Contra-sensos

Li um dia destes no Diário de Notícias que o primeiro livro de Hergé da série Tintim – Tintim no País dos Sovietes –, que até agora só existia na sua versão original, a preto e branco, vai ser finalmente colorido. Mas talvez o país dos Sovietes fosse mesmo um bocadinho cinzentão e as cores agora não respeitem esse mundo obscuro... Espero pela publicação para ver se pintar o livro não será um contra-senso; mas, por falar em Sovietes, lembrei-me de que recentemente o semanário Expresso começou a oferecer em pequenos fascículos uma biografia de Estaline da autoria de Simon Sebag Montefiore, biografia que já tinha sido publicada entre nós num único volume bastante gordo. Exclusivamente para a edição oferecida com o jornal, pediram um prefácio a Francisco Louçã, o que, estou convencida, enriquece a obra; porém, segundo o Manel, que já o leu, o prefaciador não poupa nas críticas à tradução do livro... Não será então um contra-senso oferecê-lo aos leitores tal como estava, não ter aproveitado os reparos para fazer uma boa revisão? É que, mesmo que algumas pessoas não dessem pela calamidade, ficam logo avisadas de que o que têm na mão vem com defeito...


 

Comentários

  1. Emílio Gouveia Miranda30 de janeiro de 2017 às 02:13

    Inteligência saloia, que infelizmente tantas vezes nos caracteriza...
    Ou saloia falta de senso?

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. O meu pensamento ao ler este post não esteve muito longe do que escreveu.

      Eliminar
  2. Bom, um prefácio da biografia de Estaline feita por Louçã... deixará a desejar, porque o que eu li dele, "Os donos angolanos de Portugal", é um péssimo exercício de escrita e um mau trabalho de economia ou política ou o que quer que seja. Se um aluno dele lhe tivesse apresentado tal coisa, como trabalho a nota seria fraca, ou então deduzo que é ele que não é grande coisa como professor...
    Daí as minhas reticências ao prefácio e mais pelas críticas, será ele competente para criticar a obra?
    Francamente não percebo... quando há o José Pacheco Pereira que me parece ser muitíssimo mais competente para prefaciar e até avaliar a referida obra. E até me recordo de mais algumas figuras que são estudiosos da história moderna.

    Fim da parte I da minha postação cá da Morena Cidade!

    ResponderEliminar
  3. António Luiz Pacheco30 de janeiro de 2017 às 02:53

    Postação II:

    Agora sobre o Tintin:

    Já foi há uns bons anos que se reeditou o Tintin no país dos sovietes, e se bem me recordo em versão colorida!

    Mais, em nome do politicamente correcto (como odeio este conceito!!!!!) e para não ofender a esquerda que como sabemos é muito melindrosa e não gosta que lhe recordem o seu passado, nessa altura a versão original foi modificada, para não dar dos soviéticos a tal imagem que Hergé espelhou aquando fez o primeiro álbum.

    O politicamente correcto muitas vezes tem o efeito perverso de alterar, branquear, obliterar... é uma hipocrisia! A literatura não pode nem deve pactuar com isso, nem o Mein Kampf pode ser alterado e nem as obras que denunciem à esquerda e à direita, do islão ao catolicismo, as maldades praticadas pelos homens, irónicamente em nome de ideais!

    Saudações politicamente incorrectas cá da Cidade Morena!

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. António Luiz Pacheco30 de janeiro de 2017 às 03:35

      Posso não ter... pois claro, nem tenho a certeza.
      Como disse, recordo a reedição e as alterações feitas em nome do politicamente correcto - lembro que até ao Lucky Luke substituíram a eterna beata por uma palhinha! - e CREIO que foi também colorida... mas evidentemente que posso estar errado , como aliás parece que sim!
      Tenho na minha biblioteca tintinzal a edição a preto e branco.

      Aceitem as minhas Extraordinárias desculpas pelo erro cometido!
      Saudações culposas e humildes cá da Cidade Morena

      Eliminar
    2. Bolas, Pacheco, fui folhear a minha edição de 1981 de No País dos Sovietes (sem cores, para além do branco, que é a súmula de todas, e o preto, que é ausência delas) à procura das correções políticas, e não estou a ver a que se refere, sinceramente. Parece-me expressar a visão que eu imagino que Hergé teria sobre o País dos Sovietes, e que nem estaria muito longe da realidade. Isso - correção v. incorreção - não será psicose?

      Eliminar
    3. António Luiz Pacheco30 de janeiro de 2017 às 10:31

      Não (enfim, psicose da minha parte não...) e tenho pena de estar longe de onde podia ir buscar informação, mas lembro-me da discussão do tema!
      Quando? Não me recordo, mas creio que foi Vasco Granja quem o noticiou ou vi nalgum fanzine... a reedição desse álbum foi muito criticada. Não sei se foi na revista Tintin, no Pilote... já não me recordo, mas lembro bem as críticas ao Hergé e aos fins da propaganda anticomunista denunciados nessa altura, talvez anos 70 ...

      Abraço

      Eliminar
  4. Os livros de oferta são, por vezes, uma desgraça. Lembro-me de "A quinta dos animais" que a revista Visão distribuiu gratuita nem sei porquê e onde o tradutor diz no início que aporteguesou os lugares. Mas começamos a ler e os portuguesismos são uma miséria que após umas duas ou três páginas ficam esquecidos e o que era em Portugal regressa às origens. E nem sei o que é pior. Mas inibe a vontade de ler (objectivo contrário ao que a revista pretende). E é um mau cartão de visita para o tradutor e revista. Para além da falta de respeito pelos leitores.

    ResponderEliminar
  5. Já vou no III volume da biografia do Staline oferecida pelo Expresso e não notei até agora grandes erros que ponham em causa o essencial. Uma coisa que me intriga é que depois da razia dos Inimigos internos (ex-czaristas, trotskistas, alemães, polacos, etc) e da caça aos velhos bolcheviques, dos comissários políticos e da sua própria "entourage" como conseguiram levar de vencida os alemães é um enigma que talvez o Sebag Montefiore explique nos volumes que se seguem.

    ResponderEliminar

Enviar um comentário