Dedicar

Quando trabalhamos com autores nacionais, na altura em que a obra vai para paginar, nunca nos esquecemos de perguntar se devemos guardar alguma página para a dedicatória. Nem sempre é precisa, mas muitas vezes é. E foi justamente um dos autores que publico, o Paulo Moreiras, quem me mandou um interessante link sobre dedicatórias que contrariam a monotonia habitual. A primeira é de um manual de Álgebra cujo autor escreve « […] aos meus filhos Ella Rose e Daniel Adam, sem os quais este livro teria ficado pronto dois anos mais cedo.» Ironias à parte, alguém dedica um outro livro a todos aqueles cujos nomes aparecem sublinhados a vermelho no Microsoft Word (imagino que o seu nome seja bastante estranho)… Um outro autor escreve esta dedicatória belíssima: «Para Carley, que era melhor pessoa do que eu, embora fosse um cão.» Joan Rivers dedica o seu Diary of a Mad Diva a Kaney West, pela simples razão de que ele nunca o lerá, enquanto Matthew Kline dedica No Way Back à sua mãe, pedindo-lhe que… salte as cenas de sexo. Há um escritor que dedica o livro ao seu editor, dizendo que foi  forçado a isso (ver imagem abaixo) e outro que, na página da dedicatória, agradece à mulher tê-lo apoiado tanto na escrita de um livro que, afinal, é sobre todas as mulheres com quem dormiu antes dela. Enfim, tudo isto prova que se pode chamar a atenção para um livro logo às primeiras páginas…


 


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Comentários

  1. Saramago fazia dedicatórias muito bonitas: "A Pilar, minha casa", n' As Intermitências da Morte; "A Pilar, os dias todos", no Ensaio sobre a Lucidez; ou "A Pilar, que não deixou que eu morresse", n' A Viagem do Elefante.

    Um beijinho para si, Maria do Rosário, que pela primeira vez a comento por aqui.

    Rute Simões Ribeiro

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    1. Muito antes fez grandes dedicatórias a Isabel da Nóbrega, "A Blimunda".

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    2. Sim, mas não fazia sentido manter essas dedicatórias nas reedições depois de estar casado com a Pilar...

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    3. António Luiz Pacheco3 de outubro de 2017 às 08:07

      Não faria?
      Vejamos, ele amou Isabel da Nóbrega, o bastante para lhe as dedicar, certo?
      Foi uma fase, uma época, um amor, que passou mas existiu e teve sentido a ponto de lhe dedicar essa obras.
      Pilar veio depois, foi uma outra época e um novo amor, portanto faz sentido dedicar as obras posteriores a Pilar, certo?
      Mas, faz sentido retirar as dedicatórias que fez nas obras antigas ?
      Não, não faz, em meu entender. Bem sei que para algumas pessoas o passado apaga-se, mas neste caso particular eu acho de mau-gosto o que ele fez, como se apagasse uma pessoa que ele amou num dado momento. Não o deveria ter feito...

      Enfim, é a minha opinião, vale o que vale e nem é a melhor, mas é a que tenho, pelo que sinto. Tiraria eu o apelido da minha primeira mulher ao meu filho? Tiraria alguém?

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    4. Por acaso até sei o que se passou e acho que ele fez muito bem.
      Acho descabido comparar uma dedicatória com o retirar o nome da mãe a um filho - acho que isso nem se pode fazer. A retirar um nome seria sempre o do pai: afinal quem é que andou nove meses com o filho na barriga, o deu à luz e o amamentou?
      Ai estes marialvas...

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    5. António Luiz Pacheco3 de outubro de 2017 às 13:01

      Não tem a ver com Marilvismo, é um exemplo flagrante e que me parece bem claro!
      Tal como achou descabido que se tirasse o nome da mãe ao filho, eu acho descabido que Saramago des-dedicasse os livros reeditados e os dedicasse a quem nem sequer ainda conhecia.
      Por acaso, ou melhor por razões profissionais e de trabalhos científico editados, concordei que a minha ex-mulher mantivesse o apelido de casada, sem qualquer sombra de dúvida.
      E sabe porquê? Porque antes de mais, Marialvismo é respeito pelas mulheres... e agora?
      Ahahah!

      Saudações Marialvas cá da Cidade Morena!

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    6. E agora, o quê?
      E não me interessam minimamente os pormenores dos seus divórcios, escusa de estar aqui a contar a sua vidinha.
      Estávamos a falar de dedicatórias de livros, não era.
      O senhor tem a sua opinião e eu tenho a minha, mais nada.
      Fique bem, se puder!
      Boa noite!

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    7. António Luiz Pacheco7 de outubro de 2017 às 06:50

      Pois... na falta de argumentos, parte-se para a ignorância, numa de superioridade|
      A culpa é minha, que não devia falar com anónimos.

