Dedicar
Quando trabalhamos com autores nacionais, na altura em que a obra vai para paginar, nunca nos esquecemos de perguntar se devemos guardar alguma página para a dedicatória. Nem sempre é precisa, mas muitas vezes é. E foi justamente um dos autores que publico, o Paulo Moreiras, quem me mandou um interessante link sobre dedicatórias que contrariam a monotonia habitual. A primeira é de um manual de Álgebra cujo autor escreve « […] aos meus filhos Ella Rose e Daniel Adam, sem os quais este livro teria ficado pronto dois anos mais cedo.» Ironias à parte, alguém dedica um outro livro a todos aqueles cujos nomes aparecem sublinhados a vermelho no Microsoft Word (imagino que o seu nome seja bastante estranho)… Um outro autor escreve esta dedicatória belíssima: «Para Carley, que era melhor pessoa do que eu, embora fosse um cão.» Joan Rivers dedica o seu Diary of a Mad Diva a Kaney West, pela simples razão de que ele nunca o lerá, enquanto Matthew Kline dedica No Way Back à sua mãe, pedindo-lhe que… salte as cenas de sexo. Há um escritor que dedica o livro ao seu editor, dizendo que foi forçado a isso (ver imagem abaixo) e outro que, na página da dedicatória, agradece à mulher tê-lo apoiado tanto na escrita de um livro que, afinal, é sobre todas as mulheres com quem dormiu antes dela. Enfim, tudo isto prova que se pode chamar a atenção para um livro logo às primeiras páginas…
Saramago fazia dedicatórias muito bonitas: "A Pilar, minha casa", n' As Intermitências da Morte; "A Pilar, os dias todos", no Ensaio sobre a Lucidez; ou "A Pilar, que não deixou que eu morresse", n' A Viagem do Elefante.
ResponderEliminarUm beijinho para si, Maria do Rosário, que pela primeira vez a comento por aqui.
Rute Simões Ribeiro
Muito antes fez grandes dedicatórias a Isabel da Nóbrega, "A Blimunda".
EliminarSim, mas não fazia sentido manter essas dedicatórias nas reedições depois de estar casado com a Pilar...
EliminarNão faria?
EliminarVejamos, ele amou Isabel da Nóbrega, o bastante para lhe as dedicar, certo?
Foi uma fase, uma época, um amor, que passou mas existiu e teve sentido a ponto de lhe dedicar essa obras.
Pilar veio depois, foi uma outra época e um novo amor, portanto faz sentido dedicar as obras posteriores a Pilar, certo?
Mas, faz sentido retirar as dedicatórias que fez nas obras antigas ?
Não, não faz, em meu entender. Bem sei que para algumas pessoas o passado apaga-se, mas neste caso particular eu acho de mau-gosto o que ele fez, como se apagasse uma pessoa que ele amou num dado momento. Não o deveria ter feito...
Enfim, é a minha opinião, vale o que vale e nem é a melhor, mas é a que tenho, pelo que sinto. Tiraria eu o apelido da minha primeira mulher ao meu filho? Tiraria alguém?
Por acaso até sei o que se passou e acho que ele fez muito bem.
EliminarAcho descabido comparar uma dedicatória com o retirar o nome da mãe a um filho - acho que isso nem se pode fazer. A retirar um nome seria sempre o do pai: afinal quem é que andou nove meses com o filho na barriga, o deu à luz e o amamentou?
Ai estes marialvas...
Não tem a ver com Marilvismo, é um exemplo flagrante e que me parece bem claro!
EliminarTal como achou descabido que se tirasse o nome da mãe ao filho, eu acho descabido que Saramago des-dedicasse os livros reeditados e os dedicasse a quem nem sequer ainda conhecia.
Por acaso, ou melhor por razões profissionais e de trabalhos científico editados, concordei que a minha ex-mulher mantivesse o apelido de casada, sem qualquer sombra de dúvida.
E sabe porquê? Porque antes de mais, Marialvismo é respeito pelas mulheres... e agora?
Ahahah!
Saudações Marialvas cá da Cidade Morena!
E agora, o quê?
EliminarE não me interessam minimamente os pormenores dos seus divórcios, escusa de estar aqui a contar a sua vidinha.
Estávamos a falar de dedicatórias de livros, não era.
O senhor tem a sua opinião e eu tenho a minha, mais nada.
Fique bem, se puder!
Boa noite!
Pois... na falta de argumentos, parte-se para a ignorância, numa de superioridade|
EliminarA culpa é minha, que não devia falar com anónimos.
