pés de Octavio Paz; descuidado tropeçara
    de paixão pelas telas cubistas degeneradas de Picasso.
    Médicos recomendaram vodka, férias, Marx,
    barbitúricos; o pobre-diabo fez de tudo
    para ser igual a todo mundo; mas,
    quando aparecia apenas banal, logo dizia coisas
    como a leveza é leve. Desde o início,
    quiseram calá-lo; uma pena; Yuri voltou vivo
    e não nos contou como é a morte.

    Eucanãa Ferraz

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