      Mas entendo, a ligam-no a Saramago o azedume e a deselegância.

      Fique bem, se puder...

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  2. E, encorajada pela dedicação a Carley, transcrevo, com a vossa licença, a dedicatória do meu romance sobre D. Dinis:

    «Eu dedico este livro à Lucy, a única testemunha de horas incontáveis em frente do computador.
    A paciência e a dedicação de uma cadela fiel, ainda e sempre para além da compreensão humana…»

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    1. P.S. Reparo agora que aquele "eu", no início, soa estranho, fora do contexto. Na verdade, transcrevi apenas parte da dedicatória, por isso, aqui vai a primeira frase:

      «Dom Dinis deixou o futuro dos seus falcões e açores assegurado no seu testamento, como se de membros da sua família se tratassem».

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  3. António Luiz Pacheco3 de outubro de 2017 às 05:00

    Ora essa, também eu fiz uma dedicatória, e, transcrevo:

    "Este livro pretende exaltar a condição de ser Português, recordar pessoas, costumes e tempos passados mas recentes, heróicos, e deixá-los para os meus. Mas é sobretudo, dedicado e uma homenagem ao nosso povo, à gente brava, valente e corajosa, sacrificada e empreendedora… numa palavra: generosa, que se estendeu pelo Mundo, estabeleceu a Pátria da Língua Portuguesa e a quem os políticos sempre atraiçoaram!
    Aos Portugueses, à minha gente, que reencontremos o orgulho e a alegria de ser aquilo que somos e não nos deixemos cair na tristeza de ser aquilo que querem fazer de nós! "

    Isto é que é largueza! Eheheh! Vaidade à parte ...

    O tema daria para encher vários livros, digo eu... por acaso tenho o hábito de ler as dedicatórias ou outras explicações introdutórias, complementam a obra, penso eu.

    Saudações dedicadas cá da Cidade Morena!

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    1. O António e todos os Extraordinários merecem bem uma dedicatória.

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  4. Em Sem-Abrigo, S.A., no questionário de Proust e antes de dedicar o livro a todos os Sem-Abrigo da cidade de Lisboa, guardei uma página para uma primeira dedicatória: «Às montras da Avenida da Liberdade, à rua das Amoreiras, ao viaduto de Sete-Rios, às arcadas do Terreiro do Paço, às vielas do Príncipe Real,...»

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    1. António Luiz Pacheco3 de outubro de 2017 às 08:09

      Ora essa... e então esqueceu-se de citar as umbreiras e umbrais de bancos e outros edifícios onde estende o seu colchão de cartão?

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  5. Eu, então, sou exemplo de minimalismo em matéria de dedicatórias:

    Para o meu filho Luís.
    [N' A Revolta das Frases]

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  6. Dedicar é um agradecimento, um afectuoso espaço que abraça com as palavras.
    É um bom princípio também, para quem começa a ler um livro e um ainda melhor final para quem o escreve.
    Lucy e "sem abrigos", incrível, dou conta de uma certa afinidade.
    Se para alguns os cães são de facto os melhores amigos, companheiros de caminho, para outros são toda a família e o único reduto de afecto.
    Ao longo da minha vida e andanças, não pude deixar de ver a cumplicidade entre alguns " sem abrigo" e os seus cães.
    E o intrínseco mimetismo.
    Família de certo.
    Era o caso de um homem, numa dessas avenidas do mundo, abandonadas das eras gloriosas e habitadas só pelos esquecidos.
    E defendia o homem a sua cadela e as crias, porque os outros não os queriam ali. Brandiam paus, ferros, e ele só tinha braços,escanzelados por sinal, para os defender.
    Ou a mulher sem idade mas cheia de cicatrizes, que vestia um t'shirt ao seu cão para que não se constipasse com o frio nocturno.
    Não consigo tirar fotografias nessas alturas, guardo tudo na cabeça, nítido.
    Gostava que alguém os pudesse fotografar, para provar ao mundo as improváveis famílias.
    Mas como estamos a falar de dedicatórias, há uma frase do Teixeira de Pascoaes que gostava de vos dedicar Extraordinários:

    " Mas quem somos nós senão os outros?
    Um homem é todas as coisas que ele viu e todas as pessoas que passaram por ele, nesta vida"

    Puck

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    1. Sem dúvida, Puck. E em «Sem abrigo...» há também o cão do personagem. Infelizmente a rua não lhe deu um nome como o de Lucy. Chamaram-lhe (peço desculpa pela grosseria) Merdas!

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    2. Constipar.
      Acho que o meu corrector é de Taiwan, ou então sou eu.

      Puck

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    3. Vou procurar o seu livro.

      Puck

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