Mas entendo, a ligam-no a Saramago o azedume e a deselegância.
Fique bem, se puder...
E, encorajada pela dedicação a Carley, transcrevo, com a vossa licença, a dedicatória do meu romance sobre D. Dinis:
ResponderEliminar«Eu dedico este livro à Lucy, a única testemunha de horas incontáveis em frente do computador.
A paciência e a dedicação de uma cadela fiel, ainda e sempre para além da compreensão humana…»
P.S. Reparo agora que aquele "eu", no início, soa estranho, fora do contexto. Na verdade, transcrevi apenas parte da dedicatória, por isso, aqui vai a primeira frase:
Eliminar«Dom Dinis deixou o futuro dos seus falcões e açores assegurado no seu testamento, como se de membros da sua família se tratassem».
Ora essa, também eu fiz uma dedicatória, e, transcrevo:
ResponderEliminar"Este livro pretende exaltar a condição de ser Português, recordar pessoas, costumes e tempos passados mas recentes, heróicos, e deixá-los para os meus. Mas é sobretudo, dedicado e uma homenagem ao nosso povo, à gente brava, valente e corajosa, sacrificada e empreendedora… numa palavra: generosa, que se estendeu pelo Mundo, estabeleceu a Pátria da Língua Portuguesa e a quem os políticos sempre atraiçoaram!
Aos Portugueses, à minha gente, que reencontremos o orgulho e a alegria de ser aquilo que somos e não nos deixemos cair na tristeza de ser aquilo que querem fazer de nós! "
Isto é que é largueza! Eheheh! Vaidade à parte ...
O tema daria para encher vários livros, digo eu... por acaso tenho o hábito de ler as dedicatórias ou outras explicações introdutórias, complementam a obra, penso eu.
Saudações dedicadas cá da Cidade Morena!
O António e todos os Extraordinários merecem bem uma dedicatória.
EliminarEm Sem-Abrigo, S.A., no questionário de Proust e antes de dedicar o livro a todos os Sem-Abrigo da cidade de Lisboa, guardei uma página para uma primeira dedicatória: «Às montras da Avenida da Liberdade, à rua das Amoreiras, ao viaduto de Sete-Rios, às arcadas do Terreiro do Paço, às vielas do Príncipe Real,...»
ResponderEliminarOra essa... e então esqueceu-se de citar as umbreiras e umbrais de bancos e outros edifícios onde estende o seu colchão de cartão?
EliminarEu, então, sou exemplo de minimalismo em matéria de dedicatórias:
ResponderEliminarPara o meu filho Luís.
[N' A Revolta das Frases]
ResponderEliminarDedicar é um agradecimento, um afectuoso espaço que abraça com as palavras.
É um bom princípio também, para quem começa a ler um livro e um ainda melhor final para quem o escreve.
Lucy e "sem abrigos", incrível, dou conta de uma certa afinidade.
Se para alguns os cães são de facto os melhores amigos, companheiros de caminho, para outros são toda a família e o único reduto de afecto.
Ao longo da minha vida e andanças, não pude deixar de ver a cumplicidade entre alguns " sem abrigo" e os seus cães.
E o intrínseco mimetismo.
Família de certo.
Era o caso de um homem, numa dessas avenidas do mundo, abandonadas das eras gloriosas e habitadas só pelos esquecidos.
E defendia o homem a sua cadela e as crias, porque os outros não os queriam ali. Brandiam paus, ferros, e ele só tinha braços,escanzelados por sinal, para os defender.
Ou a mulher sem idade mas cheia de cicatrizes, que vestia um t'shirt ao seu cão para que não se constipasse com o frio nocturno.
Não consigo tirar fotografias nessas alturas, guardo tudo na cabeça, nítido.
Gostava que alguém os pudesse fotografar, para provar ao mundo as improváveis famílias.
Mas como estamos a falar de dedicatórias, há uma frase do Teixeira de Pascoaes que gostava de vos dedicar Extraordinários:
" Mas quem somos nós senão os outros?
Um homem é todas as coisas que ele viu e todas as pessoas que passaram por ele, nesta vida"
Puck
Sem dúvida, Puck. E em «Sem abrigo...» há também o cão do personagem. Infelizmente a rua não lhe deu um nome como o de Lucy. Chamaram-lhe (peço desculpa pela grosseria) Merdas!
EliminarConstipar.
EliminarAcho que o meu corrector é de Taiwan, ou então sou eu.
Puck
Vou procurar o seu livro.
EliminarPuck